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Código dos Códigos

FRYE, Northrop. The Great code: the Bible and literature. New York ; London: Harcourt Brace Jovanovich, 1982.

  • A obra propõe uma abordagem ao estudo da Bíblia do ponto de vista da crítica literária, com o objetivo inicial de realizar uma recolha indutiva da imagística e narrativa bíblicas para descrever como esses elementos definiram um enquadramento imaginativo — um universo mitológico — no interior do qual a literatura ocidental operou até ao século XVIII e continua, em grande medida, a operar.
    • O projeto original previa uma descrição desse universo mitológico como referência para a literatura ocidental.
    • Questões preliminares, inicialmente destinadas a um ou dois capítulos introdutórios, alongaram-se até originar um volume inteiramente dedicado a elas — processo análogo ao que culminou na Anatomia da Crítica (1957).
    • O título “Volume Um” foi suprimido da folha de rosto pelo desejo de que cada livro publicado seja completo em si mesmo, ainda que um segundo volume esteja em preparação.
  • O livro não pertence à área dos estudos bíblicos nem à teologia, refletindo apenas um modo pessoal de encarar a Bíblia, sem pretender expressar o consenso acadêmico, e seu surgimento se deve ao ensino de Milton e Blake — dois autores extraordinariamente bíblicos no referencial da literatura inglesa.
    • A percepção de que um estudante de literatura inglesa sem conhecimento da Bíblia interpreta erradamente implicações e significados motivou a criação de um curso sobre a Bíblia inglesa como referência para o estudo literário.
    • Milton e Blake são identificados como os autores que despertaram o interesse inicial pelo tema.
  • O objetivo primeiro do curso era proporcionar aos alunos informação suficiente sobre a Bíblia para que compreendessem que espécie de influência ela exerceu na literatura, o que teria resultado essencialmente num curso de alusões e tessituras — base considerada insatisfatória para um curso de especialização.
    • Blake, no verso “Ó Terra, ó Terra, regressa”, concentra em apenas cinco palavras — e apenas três palavras diferentes — cerca de sete alusões diretas à Bíblia.
    • Em muitos autores oitocentistas ecoam constantemente as cadências da tradução de 1611, à semelhança do efeito produzido pelo eco dos provérbios populares na produção escrita de outras culturas.
    • A alusão e a tessitura não constituíam base satisfatória, sendo necessário estabelecer um terreno mais sólido.
  • Cursos semelhantes encontrados em outras universidades, chamados com variações de “A Bíblia como Literatura”, baseavam-se sobretudo nos conteúdos da Bíblia que evocavam experiências literárias convencionais — como o Livro de Jó ou as parábolas de Jesus —, pressupondo que a Bíblia seria uma espécie de antologia da literatura ancestral do Médio Oriente, abordagem contrária aos instintos críticos que exigem a leitura de uma obra do início até ao fim para abarcar sua totalidade.
    • O Livro de Jó e as parábolas de Jesus são reconhecidos como secções importantes, mas insuficientes para fundamentar o curso.
    • A operação crítica genuína começa com a leitura integral de uma obra, tantas vezes quantas forem necessárias, para que o crítico possa conceber uma unidade conceitual correspondente à unidade imaginativa do texto.
    • A Bíblia é mais uma pequena biblioteca do que um verdadeiro livro — a própria palavra “Bíblia” significa originalmente ta biblia, os pequenos livros —, e muitos leitores encontram obstáculos intransponíveis frequentemente a meio do Levítico.
  • A Bíblia foi tradicionalmente lida como uma unidade e influenciou a imaginação ocidental como uma unidade, e quem lograr lê-la do início até ao fim descobrirá que ela apresenta marcas de uma estrutura total — começando onde o tempo começa, com a criação do mundo, e terminando onde o tempo termina, com o Apocalipse.
    • Pelo meio, a Bíblia revisita a história humana sob os nomes simbólicos de Adão e Israel.
    • Um conjunto de imagens concretas — cidade, montanha, rio, jardim, árvore, óleo, fonte, pão, vinho, noiva, ovelha — recorre com tal insistência que indicia claramente um princípio unificador.
    • Para a crítica, esse princípio unificador deve estar relacionado com a forma: nenhum livro pode ter um significado coerente sem uma certa coerência na sua forma.
