Metáfora I
FRYE, Northrop. The Great code: the Bible and literature. New York ; London: Harcourt Brace Jovanovich, 1982.
A Bíblia está repleta de figuras de linguagem porque grande parte dela é contemporânea de uma fase metafórica da linguagem, onde muitos significados verbais não podem ser transmitidos a não ser por meios metafóricos e poéticos.
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Trocadilhos e etimologias populares aparecem em todo o texto hebraico, sendo a palavra “Babel” associada a um termo hebraico que significa confusão, e o nome de Moisés é derivado de uma palavra hebraica que significa “tirado das águas”.
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O Novo Testamento continua com os mesmos padrões, incluindo trocadilhos em grego e aramaico, como em “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.
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A Bíblia está cheia de metáforas explícitas do tipo “Isto é aquilo”, como “Issacar é um jumento forte”, e declarações de Jesus como “Eu sou a porta” e “Eu sou a videira, vós sois os ramos”.
O aforismo de Jesus “O reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21) ilustra como a tradução depende da atitude do tradutor, e a discussão séria começa por rejeitar o significado descritivo para discutir que tipo de metáfora é significada pela palavra.
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Tradutores que preferem metáforas psicológicas vertem “dentro”, enquanto os que preferem um evangelho social vertem “entre vós”.
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A frase “espiritualmente discernido” (I Coríntios 2:14), onde Paulo contrasta a letra que mata com o espírito que vivifica, significa centralmente “metaforicamente”.
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Em Apocalipse 11:8, a Jerusalém terrestre é chamada espiritualmente de Sodoma e Egito, demonstrando que uma cidade é metaforicamente a mesma cidade demoníaca que as outras.
A metáfora implícita, produzida pela justaposição de imagens sem a palavra “é”, é um princípio fundamental da linguagem bíblica e poética.
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O poema de Pound sobre o metrô de Paris (“The apparition of these faces in the crowd; Petals on a wet, black bough”) exemplifica a metáfora por justaposição, onde qualquer predicação enfraqueceria o poder metafórico.
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Provérbios 11:22 (“A joia de ouro no focinho de um porco; a mulher formosa sem discrição”) demonstra a mesma técnica sem o tecido conjuntivo.
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O princípio do significado implícito transmitido pela justaposição de palavras é o princípio geral da “explication de texte” e da hermenêutica, que se originou na exegese da Bíblia.
O significado literal primário da Bíblia é seu significado centrípeto ou poético, que surge simplesmente da interconexão das palavras, sendo este o significado metafórico.
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A descrição verbal mais fiel sempre se afastará do que descreve em direção a suas próprias ficções gramaticais autocontidas de sujeito, predicado e objeto.
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Quando Jesus diz “Eu sou a porta”, a afirmação significa literalmente o que diz, mas não há portas fora do versículo em João para serem apontadas.
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O significado literal primário, que surge da interconexão das palavras, é o significado metafórico, ao qual todos os significados secundários derivados da perspectiva centrífuga estão subordinados.
A unidade da Bíblia como um todo é uma suposição subjacente à compreensão de qualquer parte dela, e essa unidade é primariamente uma unidade de narrativa e imagética, não uma consistência metonímica de doutrina.
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Depois que uma estrutura verbal é lida e relida o suficiente para ser possuída, ela “congela” em uma unidade na qual todas as partes existem simultaneamente, permitindo o estudo da “forma espacial”.
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Se a Bíblia é lida sequencialmente, ela se torna um mito (narrativa com material significativo); se é “congelada” em uma unidade simultânea, torna-se uma única metáfora gigantesca e complexa.
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Tradicionalmente, a narrativa da Bíblia tem sido considerada “literalmente” histórica e seu significado “literalmente” doutrinário, mas o livro argumenta que mito e metáfora são as verdadeiras bases literais.
O significado metafórico tem a mesma relação com o significado discursivo que o mito tem com a história: é um significado universal ou poético que pode sustentar várias interpretações consistentes de seu significado discursivo.
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A metáfora do corpo e das roupas em “Sartor Resartus”, de Carlyle, é o significado primário ou universal do construto de Fichte, do qual a filosofia germânica cresceu.
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Os mitos de Platão não ilustram seus diálogos, mas são o significado primário do qual as discussões dialéticas formam um comentário.
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A Bíblia tem uma estrutura de significado universalizado ou poético que pode sustentar várias interpretações teológicas discursivas, especialmente depois da Reforma.
