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Lispector

Clarice Lispector

SCHUBACK, Marcia Cavalcante. Atrás do pensamento: A filosofia de Clarice Lispector. Rio de Janeiro, RJ: Bazar do Tempo, 2022.

Clarice vê o claro do fato bruto de a existência existir. Não para descrever ou reproduzir, muito menos para explicar ou comparar a outros modos de ver alguma coisa. Seguir a visão do claro fato de a existência existir é dar-lhe as mãos. É ver junto. É conviver nesse claro tão obscuro do estar existindo. A clareza com que Clarice vê o claro não deve ser confundida com uma filosofia, embora esteja tão próxima do que nos habituamos a chamar de filosofia, como a vida está próxima da morte a cada instante. Clarice é uma autora que provoca a filosofia. Foi logo comparada aos existencialistas, alemães como Heidegger, franceses como Sartre. Outros querem reconhecer o seu espinozismo e as linhas do pensamento judaico. Para muitos, Clarice é uma autora mística, às vezes cristã, às vezes budista ou bramânica, cabalista e macumbeira, cheia de bolas de cristal. Há também quem a veja com uma híbrida existencialista mística, só que ainda mais mística que existencialista ou romântica. É, ainda, admirada como fenomenóloga, uma filósofa das coisas voltadas para elas mesmas. Sem dúvida, jamais uma racionalista dogmática. Não obstante as aproximações com filósofos de várias tradições, e mesmo considerando as referências a filósofos que encontramos em suas obras, um Bergson aqui, um Pascal ali, para citar só alguns, a provocação filosófica da sua obra coloca, mais uma vez, uma das questões mais antigas da filosofia: a da sua relação com a poesia, o mito, a ficção, a literatura. Para muitos, Clarice é uma escritora filosófica. Ao dizer isso, porém, há quem queira “elevar” a literatura, pois de há muito a palavra “filosofia” virou carimbo de legitimação, de valor, de profundidade e exclusividade. É como se a literatura tivesse de se legitimar e se justificar perante a filosofia. Além disso, ao se dizer que um autor é filosófico, entende-se muitas vezes que, mesmo não sendo filósofo, tem “intuições” filosóficas, que levanta e até se debruça sobre temas considerados filosóficos, como a questão do ser e do dizer; de deus e do mundo; do bem e do mal; da liberdade e da necessidade; do universal e do particular; do fundamento e da existência; da causalidade e da finalidade da vida. É pretender que esse autor possua uma “concepção de mundo” e de vida. Qualificar de “filosófico” um autor é, assim, não somente admitir, mesmo que veladamente, que à literatura falta alguma coisa - a filosofia -, mas também que uma certa compreensão de filosofia monopolizou a experiência do sentido, que se chama pensamento. Ocorre que a filosofia não é a única forma de pensar e que nem o pensar é objeto exclusivo da filosofia. Ademais, a filosofia se diz e se pensa de muitas maneiras, sendo mais plural que unitária, mais finita que eterna. Se a obra de Clarice provoca a filosofia não é porque poderia indicar o caminho para uma filosofia literária, mais tocante e viva do que a prosa de conceitos áridos e formais que caracteriza o discurso filosófico. E nem ainda por chamar atenção para o fato de a filosofia não ser o mesmo que exercícios de lógica ou compilação de citações, que haveria uma não filosofia dentro da própria filosofia que a sua obra saberia extrair.

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