    • O curso tornou-se uma demonstração da existência de uma estrutura narrativa e imagética unificada na Bíblia — e nisso consiste o cerne do livro.
  • A única Bíblia de que o livro se ocupa é a Bíblia cristã, cujos “Velho” e “Novo” Testamentos têm os nomes rodeados de controvérsia, sendo todas as citações retiradas da Versão Autorizada de 1611 — abreviada VA — não pela beleza de suas cadências nem por ser a versão mais reconhecível, mas porque os tradutores declararam que não faziam uma nova tradução, mas uma tradução tradicional.
    • A VA está essencialmente em linha com a tradição da Vulgata, aproximando-se da Bíblia com que os escritores europeus estavam familiarizados desde o século V.
    • A maior parte das reproduções da VA em circulação omite os textos apócrifos que integravam a tradução terminada em 1611 e suprime a “Carta ao leitor” dos tradutores, mantendo apenas a dedicatória ao Rei Jaime — descrita como exemplar de retórica superficial.
    • As diferenças entre as versões protestante e católica romana, muito sobrestimadas, têm pouca importância no contexto do livro.
    • As concepções judaica e islâmica da Bíblia são reconhecidas como muito diferentes, mas é a Bíblia cristã que influenciou a literatura inglesa e a tradição cultural ocidental.
  • O curso revelou-se útil e tornou evidente a necessidade de um livro sobre o tema, o qual conserva o objetivo inicial de introduzir o leitor comum ao conhecimento da Bíblia e mostrar como aplicar esse conhecimento às demais leituras, mas a ele se sobrepuseram outras questões, pois todo o trabalho crítico desenvolvido desde o estudo sobre Blake (1947) e a Anatomia da Crítica propende para a Bíblia.
    • O livro é, entre outras coisas, uma reafirmação da perspectiva crítica exposta ao longo dos anos sob formas diversas.
    • Aspectos como as categorias da metáfora, a escada do sentido polissêmico, a concepção do significado literal e a identificação entre mitologia e literatura são apresentados com um novo enquadramento.
    • As inevitáveis repetições em relação à Anatomia da Crítica não são consideradas meras repetições, mas reformulações em contexto diferente.
  • Dois colegas da Universidade de Toronto relembravam a necessidade de escrever “um grande livro sobre a Bíblia”, mas o obstáculo evidente era a insuficiência acadêmica nas áreas de estudo essenciais — o conhecimento de hebraico e grego sendo comparável ao que Samuel Johnson disse, com muito menos justiça, dos dois sonetos do Tetrachordon de Milton: que o primeiro é deplorável e o segundo não muito bom.
    • Samuel Johnson é citado como referência para a autoavaliação irônica das limitações linguísticas.
    • Uma obra acadêmica estava fora de questão por abarcar demasiadas áreas de estudo.
    • O livro nasceu diretamente da atividade docente, não da investigação.
  • Todos os livros produzidos acabam por ser manuais de estudo que visam sobretudo definir perspectivas, mais do que contribuir para um corpo de conhecimento, e este livro recorre a todas as estratégias utilizadas no ensino — entre as quais o paradoxo e o subterfúgio da simplicidade —, pois simplificar e simplificar demasiado são, na prática, a mesma coisa vista sob dois pontos de vista diferentes: o do aluno e o do acadêmico.
    • O ideal do acadêmico é transmitir o que sabe de forma tão clara e completa quanto possível, colocando o ônus no leitor.
    • O trabalho acadêmico do professor opera em parte ao nível da difusão, filtrando a investigação existente para os alunos menos avançados — concepção considerada inadequada.
    • O livro visa a perspectiva do aluno, não a do acadêmico.
  • O professor, pelo menos desde o Ménon platônico, não é em primeiro lugar alguém que sabe ensinar quem não sabe, mas alguém que tenta recriar o objeto de estudo na mente do estudante, utilizando uma estratégia que permite que o estudante reconheça o que potencialmente já sabe — o que implica desmontar as forças que reprimem sua mente.
    • Cabe ao professor, e não ao aluno, fazer a maior parte das perguntas.
    • O aspecto instrutivo dos livros causou ressentimento em alguns leitores, frequentemente motivado pela lealdade a outros instrutores.
