1 Presença
HADOT, Pierre. N'oublie pas de vivre: Goethe et la tradition des exercices spirituels. Paris: Albin Michel, 2008.
A presença é a única deusa que adoro. [Goethes Gespräche, t. I, pág. 232: conversación con Friederike Brun en Karlsbad, 9 de julio de 1795.]
1. Fausto e Helena
1. Quando, na segunda parte do Fausto, o herói de Goethe declara que só o presente é a felicidade, parece ter atingido o ápice de sua aspiração incessante à mais elevada existência, tendo a seu lado Helena, a beleza entrevista no espelho da cozinha da bruxa, evocada diante do Imperador, buscada em todas as formas míticas da Grécia clássica e finalmente refugiada na fortaleza medieval da qual Fausto é senhor.
2. O encontro entre Fausto, figura do homem moderno sob a forma de cavaleiro medieval, e Helena, figura da Beleza antiga e da Beleza da Natureza, é carregado ao mesmo tempo da emoção de dois amantes, do significado histórico do encontro entre duas épocas e do sentido metafísico do encontro do homem com seu destino.
3. A forma poética figura simultaneamente o diálogo amoroso e o encontro das épocas, pois Helena, que falava em trímetros iâmbicos da tragédia antiga, encanta-se com os dísticos rimados e aprende com Fausto o abecedário do amor completando as rimas que ele inicia, num jogo que culmina na confirmação dada pelo dom de sua mão.
4. Esse diálogo amoroso e poético foi seguramente inspirado pela experiência vivida por Goethe em 1814 e 1815 com Marianne von Willemer, que respondia com seus próprios poemas aos do Divã Ocidental-Oriental, onde a situação de Fausto e Helena já se esboça na troca de metáforas e rimas entre amantes.
5. Quando o diálogo amoroso e ritmado se retoma, vive-se um instante de tal intensidade que o tempo e o drama parecem deter-se, com Helena sentindo-se ao mesmo tempo distante e próxima e Fausto exortando-a a não pensar em seu destino, pois existir é um dever ainda que seja apenas por um instante.
6. Mefistófeles, sob a máscara de uma Fórcida, rompe esse momento perfeito ao anunciar a aproximação das tropas de Menelau, mas as disposições de Fausto e Helena ainda se refletem na descrição da Arcádia ideal onde gerarão Eufórion, o gênio da poesia.
7. Num primeiro nível, o diálogo é o de dois amantes como todos os outros, absortos na presença viva do ser amado a ponto de esquecer passado e futuro e de sentir, pelo excesso de felicidade, que tempo e lugar se desvanecem como num sonho.
8. Num segundo nível, trata-se do encontro simbólico entre o homem moderno em seu esforço sem fim e a beleza antiga em sua presença apaziguadora, no qual Helena se moderniza ao adotar a rima, símbolo da interioridade moderna, e ao refletir sobre seu destino, enquanto Fausto se antiquiza ao convidá-la a concentrar-se no instante presente.
9. Para Goethe, saber viver no presente e conhecer a saúde do momento era precisamente a característica da vida e da arte antigas, e por isso o ensinamento da rima pelo alemão à heroína grega caracteriza melhor que qualquer outra coisa a natureza particular da Grécia.
10. Num terceiro nível, como Antiguidade e Natureza andam juntas para Goethe, o encontro com Helena é o encontro com a Beleza, com a presença da Natureza e com a antiga arte de viver, que revela ao Fausto niilista o esplendor do ser, isto é, do instante presente, e o convida a dizer sim ao instante, ao mundo e a si mesmo.
2. O presente, o trivial e o ideal
1. Numa carta a Zelter de 1829, ao lamentar a ausência do amigo, Goethe medita sobre o presente e a presença, noções reunidas na palavra alemã Gegenwart, observando que o ausente se torna uma pessoa ideal enquanto os presentes se parecem mutuamente triviais, razão provável pela qual o ideal dos modernos só lhes aparece como nostalgia.
