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Poesia de Homero
Werner Jaeger. Paideia.
Homero é o representante da cultura grega primitiva.
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A pintura imortal do mundo cavalheiresco é algo mais que um reflexo involuntário da realidade no arte, sendo este mundo de grandes tradições e exigências a esfera da vida mais alta na qual a poesia homérica triunfou e da qual se nutriu.
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O pathos do alto destino heroico do homem é o alento espiritual da Ilíada, e o ethos da cultura e da moral aristocráticas encontra o poema de sua vida na Odisseia, enquanto a sociedade que produziu aquela forma de vida teve que desaparecer sem deixar testemunho ao conhecimento histórico.
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A pintura ideal, incorporada à poesia homérica, converteu-se no fundamento vivente de toda a cultura helênica, e Hölderlin disse: O perecível é a obra dos poetas, verso que expressa a lei fundamental da história da cultura e da educação helênicas.
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A poesia grega desenvolve, de grau em grau e de modo crescente, com plena consciência, seu espírito educador, e a importância educadora de Homero é evidentemente mais ampla, não se limitando ao planteamento expresso de determinados problemas pedagógicos nem a alguns trechos que aspiram a produzir um determinado efeito ético.
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A poesia homérica é uma vasta e complexa obra do espírito que não é possível reduzir a uma fórmula única, havendo, ao lado de fragmentos relativamente recentes que revelam um interesse pedagógico expresso, outros trechos nos quais o interesse pelos objetos descritos afasta a possibilidade de pensar em um duplo desígnio ético.
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O canto nono da Ilíada ou a Telemaquia revelam em sua atitude espiritual uma vontade tão decidida de produzir um efeito consciente que se aproximam da elegia, enquanto outros fragmentos revelam uma educação objetiva que não tem nada a ver com o propósito do poeta e se funda na essência mesma do canto épico.
Homero nos oferece múltiplas descrições dos antigos aedos, de cuja tradição artística surgiu a épica.
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O propósito daqueles cantores é manter vivos na memória da posteridade os feitos dos homens e dos deuses, sendo a glória, e sua manutenção e exaltação, o sentido próprio dos cantos épicos, muitas vezes denominados glórias dos homens.
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O cantor do primeiro canto da Odisseia recebe o nome de Fêmio, isto é, portador da fama, conhecedor da glória, e o nome do cantor feácio Demódoco contém a referência à publicidade de sua profissão, tendo o cantor, como mantenedor da glória, uma posição na sociedade dos homens.
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Platão conta o êxtase entre as belas ações do delírio divino e descreve o fenômeno originário que se manifesta no poeta: A possessão e o delírio das musas se apoderam de uma alma bendita e terna, a despertam e a arrebatam em cantos e em toda sorte de criações poéticas, e em tanto que glorifica os inumeráveis feitos do passado, educa a posteridade.
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A concepção originariamente helênica parte da união necessária e inseparável de toda poesia com o mito — o conhecimento dos grandes feitos do passado — e daí deriva a função social e educadora do poeta, que não consiste para Platão em nenhum gênero de desígnio consciente de influir nos ouvintes, pois o só fato de manter, mediante o canto, viva a glória é já, por si, uma ação educadora.
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A significação do exemplo para a ética aristocrática de Homero mostra a importância educadora dos exemplos criados pelo mito, como as advertências ou estímulos de Fênix a Aquiles e de Atena a Telêmaco, sendo que o mito tem em si mesmo esta significação normativa, mesmo quando não é empregado de modo expresso como modelo.
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A tradição do passado refere a glória, o conhecimento do grande e do nobre, não um sucesso qualquer, e o extraordinário obriga ainda que seja só pelo simples reconhecimento do fato, enquanto o cantor não se limita a referir os feitos, mas louva e exalta quanto no mundo é digno de elogio.
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Os mitos e as lendas heroicas constituem o tesouro inextinguível de exemplos e modelos da nação, dos quais ela tira seu pensamento, os ideais e normas para a vida, e prova da íntima conexão da épica e o mito é o fato de Homero usar paradigmas míticos para todas as situações imagináveis da vida.
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Tais exemplos não se acham ordinariamente na narração, mas nos discursos das personagens épicas, e os mitos servem sempre de instância normativa à qual apela o orador, havendo em sua intimidade algo que tem validade universal, não um caráter meramente fictício.
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A união da poesia com o mito, que foi para os gregos uma lei invariável, acha-se em íntima conexão com a origem da poesia nos cantos heroicos, com a ideia dos cantos de louvor e a imitação dos heróis, e a épica constitui, originariamente, um mundo ideal, sendo o elemento de idealidade representado no pensamento grego primitivo pelo mito.