    • As próprias parábolas de Jesus eram ainoi — fábulas caracterizadas pelo aspecto enigmático.
    • No budismo zen, o professor demonstra sua competência recusando-se a responder perguntas ou boicotando-as com um paradoxo.
    • Responder a uma pergunta significa consolidar o patamar mental a partir do qual ela foi colocada; sem alguma reserva, o aperfeiçoamento mental do aluno é interrompido.
    • Sócrates é evocado como referência original do uso da ironia como instrumento essencial do ensino.
  • A antítese pessoal/impessoal foi ultrapassada da mesma forma que a antítese acadêmico/não acadêmico — os acadêmicos começam com uma personalidade marcada pela ignorância e pelo preconceito e tentam renunciar a ela pela absorção no exercício acadêmico impessoal, emergindo do outro lado com a compreensão de que todo conhecimento é conhecimento pessoal, mas com alguma esperança de que a pessoa possa ter sido transformada durante o processo.
    • A fórmula mencionada é atribuída a T.S. Eliot.
    • A Bíblia suscitou o interesse não por confirmar posições prévias, mas por sugerir uma maneira de ultrapassar algumas das limitações inerentes a todas as posições.
  • Uma abordagem literária da Bíblia não é em si mesma ilegítima — nenhum livro poderia ter exercido uma influência literária tão peculiar sem possuir, ele próprio, qualidades literárias —, mas a Bíblia é também evidentemente “mais” do que uma obra literária, e no fim de contas frustra qualquer critério literário.
    • Kierkegaard afirmou que um apóstolo não é um gênio.
    • Os princípios formais da literatura se fixam no interior da literatura, assim como os princípios formais da música — consubstanciados na sonata, na fuga ou no rondó — não têm existência exterior à música.
    • Blake foi mais longe do que qualquer contemporâneo ao identificar a ligação entre a religião e a criatividade humana, afirmando: “O Antigo e o Novo Testamentos são o Grande Código da Arte” — definição tomada de empréstimo para o título do livro.
    • Blake não atribuiu à Bíblia o epíteto de obra literária.
  • A avaliação é uma função menor e subordinada do processo crítico — um subproduto secundário ao qual nunca deve ser dada prioridade sobre a investigação —, e os julgamentos de valor pertencem a uma zona de hipóteses de trabalho experimentais, sujeitas a revisão, não constituindo o ponto de partida da operação crítica propriamente dita.
    • Se se aceita o julgamento de valor habitual sobre Shakespeare e esse julgamento é confirmado pela experiência, tem-se um estímulo para continuar a estudar Shakespeare — mas a investigação resultante nunca é baseada no julgamento de valor.
    • O estudo aprofundado de um autor pode transportar da literatura para a discussão mais vasta da função social das palavras.
    • A avaliação, circunscrita à categoria da literatura, bloqueia essa expansão.
    • A Bíblia contornou esse obstáculo porque todas as discussões sobre seu valor eram inequivocamente fúteis — e veio a transportar para fora da literatura em direção ao contexto verbal mais alargado do qual a literatura faz parte.
  • Existiram sempre duas orientações no estudo bíblico — a crítica, que define o texto e estuda o contexto histórico e cultural, e a tradicional, que interpreta de acordo com o significado determinado pelo consenso das autoridades teológicas e eclesiásticas —, e a abordagem analítica e histórica que dominou a crítica bíblica por mais de um século revelou-se pouco útil para compreender como um poeta lê a Bíblia.
    • A investigação textual nunca articulou verdadeiramente a “alta” crítica que tanto prometia no século XIX — afundou-se, em grande parte, numa crítica ainda mais baixa, na qual a desintegração do texto se tornou um fim em si mesmo.
    • As descobertas importantes foram feitas relativamente cedo, seguidas de grande dose de trivialidades.
  • Uma alta crítica genuína teria observado que o relato da Criação surge no início do Gênesis — apesar de sua data tardia como narrativa sacerdotal — porque pertence ao início do Gênesis, o que levaria a um estudo integrado do livro e, finalmente, da totalidade da Bíblia tal como ela existe, procurando explicar por que emergiu nessa forma específica.
    • O relato da Criação na abertura do Livro do Gênesis é apontado em muitos livros como originário da narrativa sacerdotal, a mais recente das quatro ou cinco fontes que compõem o livro.