2. Os modernos visados são os românticos, cuja visão de mundo triunfava então na Europa, marcada pela nostalgia do ser ausente, do passado, do futuro ou de outro mundo e acompanhada de um desprezo pelo real, pelo cotidiano e pelo presente considerado trivial, algo que Goethe rejeita totalmente.
3. Goethe não ignora que os instantes da vida cotidiana podem afundar no que chama das Gemeine, o trivial, o vulgar e o mediocre, e considera que o grande perigo para o homem é não conseguir elevar-se acima dessa banalidade, como se elevou o espírito de Schiller.
4. O trivial é a vida não iluminada pela Ideia, dominada por hábitos, preocupações e interesses egoístas que ocultam o esplendor da existência, e dele não se escapa fugindo para um ideal distante, como os românticos, mas reconhecendo o valor e a riqueza de cada instante presente e desvelando nele o ideal, seja pela intensidade da experiência, pelo valor moral do dever ou pela idealização da arte, visão do ideal no real que Goethe encontrava em Claude Lorrain e sobretudo na arte antiga.
5. Diante das cópias das pinturas murais de Herculano e Pompeia, Goethe vê o que há de mais maravilhoso na Antiguidade, a saúde do momento e todo o seu valor, pois essas figuras, ainda tão próximas após dois mil anos, dão a sensação de que o instante devia impor-se e bastar-se a si mesmo como digna cesura entre o tempo e a eternidade.
6. As obras de arte antigas revelam primeiramente o sentido do instante que se impõe, o kairós que é preciso captar e representar para nele fazer ver passado e futuro, como no túmulo da dançarina em que a agilidade da passagem de uma figura a outra é fixada num momento que transporta a um estado supraterrestre.
7. A propósito do Laocoonte, Goethe observa que, para uma obra plástica mover-se diante do olhar, é preciso escolher um momento de transição entre uma posição que ainda não existia e outra que logo será abandonada, de modo que a obra permaneça sempre viva diante de milhões de espectadores.
8. A escolha do momento decisivo nas obras antigas supõe uma atenção aguda ao instante presente, à sua significação e ao papel que desempenha no desenvolvimento dos acontecimentos e no devir do processo.
9. As obras antigas revelam também um sentido profundo do valor da vida e da presença viva dos seres e das coisas, como Goethe experimentou diante das estelas funerárias de Verona, que, em vez de figuras ajoelhadas à espera da ressurreição, representam com naturalidade a simples presença dos homens reunidos e amando-se, dando continuidade à sua existência.
10. Para exprimir a saúde com que os antigos descreviam a presença das coisas, Goethe formula que eles representavam a existência enquanto os modernos pintam o efeito, de modo que a busca moderna do efeito resulta em exagero, maneirismo e falsa graça, ao passo que em Homero até os episódios mais fantásticos possuem uma naturalidade que tornou viva para ele a palavra Odisseia diante das paisagens mediterrâneas.
3. Arcádia idílica
1. Àquela que convidou a reconhecer no presente a única felicidade, Fausto propõe retornar à sua pátria, junto ao murmúrio dos juncos do Eurotas, onde ela nasceu.
2. Junto ao Eurotas, onde Zeus sob a forma de cisne se uniu a Leda, encontra-se a Arcádia, símbolo para Goethe da liberdade e da alegria da natureza primitiva e da Idade de Ouro, à qual Helena pertence por seu nascimento divino e onde encontrará seu enraizamento na realidade e a saúde da vida no presente.
3. A Arcádia descrita por Fausto está repleta, dos cumes ensolarados aos prados verdes, de uma vida harmoniosa e pura, cujos habitantes, homens ou deuses, gozam desde o nascimento de bem-estar, imortalidade e saúde.
4. Sob o aspecto dessa Arcádia idílica e dessa Idade de Ouro, Goethe imagina a vida antiga, e essa pintura da liberdade, que é também a descrição de um estado interior, deixa entrever uma das direções em que se orienta sua afirmação do valor do instante presente no mundo antigo.
