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PENSAMENTO HERMÉTICO DAS ARTES
JOSÉ BERGAMÍN, L'hermétique pensée des arts
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A razão divinizada pelos gregos possui múltiplas faces, e os novos artes poéticos operam sobre duas delas — a órfica e a hermética —, sendo precisamente esse hermetismo racional o que se censura nos artistas contemporâneos.
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Orfeu e Hermes nomeiam duas faces da razão que os gregos elevaram à condição divina.
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Os artes poéticos — poesia, música, pintura — possuem uma razão de múltiplas faces por serem divinos.
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O jogo da razão é sempre um jogo duplo: pensamento face a face ou face contra face, em que a verdade é a parte divina.
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O hermetismo claro e racional dos novos artes poéticos é o que mais se reprova a quem os pratica hoje.
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O presente dos novos artes remete cronologicamente ao momento mais antigo do mundo.
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Swedenborg descreve os homens da mais antiga Igreja como seres que pensavam simultaneamente de modo natural e espiritual em coexistência com os anjos, e é nessa conjunção dupla que reside o sentido do pensamento poético que os gregos chamaram de Hermes.
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Swedenborg afirma que os homens anteriores ao Dilúvio possuíam um gênio celeste que lhes permitia comunicar com os anjos por correspondências.
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Essa coexistência não é mera existência, mas um jogo de conjugação simultânea do natural e do espiritual.
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Os gregos denominaram Hermes esse pensamento recém-nascido, pura e imortal, nascida da razão divina.
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A razão de ser de todos os artes poéticos é essa pensamento recém-nascido da razão divina, e os artes são novos precisamente porque são antediluvianos, contra a superstição vitalista que dominou a primeira parte do século XX.
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Os artes poéticos são velhos por serem de agora e novos quando são antediluvianos.
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A posição declarada é antivitalista: pretende a verdade contra a vida e contra todo critério vital de avaliações espirituais.
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Newman é citado: a vida não pode ser um critério de verdade.
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O vitalismo aplicou dois critérios pretensamente vivos para verificar os artes poéticos: o histórico e o psicológico.
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O critério histórico vitalista estabelece relações entre a obra poética e uma época predeterminada, operando sempre sobre cadáveres e sendo incapaz de alcançar uma avaliação exata da vitalidade da obra.
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A biocrítica histórica dos vitalistas não pode nem poderá avaliar exatamente a vitalidade da obra poética, pois parte de sua mortalidade.
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O historicismo opera como um panorama reconstituído de batalha, tal como o que se oferece aos turistas em Waterloo para julgar Napoleão.
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Falar em arte novo ou antigo, reacionário ou de vanguarda, implica tacitamente uma determinação vital histórica que substitui o único critério possível: o racional.
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Exemplos do critério: dizer “isso é velho”, “isso não se faz mais”, “é preciso fazer outra coisa agora”.
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O critério historicista, tanto referido ao passado quanto ao presente, resulta numa perspectiva irracional e caprichosamente indeterminável que situa as obras em combinações intercambiáveis de perspectivas.
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Afirmar que a distância vital impede ou permite compreender uma obra artística do passado ou do presente é igualmente equivocado: há uma miopia historicista.
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O que se faz ao aplicar esse critério é domiciliar historicamente a obra numa perspectiva caprichosa e, portanto, indeterminável.
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O historicista pergunta como poderia compreender a Divina Comédia sem conhecer a teologia ou a história do século XIII, quando a pergunta racional seria o inverso: como compreender a teologia ou o século XIII sem compreender antes a Divina Comédia.
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O critério historicista inverte a relação racional entre obra e contexto.
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As duas posições se resumem na fórmula: carregar Dante nas costas e meter o nariz em seus assuntos por acreditar ter bom faro.
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O critério historicista intercambiável sustenta as atitudes teatrais de toda vanguarda belicosa, mas o que mais escandaliza socialmente nas artes é o menos vital e o mais racional, não os gestos de escândalo que apenas aparentam racionalidade.
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O escândalo das vanguardas gestuais oculta o critério historicista como seu sentido encoberto.
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Para alcançar a veracidade poética, é preciso eliminar a história como critério de avaliação, assim como a psicologia.
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O critério psicologista ou animista estabelece uma atualidade particular para a obra artística, aproximando-a da consciência do espectador por identificação superposta e substituição ilegítima de personalidade.
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Remy de Gourmont chegou a afirmar que o sentimento estético se reduz a um desvio físico-mecânico do instinto sexual.
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Aplicado progressivamente à consciência, todo critério de avaliação psicologista torna-se obscuro e subterrâneo, produzindo a estupidez da toupeira que acredita que todos os gatos são cinzentos.
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O critério vital de avaliação nutriu a estética de todos os ilusionismos realistas, desde o naturalismo espanhol e holandês até o impressionismo e o simbolismo franceses, culminando na equívoca recente do surrealismo.