    • A Bíblia não parece ter surgido por obra de uma série improvável de acasos, dado o caráter diversificado de seu conteúdo.
    • O produto final de um longo e complexo processo editorial deve ser estudado por direito próprio.
  • As abordagens mais tradicionais — a tipologia medieval e algumas formas de comentário tributárias da Reforma — pareciam mais vantajosas por admitirem a unidade da Bíblia como postulado, mostrando como ela faz sentido para os poetas, mas, sendo o livro dirigido a leitores do século XX, impôs-se a necessidade de incluir um olhar renovado e contemporâneo sobre a Bíblia nos debates literários e críticos atuais.
    • Paul Claudel é mencionado como exemplo de poeta que aderiu à escola tipológica Vitorina, fazendo dela uma influência seminal em sua poesia.
  • Na Anatomia da Crítica afirmou-se que a crítica literária estava cada vez mais próxima das ciências sociais — afirmação que suscitou enorme controvérsia por contradizer os reflexos condicionados da maior parte dos estudiosos das humanidades —, mas desde então a linguagem tornou-se um modelo de investigação em diversas áreas, dando origem a abordagens revolucionárias em disciplinas como a psicologia, a antropologia e a teoria política.
    • Os debates que importam estão, na perspectiva apresentada, intimamente relacionados com o estudo da Bíblia — e são dificultados pelo fato de essa relação não ser ainda mais próxima.
    • Alguns dos debates atuais da crítica são considerados transitórios, conduzindo apenas a uma espécie de impasse paradoxal ou irracional.
    • Hans-Georg Gadamer, Paul Ricoeur e Walter Ong são identificados como os três críticos contemporâneos que mais influenciaram o livro, embora nem sempre de maneira que eles próprios subscreveriam.
  • O ser humano não vive desprotegido na natureza como os animais, mas no interior de um universo mitológico — um corpo de suposições e crenças provenientes de suas interpelações existenciais —, e uma das funções práticas da crítica é tornar mais consciente esse condicionamento mitológico.
    • A maior parte das interpelações que constituem o universo mitológico se passa inconscientemente: a mente pode reconhecer elementos desse universo quando surgem na arte ou na literatura sem compreender conscientemente o que está reconhecendo.
    • Quase tudo o que se consegue discernir desse corpo de interpelações é socialmente condicionado e culturalmente herdado.
    • Sob a herança cultural deve existir uma herança psicológica comum — sem ela, as formas da cultura e da imaginação exteriores às próprias tradições não fariam sentido.
    • Por crítica entende-se aqui a organização deliberada de uma tradição cultural.
  • A Bíblia é um elemento proeminente na tradição imaginativa ocidental e levanta uma questão incontornável: por que razão esse livro colossal, profuso e impudente se instalou inexoravelmente no centro da herança cultural como a Esfinge em Peer Gynt — frustrando todos os esforços para o contornar.
    • Giambattista Vico desenvolveu uma teoria complexa da cultura mantendo-se dentro dos limites da história secular e evitando por completo a Bíblia — o que é atribuído à prudência, mas já não se considera justificável para os acadêmicos contemporâneos.
    • A imagem do “grande Boyg” e da Esfinge em Peer Gynt é evocada para designar a resistência incontornável da Bíblia a qualquer tentativa de ignorá-la.
    • Talvez caiba a alguém que não é especialista em estudos bíblicos chamar a atenção para a existência e a relevância da Bíblia.
  • Muitos debates da teoria crítica atual tiveram origem no estudo hermenêutico da Bíblia, muitas abordagens contemporâneas da crítica são obscuramente motivadas pela síndrome “Deus está morto” — que também procede da crítica bíblica —, e muitas das formulações da teoria crítica parecem mais defensáveis quando aplicadas à Bíblia do que em outros contextos.
    • Samuel Johnson estabeleceu em grande parte os cânones da crítica na literatura inglesa, mantendo-se fiel à prática protestante de isolar o aspecto poético da Bíblia num compartimento separado da literatura secular.
    • Só os românticos compreenderiam que essa separação era irracional.
    • A aproximação de Coleridge à tipologia bíblica demonstra que seu legado seria mais fecundo se ele tivesse exposto de forma interligada suas ideias sobre o assunto — sem necessidade de se tornar o massivo tratado enciclopédico sobre o logos que projetava.