5. Essa representação idílica da Grécia, tingida de nostalgia pelas divindades pagãs, estava em voga na juventude de Goethe, como mostram os deuses da Grécia cantados por Schiller, que exigiam homens felizes e para os quais nada era mais sagrado que o belo.
6. Para Schiller e Hölderlin, o drama do mundo moderno é que os deuses retornaram ao seu lar levando consigo tudo o que era belo e grande, embora Hölderlin profetize uma nova época em que a alma humana despertará juvenilmente alegre e o espírito da natureza voltará a habitar entre os homens.
7. A obra de Winckelmann contribuiu poderosamente para essa idealização da Grécia, e no ensaio que lhe consagra Goethe o vê como um homem antigo e pagão, feliz, sadio e vivo no presente, oposto à inquietude doentia dos românticos que se precipitam no infinito, enquanto os antigos encontravam seu bem-estar dentro dos limites deliciosos do belo mundo.
8. A grandeza da poesia e da história antigas consiste em retratar personagens intensamente interessados nas realidades mais próximas, seu eu, sua pátria e seus concidadãos, para os quais só tinha valor o que efetivamente ocorria, a ponto de até suas imaginações serem de carne e osso.
9. No retrato de Winckelmann, o espírito antigo e o espírito pagão estão intimamente ligados por traços comuns como a confiança em si mesmo, a ação no presente, a admiração dos deuses como obras de arte e a submissão ao destino superior.
10. É próprio do homem antigo alegrar-se espontânea e inconscientemente com a própria existência, sem passar pelo desvio da reflexão e da linguagem, e nisso consiste a saúde antiga, que Goethe talvez aceitasse conceber, como Plotino, como inconsciente por ser conforme à natureza, enquanto a consciência corresponderia a um estado de perturbação e doença.
4. Saúde inconsciente ou serenidade conquistada?
1. A definição winckelmanniana do helenismo como nobre simplicidade e grandeza serena deriva da interpretação das obras plásticas sem levar em conta a literatura antiga, e essa representação idílica foi com razão criticada, já por August Boeckh, para quem os gregos eram mais infelizes do que se pensava, e por Schopenhauer, que cita líricos e trágicos reveladores do profundo pessimismo grego.
2. Foram sobretudo Jakob Burckhardt e, depois dele, Nietzsche que criticaram vigorosamente as ideias de Winckelmann e Goethe ao longo do século XIX.
3. A representação idílica da alegria espontânea e da saúde grega não corresponde à realidade histórica, pois o homem antigo era tão inquieto e angustiado quanto o moderno, carregando o peso do passado, as inquietações do futuro e o temor da morte, como atestam as penosas preocupações da raça de ferro em Hesíodo e os lamentos dos líricos e trágicos.
4. Na mesma época das pinturas de Pompeia e Herculano em que Goethe admirava a saúde do momento, Horácio falava do negro Cuidado que cavalga atrás do cavaleiro e Lucrécio denunciava a inquietude dos homens que, sem conhecer a causa de seu mal, fogem incessantemente de si mesmos e odeiam o eu ao qual permanecem acorrentados.
5. Muito antes da análise pascaliana do tédio, os antigos já haviam sentido o vazio interior, o ódio de si e a angústia de estar só consigo mesmo, doenças da alma que Sêneca analisa como desagrado de si, prazer na agitação, inquietude que em nenhum lugar encontra repouso e fastio da vida e do mundo.
6. Goethe conhecia bem demais a literatura antiga para ignorar a preocupação e a angústia humanas, mas julgava a serenidade antiga tão forte que conservava uma saúde indestrutível nos momentos mais altos e mais graves, ao passo que Nietzsche percebeu que essa serenidade era conquistada por um imenso esforço da vontade estética e que existia sobretudo na Antiguidade uma vontade filosófica de alcançar a paz da alma pela transformação de si e do olhar sobre o mundo.
5. A experiência filosófica do presente
1. Essa vontade filosófica esboça-se já no período arcaico, quando Pítaco, um dos Sete Sábios, recomenda como regra de conduta fazer bem o presente, isto é, concentrar-se na ação presente sem se deixar distrair pelo passado e pelo futuro.
