Eu
SIGNORILE, Patricia. Paul Valéry, philosophe de l’art: l’architectonique de sa pensée à la lumière des “Cahiers”. Paris: J. Vrin, 1993.
A CONSTRUÇÃO DO EU E A DIFÍCIL EXPERIÊNCIA DO EXPRIMÍVEL
O Eu nasce de si mesmo, o espírito é feito de uma ordem e de uma necessidade de pôr em ordem, e o Eu e o Je são criadores de sentido.
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A citação “Jamais o eu se olha como um efeito. E eis a grande novidade – considerá-lo como tal” é incluída.
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A memória capitaliza as informações fornecidas pela sensibilidade, garantindo seu equilíbrio, de modo que a percepção de um edifício é para o observador a ocasião de se reencontrar em sua totalidade de ser.
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Questiona-se como o Eu permite passar da potência ao ato, da matéria à forma em pleno desabrochar, e como extrair uma filosofia da arte a partir de uma fisiologia e uma psicologia do corpo e do eu.
O SOLIPSISMO VIVIDO
Valéry busca uma notação para o Eu, cujo cifrão não ocorre sem dificuldades, pois a mistura é o espírito, e um espírito não é senão essa mistura da qual a cada instante se desembaraça o Eu.
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A citação “Que de coisas amontoadas no momento do Eu! A quantidade sonora, desordem qualitativa dos ruídos e sua distribuição em espaço ou volume, suas intensidades e causas sugeridas, etc… O fragmento visual: mosaico, linhas de delimitações, ir e vir, figuras e descontinuidades” é incluída.
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O cogito valeriano não é o resultado de uma experiência solitária, mas de uma consciência individual e determinante; o “que pode um homem?” parece fazer eco ao “o que é o homem?” de Kant.
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O pronome eu substitui uma imagem ordinária por uma situação, um modo de conectividade, e o egocentrismo valeriano designaria ao mesmo tempo a ausência de consciência de si e a ausência de objetividade.
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Valéry opõe a consciência, intencionalmente consciência de outra coisa que de si, ao eu, que só pode se conhecer como um objeto, tão transcendente à consciência quanto o próprio mundo.
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O Eu transcendental torna-se o que ouve e compreende a palavra interior, o único espectador das visões.
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O solipsismo vivido, ou “Eu puro”, designa o absoluto da consciência, uma operação única e uniforme que se desprende automaticamente de tudo, sendo o núcleo do átomo homem e a sensibilidade própria do órgão da sensibilidade.
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O Eu ou o Je é a condição simples do pensamento, origem no sentido geométrico, escala do pensamento implicada em cada determinação, sendo o nome bruto de todos os intermediários enterrados no vivido orgânico.
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O Je assegura a síntese e a permanência do Eu, mas também a unidade da consciência e a condição subjetiva de todo conhecimento, sendo o símbolo dessa unidade que acompanha todas as representações.
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A representação do Eu torna possível a unidade das outras representações, e a citação “todo conhecimento repousa necessariamente sobre a relação a essa apercepção como a um poder” é incluída.
O EU: UMA CERTA CONSTRUÇÃO OU O EU E SUAS DETERMINAÇÕES
Se o Eu é primeiramente uma tomada de consciência narcísica e depois um ato refletido, o segredo do máximo de conhecimentos não residiria na observação de si.
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As citações “Nada pode existir para o sujeito se não tiver sido refundido por seu esquema” e “Nós estamos onde não estamos” são incluídas.
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Valéry faz um uso epistemológico de si nos Cadernos, tecendo a perspectiva imaginária e simbólica da construção espacial e temporal do Eu.
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Valéry distingue um “Eu Puro” (fato sempre instantâneo como o centro de massas, comparável à igualdade de ação e reação) e um “Eu emissor” (produção por e para si mesmo, desprovido de finalidade).
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O Eu puro valeriano, ou “negação fundamental”, expressa o ato que cria o fato, obrigando o Eu a apreender a realidade e a pensar a si mesmo em seu poder criador.
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O Eu põe o Não-Eu como limitado pelo Eu, e o Eu é, ele mesmo, como limitado pelo Não-Eu, numa dupla relação que encontra eco na filosofia idealista.
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A filosofia valeriana distingue-se do bergsonismo: o Eu é uma invenção do cérebro, conhecido apenas por centrifugação, como se o ser vivo centrifugeasse algo que é seu universo.
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O Eu valeriano determina um “para-si”, identificando a negatividade, o Não-Eu, com a consciência da liberdade, e a possibilidade para a realidade humana de secretar um nada que a insulariza foi chamada de liberdade por Descartes.
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A citação “meu sistema, sou Eu” é incluída, fazendo do Eu o cifrão da subjetividade encarnada que visa a facticidade humana e temporal do vivido individual.
A MEMÓRIA E A DIFICULDADE DE SIGNIFICAR A EXPERIÊNCIA VIVIDA
Valéry distingue uma memória funcional ou fundamental, e uma memória cronológica ou ordinária.
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A citação “O eu invariante universal – poderia se representar por tal infinidade de substituições. Infinidade tripla, tridimensional C.E.M.” é incluída.
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A vida mental exige a conservação de elementos, cuja conservação é a essência dessa atividade; o nome mais conhecido dessa essência é Eu, invariante universal.
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O modo funcional ou fundamental da memória é redutível ao “Eu puro”, que não é um estado de consciência, mas um fato sempre instantâneo, como o centro de massas.
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O espírito só é possível pela desordem da memória, graças à qual novas distribuições são possíveis no homem.
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Assim como em Bergson, parecem existir para Valéry duas funções da memória: uma que imagina (produtiva) e outra que repete (reprodutiva), sendo a memória ora favorável, ora obstáculo às formações.
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Ao contrário de Bergson, que se obstina em fluidificar, Valéry deseja solidificar; ele não persegue a espacialização da duração, mas busca o que, na memória, se liga ao construído, à propriedade de construir ou reconstruir um todo por meio de algumas partes.
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A função memória indica o caráter do presente pelo qual ele retém o passado imediato e antecipa o futuro imediato; o homem que desperta aprende a ser o que foi e o que será.
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Valéry tentou formular uma ciência do espírito concebida de modo objetivo sobre uma ontologia do factual, na qual os fatos são elevados ao estatuto de essência.
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Utilizando o conceito matemático de função que dispensa o conceito de causalidade, Valéry estabelece uma homologia entre a vida pensante e a vida perceptiva sem reduzir uma à outra.
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O imaginário do corpo emigra para os meios conceituais do artista e para as ferramentas do discurso, sendo assim confiado ao homem.
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O novo homem é o signo de que o absurdo age pelo homem e só tem ele como recurso; o absurdo é uma lei e é espírito.
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A citação “O homem é absurdo pelo que busca, (ele é) grande pelo que encontra” é incluída.