    • A obra de Ruskin seria certamente menos difusa se suas concepções da tipologia bíblica tivessem sido articuladas de forma mais sistemática.
    • Hans-Georg Gadamer, Paul Ricoeur e Walter Ong são identificados, uma vez mais, como críticos contemporâneos bem cientes da importância da crítica bíblica para a literatura secular.
  • Nas últimas duas décadas foram escritos muitos livros sobre a importância da religião oriental para os modos do pensamento ocidental contemporâneo, enquanto grande parte do Oriente permanece fiel ao marxismo — herdeiro direto das formas revolucionárias e socialmente organizadas de religião com origem na Bíblia.
    • Um aluno chinês perguntou como explicar aos seus alunos a importância cultural do cristianismo para o Ocidente de forma compreensível — e a resposta sugerida foi que o pai espiritual de Marx era Hegel, e que, portanto, seu avô espiritual era Martinho Lutero.
    • Marx, Hegel e Martinho Lutero são mencionados como elos dessa cadeia de transmissão cultural.
    • O interesse crescente do Ocidente nos modos do pensamento budista, hindu e taoista pode ser ainda mais revelador se compreendidos seus correlativos na própria tradição ocidental.
  • A matéria tratada pode ser emocionalmente arrasadora, e são frequentemente os constrangimentos do leitor a determinar a primeira resposta ao que está sendo dito — existindo menos bloqueios mentais quando se estudam tradições religiosas que não são as próprias.
    • O intuito acadêmico é compreender o que o objeto de estudo quer dizer, e não aceitá-lo ou rejeitá-lo.
    • Os alunos predispostos à aceitação receavam ser afastados dela; os que discordavam, receavam ser conduzidos até ela — padrão invariável de resistência.
    • O ensino sob as linhas orientadoras da liberdade acadêmica e da ética profissional exige evitar qualquer suspeita de conduzir o aluno para mais perto ou mais longe de qualquer posição habitualmente chamada de crença.
  • A crença e a descrença, tal como comumente entendidas, são amiúde fonte de constrangimentos intensos e instabilidade porque estão intimamente ligadas às forças de repressão que constituem o ponto de ataque do professor — e a tentativa de pensar no interior de categorias como o mito, a metáfora e a tipologia implica uma perturbação considerável dos processos mentais costumeiros, cujo resultado é uma lucidez aumentada.
    • A chamada aceitação ou rejeição da crença não implica, em nenhum dos casos, qualquer perturbação dos processos mentais costumeiros.
    • As categorias do mito, da metáfora e da tipologia são descritas como extremamente “primitivas” sob diversos pontos de vista.
    • O resultado da perturbação provocada por essas categorias é um instinto que leva a atravessar a selva de racionalizações em direção ao terreno desobstruído do discernimento.
  • Na transmissão de informação pelo professor, ela se insere num contexto de ironia que a assemelha a uma espécie de jogo — e quando o que se pretende ensinar é a literatura, o aspecto do jogo assume uma aparência específica, pois a literatura prossegue na sociedade a tradição da criação de mitos, e a criação de mitos possui uma característica a que Lévi-Strauss chamou bricolage.
    • Bricolage é a combinação de elementos diversos retirados de tudo o que está à disposição.
    • Muito antes de Lévi-Strauss, T.S. Eliot utilizou praticamente a mesma imagem num ensaio sobre Blake, referindo-se ao seu método engenhoso à la Robinson Crusoe para montar um sistema de pensamento a partir dos retalhos da própria leitura.
    • Blake era, nesse aspecto, um poeta convencional — a única coisa que o distinguia de Dante era o fato de que, no caso deste último, a bricolage era mais amplamente aceita.
    • Lévi-Strauss, T.S. Eliot, Blake e Dante são mencionados como referências para o conceito de bricolage aplicado à criação literária e mítica.
  • A Bíblia é contemplada como uma obra de bricolage, num livro que o é também, conservando afeição especial pelo gênero literário chamado anatomia — especialmente pela Anatomia da Melancolia de Robert Burton, com suas disposições esquemáticas que dificilmente fariam parte de algum tratamento médico sistemático da melancolia, mas que ainda assim se ligam a algo na mente onde talvez seja concedido um entendimento mais profundo.