2. No século V a.C., no movimento sofístico, Antifonte critica seus contemporâneos por não viverem a vida presente, preparando-se ardorosamente para viver não se sabe que outra vida enquanto o tempo se perde, como se a vida pudesse ser jogada como um dado.
3. Aristipo, discípulo de Sócrates, sabia melhor que todos administrar a situação presente, gozando os bens presentes sem buscar o ausente ou inacessível, atitude que causava admiração e que, por isso mesmo, resultava não de um comportamento geral e espontâneo, mas de uma vontade filosófica consciente de adaptar-se à realidade tal como se apresenta.
4. Apesar da profunda diferença entre suas doutrinas, epicurismo e estoicismo partilham uma experiência do presente que o privilegia em detrimento do passado e sobretudo do futuro, sustentando que a felicidade só se encontra no presente, que um instante feliz equivale a uma eternidade de felicidade, que ela deve ser buscada imediatamente e que o instante, situado na perspectiva do cosmos, tem valor infinito.
5. O epicurismo é antes de tudo uma terapia da angústia que liberta os homens do temor dos deuses, que vivem em perfeita tranquilidade sem governar o universo, do temor da morte, que nada é para nós, das penas dos desejos artificiais e da inquietude moral, propondo uma sabedoria aparentemente fácil, mas que exige renúncia e submissão dos desejos à razão, e cuja transformação total da vida inclui sobretudo uma mudança de atitude em relação ao tempo.
6. Para os epicúreos, os insensatos são corroídos por desejos insaciáveis de riqueza, glória, poder e prazeres desordenados que não podem ser satisfeitos no presente, vivendo assim na espera ansiosa de bens futuros e incertos e descobrindo, tarde demais, que se apaixonaram inutilmente por coisas que não lhes deram prazer algum.
7. A sabedoria epicúrea propõe uma transformação radical e constante da atitude em relação ao tempo, que consiste em gozar o prazer presente sem desviar-se dele por pensamentos desagradáveis do passado ou por esperanças e temores desordenados do futuro, admitindo apenas a lembrança ou a antecipação do prazer, o que supõe que a qualidade do prazer não depende nem da quantidade de desejos satisfeitos nem da duração.
8. A qualidade do prazer não depende da quantidade de desejos satisfeitos, pois o prazer mais intenso é o menos misturado de inquietude, obtido pela satisfação dos desejos naturais e necessários, facilmente alcançáveis no presente graças à bem-aventurada Natureza, que torna fáceis as coisas necessárias e desnecessárias as difíceis.
9. O prazer tampouco depende da duração, pois não precisa ser longo para ser perfeito, e um tempo infinito não pode proporcionar prazer maior que um tempo limitado.
10. Esse aparente paradoxo funda-se na concepção teórica, já presente em Aristóteles, do prazer como realidade completa em cada momento e alheia à categoria do tempo, à qual os epicúreos acrescentam a atitude prática de limitar-se ao que assegura a paz da alma, cume insuperável que nenhuma duração pode aumentar.
11. Tudo isso se resume nos versos de Horácio segundo os quais a alma contente com o presente detesta o temor do futuro e a amargura, pois o espírito feliz não olha para o futuro e pode ser feliz imediatamente se limitar razoavelmente seus desejos.
12. A felicidade não só pode como deve ser encontrada imediatamente, no presente, sem cálculos sobre o conjunto da vida, pois há urgência: nasce-se uma só vez, ninguém é senhor do amanhã e a vida se consome em adiamentos, como lembra o carpe diem de Horácio.
13. O carpe diem horaciano não é um conselho de bon vivant, mas um convite à conversão, isto é, à tomada de consciência da vaidade dos desejos supérfluos e ilimitados, da iminência da morte e da unicidade da vida e do instante, a partir da qual cada dia é recebido como um dom maravilhoso e cada hora inesperada com gratidão.