Este fato atua na epopeia ainda em todos os detalhes de estilo e de estrutura.
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O uso estereotipado de epítetos decorativos, uma das peculiaridades da linguagem épica, deriva diretamente do espírito original dos antigos klea andron, e em a grande epopeia esses epítetos perdem pelo uso sua vitalidade mas são impostos pela convenção do estilo épico.
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Os epítetos isolados não são sempre usados com uma significação individual e característica, sendo em uma grande medida ornamentais, mas constituem um elemento indispensável deste arte, cunhado por uma tradição de séculos, e aparecem constantemente ainda onde não fazem falta e inclusive quando perturbam.
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Além do uso dos epítetos, domina nas descrições e pinturas épicas este tom ponderativo, enobrecedor e transfigurador, sendo todo o baixo, desprezivelmente innobre, suprimido do mundo épico, e os antigos observaram como Homero eleva àquela esfera até as coisas em si mais insignificantes.
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Dión de Prusa contrapõe Homero ao crítico Arquíloco e observa que os homens necessitam, para sua educação, melhor a censura que o louvor, dizendo que Homero tem ensalçado tudo: animais e plantas, a água e a terra, as armas e os cavalos, podendo-se dizer que não passou sobre nada sem elogio e louvor.
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A tendência idealizadora da épica, conectada com sua origem nos antigos cantos heroicos, a distingue das demais formas literárias e lhe outorga um lugar preeminente na história da educação grega, enquanto todos os gêneros da literatura grega surgem das formas primárias e naturais da expressão humana.
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As formas de expressão poética de origem privada ou culto têm pouco que ver com a educação, mas os cantos heroicos se dirigem, por sua essência mesma idealizadora, à criação de exemplares heroicos, e sua importância educadora se acha a grande distância da dos demais gêneros poéticos.
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A didática e a elegia seguem os passos da épica e se aproximam dela por sua forma, tomando dela o espírito educador que passa mais tarde a outros gêneros, e a tragédia é, por seu material mítico e por seu espírito, a herdeira integral da epopeia, devendo seu espírito ético e educador unicamente a sua conexão com a epopeia.
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Considerando que as formas de prosa literária que tiveram uma ação educadora mais eficaz, isto é, a história e a filosofia, nasceram e se desenvolveram diretamente da discussão das ideias contidas na épica, pode-se afirmar que a épica é a raiz de toda educação superior na Grécia.
Queremos mostrar agora o elemento normativo na estrutura interna da epopeia.
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É insustentável, ainda desde o ponto de vista do absoluto agnosticismo, toda concepção que não tenha em conta o fato claro da pré-história da epopeia, sendo preciso realizar um esforço para conceber os estágios de seu desenvolvimento do modo mais inteligível.
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A ideia fundamental do origem da épica nos cantos heroicos mais antigos faz supor que a descrição dos combates singulares, a aristeia, que termina com o triunfo de um herói famoso sobre seu poderoso adversário, tem sido a forma mais antiga dos cantos épicos.
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A narração dos combates singulares é mais fértil, do ponto de vista do interesse humano, que a exposição de lutas de massas, e se participa profundamente na narração dos combates individuais porque neles o pessoal e o ético se situam em primeiro plano.
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A narração da aristeia de um herói contém sempre um forte elemento protréptico, e episódios desta índole aparecem ainda, de acordo com o modelo épico, em descrições históricas posteriores, constituindo na Ilíada o ponto culminante da ação bélica.
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O poeta da Ilíada rompe a narração da batalha de Troia mediante a narração da cólera de Aquiles e suas consequências e a de um número de combates individuais, cenas que eram a delícia da raça à qual se dirigiam os cantos heroicos.
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A nova finalidade artística da grande epopeia consistia não só em oferecer quadros particulares de uma ação de conjunto, mas em pôr em relevo e destacar o valor de todos os heróis famosos, criando o poeta um quadro gigantesco, a guerra de Ílio em sua totalidade.
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A obra mostra claramente o que representava para ele a luta: a prodigiosa luta de muitos heróis imortais, da mais alta areté, e não só os gregos, mas seus inimigos são também um povo de heróis que luta por sua pátria e por sua liberdade.
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Homero põe na boca não de um grego, mas do herói dos troianos, a frase É do melhor agouro lutar pela pátria, e os grandes heróis aqueus encarnam o tipo da mais alta heroicidade, sendo o que desperta a simpatia do poeta pelos aqueus não a justiça de sua causa, mas o resplendor imperecível de sua heroicidade.
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