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Orfeu, Don Juan e Tristão
BLANCHOT, Maurice. L’Entretien infini. Paris: Gallimard, 1969.
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O inferno parece separar Orfeu de Eurídice — mas se o inferno não é senão o espaço da dispersão, é esse espaço que faz de Orfeu aquele para quem vai, sob o véu do invisível, a separação, a dispersão ela mesma.
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Quem segue Orfeu aos infernos? O absoluto da distância, o intervalo sempre desviado.
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O vazio que assim se apresenta é contudo o rosto nu de Eurídice — o encontro movente que tem lugar somente pela força da estranheza e a irregularidade do acaso.
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O desejo que porta Orfeu e que força Tristão não é o impulso capaz de transpor o intervalo e passar por cima da ausência: “O desejo é a separação ela mesma que se faz atraente, é o intervalo que se torna sensível, é a ausência que retorna à presença.”
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O mito de Dom Juan — na medida em que o mundo cristão não o espiritualizou — é o de quem tomou partido pela repetição do número, acolhendo como solução satisfatória o prazer de remuneração.
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Micheline Sauvage observou que o mito de Dom Juan supõe essencialmente a “lista numerosa”, o Catálogo em que o desejo alegre se reconhece no número — pois a eternidade não poderia exaurir o desejo mais do que terminaria o número por um último algarismo.
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Dom Juan poderia perfeitamente deter-se numa única mulher que possuísse uma única vez, contanto que a desejasse não como única, mas como unidade que empenha o infinito da repetição.
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Dom Juan não é o homem que deseja para ter ou possuir: deseja, e esse desejo é de arrebatamento alegre, sem segundas intenções, com uma inocência levemente impudente que se espanta dos rancores que lhe fazem.
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O Comendador não é o representante de Deus nem o além da morte — é ainda o desejo, mas sua face noturna, quando ele é a separação que se faz desejo, o inacessível que seria o “imediato.”
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Dom Juan é o homem do possível — seu desejo é potência, e todos os seus rapports são rapports de poder e de posse; é por isso que é um mito dos tempos modernos.
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Dom Juan quer ser ao mesmo tempo desejo e liberdade, liberdade desejante, o homem que, no peso da fascinação, permaneceria leveza e ação soberana — e a consequência é o Comendador.
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O Comendador é o encontro com o espaço do desejo onde erra Tristão — espaço que é o desejo da noite, mas noite necessariamente vazia para quem quer guardar a plenitude da maestria pessoal: a frieza e impessoalidade da pedra contra quem a ataca pela espada.
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O último jantar com o Comendador — essa cerimônia cortês que toma ironicamente a forma de uma vida altamente socializada — representa o desafio de Dom Juan, resolvido a tratar o outro como se o outro fosse ainda ele mesmo: o que ele então apanha é uma mão fria, e o que percebe é o vazio que é então essa nudez.
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O inferno de Dom Juan é o céu de Tristão — e é em certo sentido o mesmo desejo: talvez Dom Juan seja um mito, Tristão e Orfeu figuras míticas, mas na medida em que o mito precisamente os distingue, como se fosse mais irreal ser apenas Dom Juan, a paixão mutilada, do que ser juntos, na contradição que os divide, Dom Juan e Tristão e Orfeu.
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A paixão de Tristão e Isolda escapa à possibilidade — escapa a seus poderes, suas decisões e mesmo a seu “desejo”; os atrai para o estranho, onde se tornam estranhos a si mesmos, numa intimidade que os torna também estranhos um ao outro.
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“O inacessível se fez o 'imediato' — é mais que súbito: o desejo mais pronto de Dom Juan parece lento e prudente e astuto perto desse abalo sem limite em que Isolda nem tem de se dar, nem Tristão de tomar.”
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Esses amantes, ligados pela ausência de vínculo, parecem menos próximos um do outro do que é, no mundo, qualquer indivíduo de um passante indiferente: “o mundo precisamente desabou”, e somente a impossibilidade os mantém — esse bebido que os bebe, desde que nele tocam os lábios.
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Um dos episódios mais significativos da história: o vinho herbado que os dois amantes beberam por erro é um filtro prudentemente composto para agir apenas durante três anos — e quando esses anos passam, eles conhecem uma espécie de despertar, veem a aspereza de sua vida e se separam.
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Separados, é para de novo se reencontrar; afastados, unem-se no longínquo através do qual não cessam de se chamar, de se escutar e de voltar um ao perto do outro.
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Os cronistas e os poetas ficaram embaraçados com essa contradição: como se fosse preciso ao mesmo tempo que a paixão fosse passageira e que ela permanecesse o lugar do indefinido e o movimento do interminável.
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Tristan casa-se — mas o casamento, suntuosamente celebrado no dia, não pode senão se dissipar na noite: “a noite é sempre ainda a noite do deserto”, pois Isolda de mãos brancas nunca está presente à noite.
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O segredo mais profundo que o mito encerra: Tristão e Isolda, após três anos, despertam de seu desejo; porém, nesse esquecimento, é então que se aproximam do verdadeiro centro de sua paixão — que interrompida persevera.
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“Eles não se amam mais, é justo, o tempo passou, mas é sem importância, pois a paixão não se preocupa com esse tempo, não pode ser resgatada nem apaziguada pela obra do tempo.”
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“Quando o absoluto da separação se fez rapport, não é mais possível ser separado. Quando o desejo despertou por meio da impossibilidade e da noite, o desejo pode bem ter fim — nesse vazio e nessa fim, é o infinito da própria noite que continua de se desejar, desejo neutro que não leva em conta nem a ti nem a mim.”
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Detrás da história de Tristão e Isolda, é preciso apreender essa sombra: “onde alguém é esquecido, ali é desejado; mas é preciso um profundo esquecimento.”
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Os Antigos já pressentiam que Lethe não é somente o avesso de Alétheia — Lethe é também o companheiro de Eros, o despertar próprio ao sono, o afastamento do qual não há como se afastar, pois vem em tudo o que se afasta: “movimento sem traços, apagando-se em todos os traços e que contudo — é preciso avançar faltosamente a expressão — se anuncia ainda, se designa já no faltar a escrever de que a escrita — esse jogo insensato — se lembra fora da memória como de seu limite ou de sua ilegitimidade sempre prévia.”
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