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PARQUE DOS CERVOS

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Escrever é um ato de osmose pelo qual certas coisas penetram para sempre em quem escreve — através da pena e da mão —, porque não querem separar-se de quem as escreve, assim como quem escreve não quer separar-se delas.

Na alegria, move-se num elemento que está completamente fora do tempo e do real — com presença perfeitamente real.

  • “Incandescentes, atravessamos as paredes.”

A história maravilhosa do Faraó Micerino, condenado pelos deuses a morrer jovem, é uma parábola do poeta — inimigo involuntário da lei da necessidade.

  • A doce clemência de Micerino não encontra graça aos olhos dos deuses, por ter traído o destino trágico do Egito após as tiranias de Quéops e Quéfren.
  • O Faraó manda iluminar seus palácios e parques com milhares de lâmpadas — das noites fará outros tantos dias, vivendo assim doze anos em vez dos seis que lhe restam.
  • “O que pode fazer o poeta injustamente punido senão transformar as noites em dias, as trevas em luz? Manter para a vida o que a vida nos prometeu em vão, como diria Hofmannsthal.”

O amor é por essência trágico porque dele — somente dele — a flecha do presente voa instantaneamente para o futuro, fixando um termo ignoto do qual a alma não pode de modo algum se subtrair.

  • “Eu mantive os pés naquela parte da vida além da qual não se pode ir mais pelo desejo de voltar.” — Dante, Vita Nova.

“O grande enigma da vida humana não é o sofrimento, é a desventura” — descoberta que poucos fazem, e talvez a única pedra angular sobre a qual seja dado firmar o pé.

  • O reino do padecimento humano pode ser dividido em desventura da mão direita e desventura da mão esquerda — “os antigos conheciam essas sagradas metáforas, além das quais não há definição possível.”
  • “A desventura da mão direita está para a da mão esquerda como um ferimento por arma branca está para a pressão das areias movediças, para a morte de sede no deserto.”
  • A pobreza, a despedida, a perseguição, a própria morte podem ser desventuras da mão direita — “muita poesia floresceu delas, a mais bela.”
  • As desventuras da mão esquerda quase sempre permanecem mudas — poucos escapam para contá-las, como Jonas do ventre do Leviatã.
  • “É o milagre do Filoctetes e do Ricardo II, do Tramonto della luna e dos últimos versos de Hölderlin. De Un amour de Swann e do Quarto número 5. Daquele soneto miraculoso de Gaspara Stampa: 'Senhor, eu sei que em mim não estou mais viva.'”
  • “Como na Fênix, a vida neles resplandece além de suas próprias cinzas.”

O crítico é um eco — mas não é também a voz da montanha, da natureza, para a qual a voz do poeta se dirige?

  • “O crítico está diante do seu poeta como o poeta diante dos apelos do próprio coração.”
  • No momento de falar do poeta, o crítico deve tê-lo já inteiramente sofrido — “restituí-lo não como simples espelho, mas como um eco: carregado e impregnado de todo o caminho percorrido, na natureza, por uma e outra voz.”

O modo pelo qual um poeta extrai de seu trabalho passado novas iluminações para sua consciência assemelha-se ao de Münchhausen para alcançar a lua: cortando a corda abaixo de si para alongá-la acima.

A pura poesia é hieroglífica — decifrável somente em chave de destino.

  • “Por anos retornar extasiado à beleza dos patos, dos arqueiros, dos deuses com cabeça de cão ou de milhafre, sem sequer suspeitar sua fatal disposição.”
  • “Quantas vezes repeti para mim certos versos ou versículos: 'Ó cidade, eu te escrevi na palma das minhas mãos', 'This day I breathed first, time is come round…', 'O estar mortos não nos dá repouso' — mas em torno de sua posição secreta, enquanto o meu próprio destino não me deu a chave, girava cegamente: como em torno de uma coluna historiada da qual descobrisse apenas uma figura de cada vez: o escriba, a serpente, o olho.”

Poesia hieroglífica e beleza são inseparáveis e independentes — sente-se a justiça de um texto muito antes de ter compreendido seu significado, graças ao puro timbre que é só do mais nobre estilo.

  • “A mente minha trespassada e roubada / pelos ladrões meus pensamentos / que me prometeram o tempo e não o aguardaram…”
  • “Como na natureza, que é bela somente por necessidade real, também na arte a beleza é um sobrémercado: é o fruto inevitável da necessidade ideal.”

As profundas ruas rápidas entre as casas sem luz dos pobres de Masaccio são as ruas do bairro de San Frediano — mas no afresco são as Ruas dos Pobres: Florença ou Jerusalém, Roma ou Palmira.

  • “E, todavia, não o seriam se não fossem antes de tudo e até a última fenda da pedra as ruas de San Frediano: onde ainda parece fugir, certas manhãs de inverno, a sombra do rapaz que subia a quatro degraus de cada vez a escadaria do Carmine.”
  • “Não conheço poesia universal sem uma raiz precisa: uma fidelidade, um retorno.”

O máximo de sabor de cada palavra requer os elementos reunidos da força vital e da espiritual: violência e doçura, lentidão e rapidez, imprevisto e inevitável, enraizamento e leveza.

  • “O máximo de sabor não o saboreamos nunca nas palavras raras nem nas do costume — as palavras sem cidadania precisa, as palavras que Maquiavel acusava de lenocínio — mas nas puras e originárias, no real, quando impelidas pela força vital como por uma matriz e desabrocham na clareza do espírito como flores.”
  • “Palavras-corolas, escandidas pelas suas vogais e consoantes como por pétalas e nervuras.”
  • “O mein Herz, wird untrügbarer Kristall / in dem das Licht sich prüfet…” — “Tearful city / whose stars / of matchless splendor / and in brightedged / clouds…” — “dans l'air liquide et glacial… comme dans une coupe d'eau pure, les narcisses, les jonquilles, les jacynthes…”
  • “Ou simplesmente: 'Je demandais à Albertine si elle voulait boire. Il me semble que je vois là des oranges et de l'eau, me dit-elle, ce sera parfait.'”

Haroun al-Rashid é a eterna e encantadora imagem do artista — vaga a noite inteira em vestes de mercador, identifica-se com o último carregador, marinheiro ou bandido, arrisca com ele a vida ou o corte da mão.

  • Mas permanece sempre o califa: que pela manhã se sentará no trono de ouro da justiça e deverá assumir o destino, o significado, de todas aquelas existências.
  • “A força do seu cetro está em lançá-lo a cada noite, como a varinha de Próspero.”

A verdade é sempre um pouco maior do que o verdadeiro — a verdade que fala por hipérboles exatas.

  • “Levai meu cadáver”, diz Édipo.
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