14. O segredo da alegria e da serenidade epicúreas consiste em viver cada instante como se fosse o último e também como se fosse o primeiro, acolhendo-o com o mesmo maravilhamento grato de quem o recebe como inesperado ou inteiramente novo, como se o espetáculo do mundo se oferecesse pela primeira vez aos olhos dos mortais.
15. O segredo da serenidade epicúrea é finalmente a experiência do prazer infinito dado pela consciência de existir, ainda que por um instante, exercitada pela prática de dizer a cada dia ter vivido, pois a consciência da finitude da vida revela o valor infinito do prazer de existir no instante.
16. Tudo isso se insere numa visão geral do universo na qual, graças à física de Epicuro, as muralhas do mundo se afastam e o sábio, mortal e de vida limitada, eleva-se pelo pensamento da natureza à eternidade e à infinidade das coisas.
17. No tempo finito o sábio capta tudo o que se desenrola no tempo infinito, situando-se na imutabilidade da eterna Natureza, de modo que, na consciência de existir, alcança a totalidade do cosmos e recebe da Natureza tudo no instante.
18. No estoicismo, a concentração no presente é ainda mais acentuada, como mostra Marco Aurélio ao afirmar que basta o juízo objetivo dirigido à realidade neste momento, a ação presente a serviço da comunidade humana e a disposição presente de alegria diante da conjunção dos acontecimentos.
19. Marco Aurélio exercita-se em concentrar a atenção no que pensa, faz ou experimenta no instante, dizendo a si mesmo que isso basta, tanto para ocupá-lo quanto para fazê-lo feliz, exercício espiritual que chama de delimitar o presente e que consiste em desviar a atenção do passado e do futuro.
20. O presente de que fala Marco Aurélio define-se pelo vivido da consciência humana e possui certa espessura temporal correspondente à atenção da consciência, sendo determinado em função do pensamento e da ação do homem que nele empenha toda a sua personalidade.
21. O presente basta à felicidade porque é a única coisa que depende de nós, já que o passado está definitivamente fixado e o futuro ainda não existe, de modo que só ele pode ser bom ou mau moralmente, devendo passado e futuro ser-nos indiferentes.
22. Marco Aurélio descreve o exercício de delimitação do presente como a separação, no próprio pensamento, de tudo o que foi feito ou dito no passado e de tudo o que perturba por estar por vir, para viver somente a vida que se vive, o que permite passar o tempo até a morte em calma e serenidade.
23. Sêneca descreve o mesmo exercício como a supressão do temor do futuro e da lembrança das adversidades passadas, pelo qual o sábio goza do presente, nada espera nem deseja e contenta-se com o que tem, que não é pouco, pois todo o presente lhe pertence.
24. No estoicismo opera-se a mesma transfiguração do presente que no epicurismo, segundo a qual o presente basta à felicidade por duas razões: a felicidade é completa a cada instante e não aumenta com a duração, e no instante presente possui-se a totalidade da realidade.
25. A felicidade estoica, isto é, a ação moral e a virtude, realiza-se total e completa em cada momento, assim como o círculo permanece círculo seja grande ou pequeno e como o momento oportuno depende da qualidade e da harmonia entre a situação e as possibilidades, sendo precisamente o instante em que o homem está em pleno acordo com a natureza.
26. Também para os estoicos um instante de felicidade equivale a uma eternidade, pois, segundo Crisipo, quem possui a sabedoria por um instante não é menos feliz do que quem a possui por toda a eternidade.
27. Como para os epicúreos, para os estoicos a felicidade é agora ou nunca, pois a morte é iminente e basta querer para ser feliz, transformando imediatamente o modo de pensar, agir e acolher os acontecimentos, realizando cada ação como se fosse a última e vivendo cada dia com tal intensidade de atenção que se possa dizer à noite ter vivido.
28. A segunda razão pela qual o presente basta é que nele se possui a totalidade do universo, pois o instante, embora fugidio e minúsculo, é o único ponto de contato com a realidade e oferece toda ela, fazendo participar, por ser passagem e metamorfose, do movimento geral do devir do mundo.
