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ROSEA CRUZ

Pessoa: OS HERMÉTICOS

Seleção do espólio do autor por Pedro T. Mota

sexta-feira 1º de agosto de 2014

Fragmentos dos escritos do espólio de Fernando Pessoa, organizado por Pedro T. Mota, sobre o tema «ROSEA CRUZ».

138-15 (Dt) O Desconhecido.

«Os exotéricos têm relações com os anjos, pela magia profunda dominam os espíritos, sabem a significação intima e vital dos símbolos, conhecem a matemática profunda em que assentam as almas, "falaram" com os demiurgos, lidaram com os princípios magicamente causais que estão entre Deus e o Mundo, conheceram Cristo na sua Figura Eterna e na sua Vera Physiognomia não-simbólica.

«Sim, observei, lívido, eles foram aqueles que sem dúvida viram Í sis sem véu.»

«Não só a Ísis viram sem véu, mas com sentidos espiritualizados no seu corpo ao Maior Principio viram frente a frente. Colheram o auxilio de Asmodeus, de Beelzebuth, de outros.

Agora escutai, disse o Desconhecido, baixando a voz que tomou de repente uma intonação de sombra, distante e ao mesmo tempo pavorosamente nítida. Escutai:

Pausou um momento. Depois, não sei se lentamente, mas tenho a impressão que sim, disse-me estas palavras assombrosas:

«Mas nada disso nunca existiu. Os espíritos, os deuses, as Vidas Supremas de que os símbolos falam, os demiurgos, os demônios, os espíritos todos — nunca existiram. São criações dos HERMÉTICOS para uso ilusório dos Esotéricos. Assim como estes só por símbolos não sempre certos dão noticia da sua fé e dos seus poderes aos Exotéricos, aqueles o fazem a eles. Deus mesmo não existe; Deus é uma criação ilusória dos HERMÉTICOS. Existe realmente e verdadeiramente para os Esotéricos, mas verdadeiramente não existe. O mistério é mais profundo do que julgais e de que os Esotéricos julgam. O Mistério É MAIS UNO E INDIVISÍVEL DE QUE DEUS E O ANJOS.

Um grande horror físico descera sobre mim. Eu não sabia para onde pudesse olhar que um terror pessoal não saísse desse objeto.

Quando ergui os olhos não havia ninguém no quarto, além de mim. O grande espelho fitava-me ocamente. Com mão tremula acendi o candieiro. A alegria humilde da luz derramou-se de repente pela sala. Não estava lá ninguém. Eu tinha sonhado então? Não podia determinar se sim, se não. Olhei em volta, cheio de um pavor que morava, rígido, nas minhas mínimas, sentidas, veias.

Mas nada de estranho no quarto. Nada?

Numa estante um livro saía para fora, parecia ir cair. Eu tive uma certeza inexplicável de que aquilo era anormal e estranho, de que (se bem que não tivesse reparado para a estante antes) aquele livro não estivera assim há talvez momentos. Quis ir em direção a ele mexer-lhe, mas um pavor tolheu-me. Por fim pude avançar.

Cheguei ao pé da estante, diante do livro, tirei-o para fora. Olhei-lhe para a capa. Era a Bíblia.

Num gesto rápido, como que decididor da minha sorte peguei na Bíblia e abri-a.

Não sei porquê um versículo foi a única coisa que imediatamente vi, como se o resto da pagina estivesse inteiramente branca. Foi esta, rigorosamente, a sensação que tive.

Abri e li:


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