    • Samuel Johnson afirmou que a Anatomia da Melancolia de Burton era o único livro que o fazia levantar da cama mais cedo do que pretendia.
    • O livro é mais generoso do que é habitual com tabelas e diagramas.
    • Burton é identificado como o autor da Anatomia da Melancolia.
  • O capítulo seguinte concentra a parte introdutória e preambular sobre a relação da Bíblia com a literatura ocidental, e um livro que interpela o impacto da Bíblia na imaginação criativa deve contornar as áreas mais cultivadas da fé, da razão e do conhecimento acadêmico, demonstrando estar consciente de sua existência.
    • O primeiro capítulo incide sobre a linguagem — não a linguagem da Bíblia em si, mas a linguagem que as pessoas usam quando falam sobre a Bíblia e questões correlatas, como a existência de Deus — linguagem que Kenneth Burke chama de retórica da religião.
    • Dois capítulos sobre o mito e a metáfora definem esses termos no âmbito da crítica e estabelecem que o mito e a metáfora são respostas à pergunta sobre o significado literal da Bíblia.
    • A tese prevalecente é que a Bíblia chega como um livro escrito — uma ausência invocando uma presença histórica que está “por detrás” dela, como diria Derrida —, e que essa presença subjacente assume gradualmente para o primeiro plano na mente do leitor.
    • O quarto capítulo, sobre a tipologia, completa a primeira parte, acrescentando uma dimensão temporal ao argumento e relacionando-o com a forma como o cristianismo leu tradicionalmente sua Bíblia.
    • A segunda parte é dedicada a uma aplicação mais direta dos princípios críticos à estrutura da Bíblia em ordem inversa, diferenciando sete fases do que é tradicionalmente chamado revelação: criação, êxodo, lei, sabedoria, profecia, evangelho e apocalipse.
    • São postuladas duas formas da visão apocalíptica, perfazendo oito fases no total, com a oitava a remeter de novo para a tese central do papel do leitor.
    • O capítulo final propõe uma segunda aproximação à retórica da religião e inclui um breve esboço de uma concepção polissêmica ou estratificada do significado aplicada à Bíblia.
    • Kenneth Burke e Jacques Derrida são mencionados como referências teóricas.
  • Num estudo posterior se pretende aproximar de um comentário mais detalhado ao texto da Bíblia — sendo o Livro de Rute, o Cântico dos Cânticos e a matéria narrativa dos textos apócrifos particularmente significativos para a literatura, ainda que não tratados extensamente neste volume.
    • A maior parte dos leitores presumivelmente não possui conhecimento extenso sobre a Bíblia, ou, caso o possua, não tem o hábito de relacioná-lo com o aspecto imaginativo em detrimento de critérios doutrinais ou históricos.
    • O critério imaginativo não reivindica o monopólio da verdade ou da relevância — é apenas o único condizente com as assunções específicas do livro.
  • Num extremo do espectro de possíveis leitores estão os profundamente comprometidos com a questão religiosa e existencial da Bíblia, que aqui só descobrirão um exercício de diletantismo estéril; no outro extremo estão os que assumem que a Bíblia é um símbolo do establishment vinculado a restrições sexuais e a uma concepção primitiva da biologia — e o livro se dirige aos leitores de boa vontade que estão algures no meio.
    • Ao longo do processo de escrita, a sensação foi frequentemente a do Satanás de Milton percorrendo o caos, onde cada passo — que talvez não seja um passo mas uma expedição subterrânea, um voo ou um mergulho — está rodeado de paisagens intermináveis em território desconhecido.
    • Milton é evocado como referência para a experiência de navegação em território desconhecido.
    • O que há a dizer pode muitas vezes parecer estupidamente óbvio — em parte pela natureza de manual do projeto original —, mas nessa área o óbvio raramente é exposto de forma interligada.
    • O lema adotado para os momentos de desânimo é uma frase de Giordano Bruno: “Est aliquid prodisse tenus” — deve querer dizer alguma coisa, se perdurou através dos séculos: já serviu, pelo menos, para incentivar a escrita de melhores livros.
    • Giordano Bruno é mencionado como autor da frase que serve de lema encorajador.
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