29. O bem moral estoico tem dimensão cósmica, pois consiste no acordo a cada instante entre a razão em nós e a Razão que dirige o cosmos, de modo que a consciência se torna cósmica e o universo inteiro se lhe faz presente, o que é possível pela mistura total e implicação recíproca de todas as coisas, como a gota de vinho que se estende ao mar inteiro.
30. Quem vê o momento presente vê tudo o que se produziu desde a eternidade e tudo o que se produzirá no tempo infinito, razão pela qual a atenção se dirige a cada acontecimento presente, no qual o mundo inteiro está implicado pelo entrelaçamento eterno das causas.
31. Há uma dimensão mística no estoicismo, que consiste em dizer sim a cada instante ao universo e à vontade da Razão universal, num sentimento profundo de participação, identificação e intimidade com o Todo que ultrapassa os limites do indivíduo, de modo que o instante presente contém todo o cosmos e toda a riqueza do ser.
32. É notável que duas escolas tão opostas coloquem ambas no centro de seu modo de vida a concentração da consciência no momento presente, residindo a diferença apenas em que o epicúreo goza o presente como prazer enquanto o estoico o deseja intensamente como dever.
6. A tradição da filosofia antiga em Goethe
1. Embora tenha lido Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, Goethe não os cita a propósito da atenção ao presente, mas, no que concerne a ela, era meio estoico e meio epicúreo, sabendo gozar o presente e desejá-lo intensamente, herdeiro de uma tradição literária que, de Montaigne à filosofia popular do século XVIII, manteve vivas as lições da sabedoria antiga, como no poema de Andreas Gryphius sobre o instante presente como única posse.
2. No Quinto passeio dos Devaneios do caminhante solitário, Rousseau ecoa epicúreos e estoicos ao opor sua experiência do presente à atitude habitual dos homens, cujos afetos ligados às coisas exteriores estão sempre adiante ou atrás deles, de modo que mal há em seus gozos mais vivos um instante que o coração deseje que dure para sempre.
3. Talvez haja um eco dessa fórmula no pacto de Fausto com o diabo, quando jura nunca pedir ao instante que se detenha, embora Fausto pareça pensar num instante de qualidade excepcional e não num simples prazer.
4. Rousseau descreve sua experiência na ilha de Saint-Pierre como o sentimento da existência, estado de contentamento e paz acessível apenas ao coração livre de paixões, no qual o presente dura sem marcar sucessão e se goza apenas de si e da própria existência, ideia da qual Goethe pôde extrair a noção de um sentimento intenso que liberta do passado e do futuro e proporciona o gozo de existir.
7. Presente, instante, ser-aí em Goethe
1. Em Goethe, Gegenwart conserva o sentido original de presença, aparição e ser-aí, sinônimo de Dasein, presença que só existe no instante fugidio, o Augenblick, golpe de vista que pode implicar passado e futuro e que não é uma divisão infinitesimal, mas uma espessura temporal correspondente à atenção da consciência vivida, também designada por Moment.
2. Distinguem-se em Goethe o instante excepcional de felicidade oferecido pelo destino, no qual a existência se intensifica e o tempo parece deter-se, e o instante cotidiano ao qual o homem pode e deve dar sentido, sendo que o primeiro pode ser vivido como absorção espontânea, mas também confirmado, interiorizado e assumido por um ato de vontade e de doação de si, como no diálogo de Fausto e Helena, em que o amor abre acesso à consciência da existência e ao consentimento ao ser-no-mundo.
3. Os versos do Divã sobre a alegria de ser-aí e a alegria ainda maior experimentada na própria existência distinguem o gozo ingênuo do instante feliz dado pelo destino e a alegria da consciência da existência diante do que é, distinção que aparece também em Pasternak, cujos amantes nunca perdiam, mesmo nos momentos de felicidade mais livre, o sentimento de harmonia com o universo.
