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Simetria Aterrorizante
FRYE, Northrop. Fearful symmetry: a study of William Blake. Princeton, N.J: Princeton Univ. Press, 1990.
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Simetria Aterrorizante [Fearful Symmetry] foi um livro difícil de escrever — não apenas por ser o primeiro de seu autor, nem apenas por causa de seu tema —, pois todo poeta importante exige do crítico uma combinação de direção e perspectiva, de leitura intensiva e extensiva, sendo que a tese doutoral é útil para encorajar a leitura intensiva, mas de muito pouca utilidade para adquirir perspectiva literária, que demora anos para se desenvolver e não pode ser apressada.
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O livro nunca passou pelo estágio de tese, e o interesse em Blake foi desde o início de caráter extensivo
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A quinta e última reescrita completa consistiu principalmente em cortar uma massa de princípios e observações críticas, alguns dos quais encontraram caminho no livro seguinte, Anatomia da Crítica
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Isso pode explicar por que Simetria Aterrorizante assume a forma não de comentário completamente documentado, mas de um extenso ensaio crítico na tradição de Algernon Swinburne
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Nas etapas iniciais sentiu-se toda a resistência ao confronto com uma linguagem simbólica específica — que “tem de ser aprendida como tanto gótico”, nas palavras do professor Douglas Bush — que tantos outros críticos de Blake haviam sentido, mas há tantos construtos simbólicos na literatura, variando do universo ptolemaico de Dante à Visão ditada por espíritos de William Butler Yeats, que se começa a suspeitar que tais construtos têm algo a ver com o modo como a poesia é escrita.
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Para leitores criados para buscar apenas ressonância emocional ou detalhe realista na poesia, é um choque desilusiante aprender que, como diz Paul Valéry, a cosmologia é uma arte literária
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A afirmação de Los em Jerusalém — “Devo Criar um Sistema, ou ser escravizado pelo de outro Homem” — tem sido citada fora de contexto por muitos críticos; deve ser tomada em seu contexto, não identificando o “eu” com Blake, mas vendo-a como definidora de uma atividade necessária do processo poético
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Parte do contexto da observação de Los é: “Lutando com Sistemas para libertar os Indivíduos desses Sistemas; / Para que sempre que um Espectro começasse a devorar os Mortos, / Pudesse sentir a dor como se um homem roesse seus próprios nervos delicados”
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Há dois tipos de cosmologia — a concebida para compreender o mundo tal como é e a concebida para transformá-lo na forma do desejo humano —, e a cosmologia de Blake, cujo símbolo é a visão de Ezequiel do carro de Deus com suas “rodas dentro de rodas”, é uma visão revolucionária do universo transformado pela imaginação criadora numa forma humana, pertencendo à tradição dos poetas e não à dos cosmólogos especulativos.
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Platônicos e ocultistas lidam com o primeiro tipo — que após o tempo de Isaac Newton, segundo Blake, tornou-se a forma aceita da ciência
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A cosmologia especulativa — como a própria etimologia da palavra revela — é em última instância narcisismo intelectual: olhar para a natureza como espelho de nosso eu ordinário
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O que esse espelho mostra é o que Blake chama de “forma matemática” — o universo automático e irrefletido, sem começo nem fim, sem cima nem baixo — sugerindo resignação, aceitação do que é, aprovação do previsível e medo do imprevisível
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A cosmologia de Blake é não especulativa mas comprometida, não reacionária mas revolucionária — uma visão não das coisas como são ordenadas, mas de como poderiam ser ordenadas
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Blake pertence com os poetas — com o John Milton cujo Rafael aconselhou Adão que, embora estudar as estrelas fosse muito bem, preservar sua própria liberdade de vontade era ainda mais importante
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A poesia de Blake, como a de todo poeta que sabe o que faz, é mítica — pois o mito é a linguagem do comprometimento: cosmologia em movimento, forma viva e não matemática
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“A Palavra é o que dá movimento ao número”, como diz Yeats
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Há uma ampla consistência na mitologia de Blake — com alguns pontos incertos, como o papel de Los em Europa, mas no conjunto os significados de Orc, Urizen e Enitharmon permanecem os mesmos ao longo de toda a sua vida poética —, e a combinação de simpatias radicais e evangélicas — tão frequente na Inglaterra, tão rara em outros lugares — permaneceu com ele até o fim.
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Blake saudou com alegria o elemento apocalíptico nas revoluções americana e francesa — o vislumbre da liberdade eterna que elas ofereceram
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Mas viu crescer, tanto na França quanto na Inglaterra, um “Deísmo” ou domínio da turba autocomplacente — duas turbas que mais odiavam não uma à outra, mas a voz sã da profecia que lhes dizia o quanto do que faziam, em guerra e em paz, era fútil, estúpido e errado
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Em sua obra anterior, Blake concebia o “combate Mental” essencial da vida humana como a revolta do desejo e da energia contra a repressão — embora já então cuidasse de dizer que a razão é a forma do desejo e da energia, que nunca são amorfos exceto quando reprimidos
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Mais tarde tendeu a ver esse conflito como o da razão genuína — ou o que chamava de intelecto — contra a racionalização
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“Os tigres da ira são mais sábios do que os cavalos da instrução”, mas Blake concebia sua própria poesia como instrutiva — e os cavalos da instrução, por sua vez, são mais sábios do que as mulas relutantes da histeria
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Blake escreveu durante as Guerras Napoleônicas, “em uma das cidades centrais das Nações / Onde o Pensamento Humano é esmagado sob a mão de ferro do Poder”, e Simetria Aterrorizante foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial — período horrendo que forneceu paralelos com o tempo de Blake úteis para compreender sua atitude diante do mundo.
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