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holderlin:allemann-la-poesie-comme-document-pre-ontologique

Hölderlin, a poesia como documento pré-ontológico

ALLEMANN, Beda. Hölderlin et Heidegger. Paris: PUF, 1987.

Ser e Tempo remete, em conexão com a explicação do Cuidado como estrutura fundamental do Dasein, à Fábula de Higino — Cura cum fluvium transiit et… — como documento literário para a análise correspondente, dedicando-lhe um parágrafo inteiro intitulado A prova da interpretação existencial do Dasein como Cuidado, com o auxílio da explicitação espontânea pré-ontológica do Dasein.

  • Heidegger não aprofunda, contudo, a questão extremamente importante da relação entre poesia e Dasein.
  • Nota expressamente: “Se o Dasein é 'historial' no fundamento de seu ser, toda enunciação que provém de sua História e a ela retorna, e que, além disso, é anterior a toda ciência, recebe um peso particular, na verdade nunca puramente ontológico.”
  • A enunciação diz algo a respeito do próprio Dasein — é explicitação espontânea do Dasein; a estrutura ontológica do Dasein é o ser-no-mundo.
  • Se o Dasein se explicita a si mesmo, diz necessariamente ao mesmo tempo algo sobre o ser-em e sobre o Mundo — estruturas compreendidas no Cuidado pensado ontologicamente.
  • A fábula de Higino pensa o Cuidado não de modo ôntico, mas pré-ontologicamente — não segundo a ontologia fundamental, mas já com a compreensão particular do ser que pertence ao Dasein — e, assim, não cai completamente ao nível da estimação ôntica do Cuidado como preocupação e tormento.

A questão do que autoriza admitir essa interpretação revela que a aptidão da fábula para corroborar descobertas ontológicas não se explica pelo simples fato histórico de que o motivo do Cuidado tenha sido transmitido sob muitas formas.

  • Heidegger atribui à fábula um peso particular por provir da História do Dasein — conceito ainda não esclarecido em Ser e Tempo.
  • O fato ôntico de que o motivo do Cuidado possua uma tradição não prova nada quanto a sua aptidão para corroborar descobertas ontológicas.
  • Essa aptidão se explica unicamente pela importância ontológica da estrutura mesma do Cuidado, que faz presumir que, já no interior do conceito ôntico de cuidado, as estruturas fundamentais do Dasein se deixam entrever.
  • Para apreender em toda a sua amplitude o que já é pensado onticamente na palavra Cuidado, Heidegger passa em revista a sucessão das significações da palavra cura.
  • É preciso mostrar, pela análise ontológica existencial, que é a estrutura ontológica do Dasein que torna possível que algo possa ser designado como Cuidado.

A questão formulada em termos alternativos — se é o conceito ôntico de cuidado que deixa transparecer as estruturas ontológicas, ou se é a perspicácia ontológica que as descobre mesmo no conceito ôntico — está certamente mal colocada, pois esquece que toda compreensão ôntica remete de antemão a uma compreensão do ser pré-ontológica que é seu fundamento.

  • O ente como tal só é visível na clareira do ser — não há conceito ôntico sem compreensão prévia do ser, de qualquer maneira que seja.
  • A ontologia fundamental quer unicamente radicalizar essa compreensão do ser.
  • Nesse domínio, nada mais se deixa demonstrar — citar a fábula do Cuidado não tem por objetivo demonstrar a justeza da análise existencial, mas sim afastar o que ela poderia ter de estranho à primeira vista e facilitar sua abordagem.

O fato de que o testemunho citado seja de natureza poética é, nesse momento, desprovido de qualquer importância — trata-se unicamente da explicitação espontânea do Dasein que se enuncia no texto.

  • Em todo Ser e Tempo, não há a menor alusão ao fato de que o poético pudesse ser particularmente apropriado a tal explicitação.
  • A poesia é classificada, em sua relação à explicitação do Dasein, ao lado da psicologia filosófica, da antropologia, da ética, da “política”, da biologia e da historiografia — qualquer dessas matérias poderia ter fornecido um testemunho equivalente ao da fábula do Cuidado.
  • É isso o que Heidegger quer dizer ao qualificar a fábula de documento pré-ontológico.
  • O conceito de existência em Heidegger não possui características derivadas, por exemplo, da psicologia do artista como “criador” — ao contrário de conceitos centrais como Vida e Evolução criadora no pensamento de Dilthey ou de Bergson.
  • A disposição, a compreensão como modos de ser constitutivos do Dasein e a decaída são, antes de tudo, essencialmente independentes do fenômeno do Dasein artístico — não o excluem, mas tampouco vão ao seu encontro.

A despeito da ausência essencial de relação entre Ser e Tempo e o fenômeno da poesia enquanto tal, nada parece se opor de saída à valorização dos resultados da análise existencial em vista de uma teoria da poesia — porém é preciso ver claramente, de início, que tal uso não levaria em conta o caráter provisório da análise fundamental.

  • Uma crítica literária existencialista que se reclama de Heidegger só é possível graças a um mal-entendido antropológico.
  • Sem penetrar aqui nesse conjunto de questões, é importante, para a continuação do trabalho, não mascarar desde já o essencial — no encontro de Heidegger com Hölderlin — por meio de pressupostos críticos que, reclamando-se de Heidegger, não chegam sequer ao domínio de seu questionamento.
  • Conceitos como os de existência, tonalidade afetiva, Dasein e mundo, destacados do contexto da questão do ser, não podem de modo algum — embora isso pareça fácil terminologicamente — fundar a poesia no sentido da palavra em Heidegger tardio.
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