4. A experiência do instante excepcional comporta assim duas fases possíveis, a alegria espontânea e irrefletida e a tomada de consciência que transforma o êxtase amoroso em consentimento ao ser-no-mundo, caráter cósmico que se exprime no poema Reencontro do Divã, onde o reencontro dos amantes é remetido à criação do mundo e ao movimento de diástole e sístole que separa e reúne luz e trevas.
5. A razão pela qual Mefistófeles não reivindica a alma de Fausto quando este declara que só o presente é a felicidade permanece controversa, sendo explicada ora pela diferença entre esse instante de experiência do ser absoluto e o prazer visado no pacto, ora pelo caráter fantasmagórico do terceiro ato, ora pela incapacidade de Mefistófeles de ver além do efeito exterior de sua magia, ora por Fausto não usar os termos exatos da aposta ou desejar viver no futuro com Helena, ora pela perda do caráter infernal de Mefistófeles transformado em Fórcida.
6. Conforme a convicção de Goethe de que a verdadeira obra de arte incita o leitor a interpretá-la e completá-la, o Fausto suscita incertezas como a do resultado da aposta, mas é certo que Fausto, ao jurar nunca pedir ao instante que se detenha, pensa num instante excepcional, que ele vive três vezes, no encontro com Margarida, no encontro com Helena e na esperança final de um povo livre, instantes que parecem vir de fora mas correspondem ao mais íntimo de cada um, como dizem Marco Aurélio e o poema Propriedade.
7. A propósito do encontro com a pianista Szymanowska, Goethe critica a ideia de recordação como busca exterior do passado, afirmando que tudo o que nos acontece de grande e belo deve unir-se desde o início à trama de nosso ser interior, produzir em nós um eu novo e melhor e continuar criando em nós, de modo que a verdadeira nostalgia deve ser sempre criadora.
8. O instante excepcional corresponde ao devir interior e sobretudo é criador, razão provável pela qual o pacto entre Fausto e Mefistófeles acaba por não ter sentido para Goethe, pois cada belo instante, em vez de convidar ao repouso, representa uma novidade que incita o eu a elevar-se a estados superiores.
9. Além dos instantes excepcionais, há os instantes cotidianos, e embora a saúde do momento atribuída aos antigos fosse provavelmente utópica, é certo para Goethe que os modernos a perderam, ainda que certas naturezas a reencontrem espontaneamente, como Egmont, que se recusa a sacrificar o gozo do presente às preocupações com o momento seguinte.
10. Habitualmente os homens não prestam atenção ao presente e, por não terem sido capazes de reconhecer seu valor e dar-lhe vida, suspiraram por um futuro maior e brincaram com a nostalgia amorosa do passado.
11. Como os filósofos antigos, Goethe reage contra essa atitude, fazendo da concentração no instante presente uma regra de vida, expressa no poema homônimo que recomenda não se preocupar com o passado, gozar sempre o presente, não odiar ninguém e abandonar o futuro a Deus.
12. Essa regra reúne uma tonalidade epicúrea, a de gozar o presente, e uma tonalidade estoica, senão cristã, a de aceitar a providência, ligação entre felicidade, esquecimento do passado e entrega do futuro à providência que já se encontra em Marco Aurélio, para quem toda a felicidade buscada por longos desvios pode ser obtida imediatamente.
13. A regra de vida é também uma alta sabedoria, a sabedoria infantil que, na Elegia de Marienbad, Ulrike von Levetzow recomenda ao poeta ao dizer que a vida é oferecida hora a hora como uma graça, que do amanhã nada se pode saber e que é preciso olhar o instante nos olhos e acolhê-lo com benevolência na ação, na alegria ou no amor.
14. A concentração no instante corresponde também aqui à libertação do passado e do futuro e a uma disposição de acolhimento e consentimento ao ser-no-mundo, de modo que a saúde do momento atribuída aos antigos se torna uma sabedoria de criança, disposição espontânea a viver o presente e acolhê-lo com alegria sem refletir, como a criança que gosta do bolo sem conhecer o confeiteiro.