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O naturalismo ou realismo ilusionista manifesta-se na pintura clássica das escolas espanhola e holandesa e no naturalismo romântico da escola francesa do século XIX.
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O impressionismo na pintura e o simbolismo na poesia, ambos a partir da França, dirigiram as teorias estéticas mais características do início do século.
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A evolução culmina na equívoca surrealista, movimento mais literário que pictural, embora em pintura deva muito a mãos espanholas.
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Para o critério psicologista ou animista, a poesia não é uma coisa mas um estado, e a arte torna-se transitiva e verbal, condenada à morte pelo tempo, enquanto os que possuem atividade real e impessoal nos artes poéticos desconfiam dos que dizem que sua obra despertou neles o mais vivo interesse.
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Claude Bernard definiu: a vida é a morte; logo, se a arte é vida, é mortal.
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Os artes que despertam o mais vivo interesse são maus procedimentos, os dos vitalistas e tricheurs, artes diabolicamente vivos, verbais, transitivos, da ilusão e da mentira personificados.
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Os verificadores imaginativos afirmam que os artes poéticos são sem vida porque verdadeiros e não podem despertar interesses vivos, apenas verdadeiros.
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Os dois critérios vitais — histórico e psicológico — transformam as obras artísticas em estados imaginativos particulares, fazendo-as evaporar como fantasmas coloridos sob a rampa teatral.
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Mallarmé, o mais puro dos poetas franceses, formulou seu critério em termos de máxima transitividade — “sugerir e não imaginar” —, mas sua poesia foi precisamente a contradição real desse propósito, ilustrando como a teoria artística frequentemente contradiz a realização.
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A contradição entre teoria e obra nos artes poéticos é muito curiosa: uma teoria não cessa de ser científica por ser estética.
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Rembrandt, o mais falso e ilusionista dos artistas, verifica às vezes a pintura por acidente e quiproquó, sem propô-lo.
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Goya, mau pintor ilusionista, alcança resultados por quiproquó tão frequentemente que eles constituem quase a totalidade de sua obra pictural.
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O cubismo, contendo a mais prodigiosa veracidade poética jamais atingida em pintura, teve todas as aparências sociais de uma farsa, inclusive para quem o descobria, exigindo a boa-fé de um Cristóvão Colombo.
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Cézanne funcionou como embalsamador do cadáver impressionista, matando o impressionismo para mumificá-lo e preparando assim o retorno ao caminho real da pintura, o salto do cubismo para a pintura racional dos italianos e flamengos.
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A pintura impressionista fazia poesia das coisas e engendrava monstros imaginativos ilusórios, como uma catedral de Monet ou uma banhista de Renoir.
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Cézanne alimentou com avidez mortífera a fauna imaginativa de seus apetites mais reais, verificando e racionalizando a obsessão do verdadeiro.
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O cubismo vinha afirmar a pintura hermética ou verdadeira: aquela que faz frente, sem armadilhas ilusórias de vitalidade, como pura realidade poética.
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Os primitivos italianos e flamengos, assim como os renascentistas, nunca perderam o fio da racionalidade, a conduta hermética e poética da pintura.
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O surrealismo prolonga as últimas ramificações do ilusionismo realista e comete o erro de tomar por realidade verdadeira a ilusão realista do vitalismo, caindo numa nova ilusão vital — a dos sonhos —, descendo ao inferno sem razão, como Orfeu.
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Novalis é citado: onde não há deuses reinam os espectros.
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O reino espectral do surrealismo se desagrega; seus monstros jovens morrem intoxicados pelo obnubilamento vital de pesadelos sexuais pseudo-científicos.
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O surrealismo é como um impressionismo às avessas que torna difícil sua dissecção espiritual.
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Algo dessa dissecção parece ter se verificado nas últimas etapas de Picasso, cuja paixão hermética não pôde evitar essa resposta formidável.
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O vitalismo surrealista produziu o erro de sonhar imagens em vez de imaginar os sonhos, reivindicando indevidamente pintores como Brueghel e Bosch como seus precursores, quando ter visões é precisamente o mais poeticamente racional.
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Os surrealistas se reclamaram de puros imaginativos como Brueghel ou Bosch, confundindo visão poética com delírio irracional.
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Ter visões é enunciá-las com precisão axiomática e exatidão racional, como fazem em poesia São João ou Dante.
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Para que os sonhos sejam vistos, devem tornar-se visões de verdade, de pintura, racionalmente: coisas de poesia.
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A objetividade imaginativa é a razão de existência poética: sua racionalidade constitutiva.
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A dificuldade dos artes poéticos reside nessa racionalidade imaginativa, nesse hermetismo, que consiste em consentir, por síntese clara e límpida, a percepção turva e confusa — a pura sensação —, como Leibniz chamou de síntese numa percepção confusa.