Na fase descritiva, as interpretações morais e didáticas do mito foram substituídas por interpretações quase antropológicas, mas o princípio de que um mito pode sustentar uma variedade indefinida de tais interpretações permanece válido.
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A abordagem da Bíblia em relação ao conhecimento natural é paralela à sua abordagem em relação à história: o homem pode ser deixado para obtê-lo por si mesmo, e a Bíblia não bloqueia seu desenvolvimento.
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A frase de Jó, “ele suspende a terra sobre o nada”, é uma metáfora ousada que não atrapalha o futuro crescimento da astronomia.
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A sabedoria na Bíblia nunca é associada a nenhum tipo de conhecimento esotérico, como exemplificado pela observação de Jesus a Caifás: “Em segredo nada disse”.
Os deuses politeístas são metáforas geradas pela associação do homem com a natureza como “natura naturans” (natureza como força de crescimento), e a Bíblia condena apenas a idolatria que projeta essa sensação de presença divina na própria natureza.
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Passagens como “Considerai os lírios” indicam sensibilidade ao poder da “natura naturans”, mas a Bíblia se opõe a sentir o numinoso na natureza, pois isso submete o homem a um poder externo que ele mesmo projetou.
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A mitologia da “mãe-terra” (uma “diva triformis” associada ao nascimento, morte e renovação no tempo) e de seu companheiro masculino (o “deus que morre”) representa o ciclo da natureza.
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A mitologia bíblica se desenvolve do ciclo da “natura naturans” para a concepção de “natura naturata” (natureza como estrutura), com o deus supremo sendo pensado cada vez mais como um “pai-céu” que faz o mundo em vez de dar à luz.
Se uma mitologia inteira é “congelada”, ela se transforma em uma cosmologia, e o paganismo congelado parece ser dominado pela visão da recorrência cíclica sem começo ou fim absolutos.
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O mito bíblico enfatiza um começo e um fim totais do tempo e do espaço, com a Criação como um começo absoluto.
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O Antigo Testamento profetiza um “dia de Javé” como um desastre apocalíptico, que no Novo Testamento é pensado mais especificamente como um “kairos”, um tempo que tem um fim.
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A ressurreição no Novo Testamento não é renovação ou renascimento cíclico, mas uma ascensão vertical de um mundo de morte para um mundo de vida.
O reino de Deus de Jesus é um mundo idealizado, metaforicamente idêntico ao jardim do Éden espiritual e à Terra Prometida, com imagens derivadas do topo do ciclo natural (juventude e primavera) e do trabalho humano criativo.
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Na literatura, os dois grandes padrões organizadores são o ciclo natural (comédia) e uma separação final entre um mundo idealizado e um mundo horrível (tragédia).
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A visão da Bíblia sobre a miséria é irônica em vez de trágica, mas a separação dialética dos dois mundos é igualmente fortemente marcada.
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O “eterno” como “tempo sem fim” ainda é simplesmente tempo; para Jesus, céu e inferno eram as duas realidades permanentes da existência, não extensões temporais.
Há uma suposição na Bíblia de que existem dois níveis na relação do homem com a natureza: o nível inferior (contrato com Noé) de exploração dominadora, e o nível superior (Jardim do Éden) de harmonia e domesticidade.
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O contrato de Deus com Noé estabelece que o medo e o pavor do homem cairão sobre todos os animais, que são entregues como alimento, sem restrições.
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O nível superior, atribuído a Adão e Eva no Éden, é um mundo onde o homem vivia apenas de frutos e todos os animais eram animais de estimação para serem nomeados.
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A visão profética de Isaías (o lobo habitando com o cordeiro) aponta para a transformação da relação alienada do homem com a natureza em uma vida espontânea e sem esforço.
Quando a Bíblia é vista estaticamente como um aglomerado de metáforas simultâneo, descobre-se que ela oferece não tanto uma cosmologia, mas uma visão de metamorfose ascendente.
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A Bíblia é um livro escrito que aponta para uma presença falante na história, identificada como o Cristo no Novo Testamento, e a frase “palavra de Deus” se aplica tanto à Bíblia quanto a essa presença.
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A Bíblia subordina deliberadamente seu significado referencial ou centrífugo ao seu significado primário, sintático e centrípeto.
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Identificar a Bíblia e a pessoa de Cristo metaforicamente faz sentido, pois não há mais duas coisas, mas uma coisa em dois aspectos.