15. O poeta responde à jovem que é fácil para ela falar assim, já que Deus lhe deu o favor do instante e todos se sentem junto dela favoritos do destino, enquanto ele, aterrorizado pelo sinal da separação, não vê de que lhe serve tão alta sabedoria.
16. A jovem, ainda próxima do mundo da infância, vive espontaneamente no presente, e vê-la é receber a graça de um instante concedido pelo destino, mas o convite a estender essa experiência a toda a vida esbarra na intensidade da dor da separação, que impede o poeta de praticar essa alta sabedoria.
17. Pouco mais de dois meses depois da Elegia, Goethe aconselha a Eckermann essa alta sabedoria que sempre foi a sua, a de manter-se firme no presente, pois toda circunstância e todo instante têm valor infinito por serem representantes de toda uma eternidade.
18. Para quem se mantém firme no presente, todo instante é carregado de significação, e ao lado do instante excepcional há em Goethe uma concentração da atenção capaz de dar sentido a qualquer instante, já presente na viagem à Itália na convicção de que o momento é tudo e de que a vantagem do homem razoável consiste em fazer com que sua vida contenha o maior número possível de momentos razoáveis e felizes.
19. Concentrar-se no presente é aceitar o que o destino oferece a cada instante e interiorizá-lo para tender a uma perfeição superior, elevando a consciência a um ponto de vista em que passado e futuro são vistos no presente e ela se abre à infinidade e à eternidade do ser, já que o passado e o futuro só são afastados na medida em que suscitam inquietudes, esperanças ou desesperos que desviam a atenção.
20. A presença, quando atendida, não está separada do passado e do futuro, por estar ligada à vida e à metamorfose perpétua da realidade, como na dançarina em que se veem simultaneamente passado, presente e futuro, no encontro de Fausto e Helena que remete à Arcádia de origem e ao futuro nascimento de Eufórion, ou na catedral de Colônia e nas estelas de Verona, onde o passado se faz presente.
21. A relação entre instante e eternidade aparece frequentemente em Goethe, por exemplo na ideia de que não se padece a fugacidade do tempo quando o eterno se faz presente a cada instante, no poema Legado, para o qual o instante é eternidade vivida, e no Divã, onde Zuleika pede que se ame nela, Deus para quem só há eternidade, o fugaz instante presente.
22. Do ponto de vista de Deus, isto é, da Natureza que gera o devir eterno, a beleza de um instante é eterna enquanto momento desse devir, e amar a beleza de Zuleika é amar num instante a beleza do Ser.
23. Cada instante é símbolo do Ser, segundo a definição goethiana do símbolo como revelação viva, no instante, do inesgotável, pois sua própria fugacidade revela o devir cósmico e a eterna metamorfose que é também a eterna presença do ser, oferecendo uma possibilidade de criação nova no devir do eu e do mundo, na alternância entre individualizar-se e desprender-se de si que adquire por vezes ressonância mística, como no poema Ditosa nostalgia e seu morre e transforma-te.
24. O sentido último da atitude de Goethe em relação ao presente é, pela concentração na existência só alcançada no instante, a felicidade e o dever de existir no cosmos, num sentimento profundo de participação e identificação com uma realidade que ultrapassa os limites do indivíduo, cume da consciência de existir.
25. A concentração no presente tem ainda outro aspecto, o esforço para realizar a cada instante o que o dia exige, isto é, cumprir o dever presente, aplicação que tem para Goethe algo de sagrado, como no testamento do velho parse do Divã, que lega a seus correligionários o cumprimento cotidiano dos deveres penosos sem necessidade de outra revelação.
26. A verdadeira religião consiste, portanto, nessa atenção de cada instante à realização do dever cotidiano e da tarefa terrestre.
27. Há em Goethe dois aspectos distintos, mas aparentados, do instante presente: o instante excepcional, ocasião inesperada oferecida pelo destino, e os instantes cotidianos, aos quais se pode dar, como os filósofos antigos, um valor infinito, pressentindo em sua presença o curso do eterno devir e a eterna renovação do ser.