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É muito difícil obter da alma que renuncie racionalmente à sua inclinação natural de perceber todos os gatos como cinzentos na noite obscura da consciência viva.
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Muito difícil é realizar esse duplo jogo espiritual e natural ou sobrenatural, simultâneo, em que consiste a verificação poética.
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Os artes poéticos são difíceis como tudo que é verdadeiro, mas nada é mais fácil do que crer vivamente tê-los compreendido sem fé, com credulidade estúpida e cegamento supersticioso de ilusão vital.
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As obras poéticas mais difíceis e verdadeiras devem sua notoriedade pública às calúnias difamatórias vitalistas.
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Beethoven, Rafael, Ticiano, Mantegna, Dante, Baudelaire, Poe sofreram o pior fracasso: o sucesso social vital que não lhes correspondia.
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As ressonâncias vitais das obras poéticas respondem como eco a todos que fazem ilusões vivas por causa delas.
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As ilusões são alimento da vida para a morte; as verdades são alimento do pensamento para a imortalidade.
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A verdadeira vida não é esta: é a outra, que é verdade ou imortalidade, poesia, coisa de razão, construção imaginativa.
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A poesia é um estado maravilhoso de coisas imaginativas, independente e autônomo, cuja delimitação precisa é dada pelas matemáticas e pela arquitetura — as duas ciências universais da construção —, e quando a construção poética se afirma em toda verdade, aparece sob um aspecto matemático ou arquitetônico.
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O risco mais perigoso é confundir a razão construtiva da poesia com a construtividade da matemática e da arquitetura.
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Quando a poesia avança até os extremos da pura racionalidade, parece matemática ou arquitetônica; e, nos seus extremos, matemática e arquitetura são poesia.
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A abstração matemática procede por construções espirituais — número e figura geométrica — que não existem como formas sensíveis, e para representá-las é preciso recorrer a um arte poético, sendo a pintura que empresta à geometria suas construções imaginativas, e não o contrário.
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Não há matemáticas sem suportes imaginativos, o que equivale a dizer que não há matemáticas sem poesia.
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Quando o matemático desenha um triângulo, não faz geometria, mas pintura, ainda que seu propósito seja exclusivamente simbólico e representativo.
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Num quadro-negro coberto de signos e figuras geométricas pode-se encontrar um sentimento puramente estético e pictural, ao contrário de uma pintura simbólica ou representativa sem poesia.
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A vizinhança construtiva sensível — a arquitetura — empresta à obra poética o aspecto de brinquedo que convém ao seu hermetismo: fazer uma coisa como brinquedo é torná-la mais verdadeira, mais racional, mais pura.
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Os artes poéticos extremos assemelham-se a construções abstratas pelo que devem às matemáticas, e a brinquedos concretos pelo que devem à arquitetura.
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Carnot é citado: tudo que é extremo escapa aos sentidos e à imaginação.
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Quando o arte poético se afirma como razão pura, vem de nascer hermético do pensamento, e a razão pela qual os artes são poéticos é sua novidade — seu eterno novo-nascimento —, pois Hermes é aquele que nasce e traz novas da razão divina, dispersando-a e dissipando-a com a rapidez do pensamento.
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Hermes é aquele que nasce e anuncia, com surpresa, novidades; é uma parte e partida da razão divina que foge dispersada.
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Os artes poéticos são artes de pensar, de dispersar a razão, de dissipá-la, e só são verdadeiros por serem hermético, por se departirem ou tirarem partido da vida.
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O irracional, crendo-se muito racional diante da obra poética, enuncia sem saber sua exata definição: uma coisa demente.
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A obra poética é uma fechadura que a razão põe ao pensamento, o qual escapa divinamente como Hermes pelo olho da chave que queria impedi-lo.
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Todo arte poético é hermético de nascimento: evasivo e zombeteiro; todas as fechaduras piscam do mesmo modo.
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Hermes foi acusado diante da razão de roubo celeste, pois o pensamento novo-nascido da razão divina é uma verdadeira ladra — não plagiária —, e pensar é roubar a natureza qualquer que seja sua forma imaginativa.
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Pascal pensava que a natureza é imagem da graça: imagens divinas, uma razão de múltiplas faces.
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A propriedade intelectual não é um roubo, mas o roubo é uma propriedade intelectual.
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Quem pensa rouba e foge: foge da razão seguindo seu curso, deixando a fechadura intacta como um bom ladrão.
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O hermetismo escapa finamente pelo olho da chave, deixando a porta fechada; a fechadura é um testemunho.
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O artefato imaginativo é uma fechadura e o pensamento, ladrão de natureza leve, pura e enigmática, foge hermeticamente como a brisa, atravessando a fronte aurora de sua alvorada.
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