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Outono do corpo
YEATS, W. B. The collected works of W.B. Yeats IV. New York: Macmillan, 1989.
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Pensamentos e emoções frequentemente resultam de forças ocultas e inconscientes.
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A mente humana é comparada a marés invisíveis, influenciadas por uma lua que os olhos não podem ver.
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O narrador relata sua própria mudança de um desejo inicial de descrever coisas externas para um interesse em livros espirituais e sem ênfase.
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Compreende-se agora que essa mudança reflete uma luta literária mais ampla na Europa contra a “externalidade” trazida pelo pensamento científico e político.
Na França, a mudança literária é mais marcada e evidente na comparação entre obras específicas.-
A Tentação de Santo Antônio, de Flaubert, representa a velha invenção dramática do romantismo, com descrições vívidas de cenas grotescas e detalhes históricos.
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Axël, do Conde Villiers de L’Isle-Adam, representa a nova invenção, com palavras que sugerem um estado de espírito espiritual e apaixonado, criando personagens movidos por sede de aniquilação e orgulho.
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Maeterlinck, seguindo Villiers de L’Isle-Adam, apresenta almas fracas, sombras patéticas e meio vapor, suspirando à beira do abismo final.
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Uma mudança semelhante ocorre na pintura francesa, substituindo histórias dramáticas por corpos frágeis e paisagens com ritmos sutis de cor e forma.
Na Inglaterra, a mudança é mais gradual e misturada a outras transformações.-
A antiga poesia (Browning, Tennyson, Swinburne, Shelley jovem) tentava absorver ciência, política, filosofia e moralidade.
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A nova poesia contrai seus limites, começando com Rossetti, mas de forma imperfeita devido à sua formação pictórica.
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Lang, Gosse e Dobson dedicam-se a poemas líricos condensados; Bridges elabora um ritmo delicado para emoção quase sem corpo.
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Poetas posteriores (como Kipling) abandonam a poesia séria ou falam de paixão pessoal/espiritual usando palavras e metáforas distantes das complexidades modernas.
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A pintura inglesa tornou-se tão idealista que a arte ideal é por vezes chamada de “arte inglesa” no continente.
Percebe-se nas artes de todos os países um movimento de contornos e energias tênues, chamado por muitos de “decadência” e preferencialmente chamado de “outono do corpo”.-
Um poeta irlandês expressa esse significado no verso: “A própria luz do sol está cansada, e é hora de deixar o arado”.
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Essa mudança coincide com um interesse renovado em fenômenos negados pela ciência positiva: comunicação mental sem palavras, premonições em sonhos, aparições dos mortos.
Acredita-se que a humanidade esteja numa crise culminante, prestes a subir a escada que vem descendo desde os primeiros dias.-
Os primeiros poetas (como no Kalevala) não tinham a preocupação com as coisas que Homero teve.
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Dante acrescentou uma dialética à poesia, fruto de mentes treinadas pelo trabalho da vida.
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Shakespeare quebrou a simetria do verso e do drama para preenchê-los com coisas e relações acidentais.
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Os poetas modernos (Goethe, Wordsworth, Browning) abandonaram o mundo como dicionário de símbolos e se declararam críticos da vida e intérpretes das coisas como são.
A arte está prestes a assumir os fardos que caíram dos ombros dos sacerdotes, conduzindo de volta pela filosofia.-
O cansaço surgiu quando o homem disse que só são reais as coisas que toca, vê e ouve, encontrando-as apenas ar, poeira e umidade.
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As artes devem preencher os pensamentos com as essências das coisas, não com as coisas, substituindo a análise da química pela destilação da alquimia.
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Symons escreveu sobre o método de Mallarmé, que propõe abolir a pretensão de encerrar algo diferente de “o horror da floresta ou o trovão silencioso nas folhas” nas páginas sutis.
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Mallarmé deseja substituir o antigo ímpeto lírico por palavras que “recebem luz da reflexão mútua, como um rastro real de fogo sobre pedras preciosas”, formando “uma palavra inteira” a partir de muitos vocábulos.
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Haverá muita poesia de essências, separadas umas das outras em poemas pequenos e intensos, mas não se deixará de escrever poemas longos.
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Será possível descrever longamente ações (um velho vagueando, seu retorno, vingança, uma deusa fugidia, flechas) e fazer com que essas coisas diferentes “recebam luz por reflexão mútua”, tornando-se o símbolo de um estado de espírito da imaginação divina, imponderável como “o horror da floresta ou o trovão silencioso nas folhas”.
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