Olhar Vazio
EDGAR POE OU LE REGARD VIDE, par Jean-François Mattéi
A publicação original do conto ocorreu em dezembro de 1840 na The Burton’s Gentleman’s Magazine, na Filadélfia, periódico que passou a se chamar The Graham’s Magazine com aquele número, e a versão definitiva saiu cinco anos depois em Nova York e Londres.
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Charles Baudelaire não foi o primeiro tradutor francês da narrativa, uma vez que William Little Hughes a traduziu em 1854 no jornal Le Mousquetaire sob o título L’homme dans la foule.
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O tradutor de origem irlandesa viria mais tarde a traduzir os Contes inédits de Edgar Poe para a editora Hetzel.
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Baudelaire confiou sua tradução, intitulada L’Homme des foules, ao jornal Le Pays em 27 e 28 de janeiro de 1855.
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A tradução foi incluída em 1857 no volume Nouvelles Histoires extraordinaires, composto por vinte e quatro contos, incluindo La Lettre volée, Le Portrait ovale, William Wilson e Le Démon de la perversité.
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Este segundo volume de narrativas do escritor americano teve menos repercussão do que as Histoires extraordinaires, que haviam revelado Poe ao público francês no ano anterior.
Os dois olhares
A trama da narrativa é apresentada de forma muito simples, envolvendo um narrador anônimo que, convalescente, observa a rua de um grande café londrino.
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O narrador está sentado em um grande café de Londres em uma tarde de outono, fumando um charuto e distraindo sua convalescença após meses de doença.
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Ele folheia uma gazeta, observa os consumidores e olha para a rua através dos vidros do café, até que, ao anoitecer, se absorve na contemplação da cena externa.
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Separado da rua pela vitrine, ele descreve com distanciamento os tipos de transeuntes, reconhecendo a classe dos cavalheiros, dos comerciantes abastados, dos empregados e, descendo a escala social, a fauna duvidosa de jogadores, escroques, mendigos e bêbados.
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De repente, o rosto de um velho decrépito atrai a atenção do voyeur, que em seu primeiro olhar discerne uma mistura de inteligência, maldade, triunfo, terror e desespero em sua fisionomia.
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O narrador se precipita na rua e, sem razão aparente, decide seguir o desconhecido por onde quer que ele vá.
A perseguição do velho através do Londres nebuloso leva o narrador por um labirinto de ruas escuras, bazares, avenidas elegantes e bairros sórdidos, enquanto a noite avança.
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O narrador fica intrigado com o comportamento do desconhecido, que parece seguir um plano combinado apesar dos trajetos caóticos que o fazem retornar sobre seus passos ou se perder em becos sem saída.
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Aos poucos, revela-se um traço do personagem: o velho não fala com ninguém e não se interessa por nada, mas busca se fundir na massa de transeuntes, que diminui progressivamente no coração da noite.
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O desconhecido, sem perceber que está sendo seguido, fica cada vez mais angustiado quando a presença humana se rareia com o passar do tempo, correndo desesperadamente de bairro em bairro.
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Ao amanhecer, ele reencontra o começo da animação dos primeiros transeuntes na artéria de onde havia partido, e o narrador, exausto, decide no segundo entardecer enfrentar o homem errante e olhá-lo face a face.
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O velho não lhe presta a menor atenção e retoma imperturbável sua solene caminhada, enquanto o narrador, utilizando a mesma expressão que caracterizava seu olhar sobre a multidão, fica imóvel na rua, novamente absorvido em contemplação.
O conto de Poe se tensiona entre dois olhares, ou duas contemplações, que se equilibram a partir de um terceiro olhar, de natureza bem diferente.
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O primeiro e o último olhar são os do narrador, que se pode identificar ao próprio Poe, sentado no terraço do café, absorvido na contemplação da cena exterior.
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Suas observações assumem inicialmente um caráter abstrato e generalizador ao considerar os indivíduos por massas e em suas relações coletivas, para depois se voltar aos detalhes dos transeuntes.
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O texto multiplica as expressões ligadas ao olhar do narrador, como a visão mental, a observação, a atenção, o exame, o olhar fixo e a absorção, submetendo todo o relato ao seu olhar penetrante de investigador.
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O outro olhar, oposto, é o do velho, que joga sobre todos os objetos um olhar fixo, estarrecido e vazio, traduzido do inglês wild and vacant stare.
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O olhar vazio evidencia a ausência de expressão ou de intenção do personagem, que não lança nenhum olhar compreensivo sobre as coisas e os seres, pois sua consciência se desvaneceu.
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Ao contrário da consciência intencional que se projeta no mundo, Poe encena um homem sem consciência, destituído de qualquer intenção e, portanto, de qualquer humanidade, reduzindo seus olhos vazios a uma imersão em multidões indistintas.
O flâneur de Baudelaire
A comparação entre os títulos inglês e francês da narrativa revela uma leve ambiguidade, pois Poe fala de the crowd enquanto Baudelaire entende as foules, ambos destacando a singularidade do homem que se perde nela ou nelas.
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Em Le Peintre de la vie moderne, Baudelaire comenta o relato de Poe descrevendo um convalescente que, atrás do vidro de um café, contempla a multidão com prazer e se mistura pelo pensamento a todas as ideias que se agitam ao seu redor.
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O tradutor francês propõe outra interpretação em seu primeiro estudo sobre Poe, afirmando que L’Homme des foules se mergulha sem cessar no seio da multidão e nada com delícias no oceano humano.
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Enquanto o título francês e sua conclusão traduzem the crowd por das foules para evocar pluralidades indistintas, Baudelaire escolhe falar de la foule para expressar sua unidade ideal, uma categoria ontológica independente.
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Walter Benjamin, em seu ensaio de 1940, fala de la foule como uma entidade abstrata e observa que o escritor americano, diferentemente de Baudelaire, suspeita no espetáculo da multidão algo de ameaçador.
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O filósofo alemão nota que Baudelaire tende a assimilar o homem das multidões ao flâneur, enquanto o homem das multidões de Poe não é um flâneur indolente, mas um maníaco.
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O autor do Spleen de Paris consagrou um ensaio às multidões no qual evoca a embriaguez causada pela multitude de homens que se cruzam nos espaços concentrados das cidades modernas.
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O elogio baudelairiano da multidão afirma que nem todos podem tomar um banho de multitude, pois gozar da multidão é uma arte reservada àquele a quem uma fada insuflou o gosto do disfarce e da máscara.
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A inversão baudelairiana revela que a multidão moderna mostra ao poeta, como que em negativo, os benefícios do isolamento, sendo a aproximação da multitude e da solidão um paradoxo que assegura a liberdade de criação.
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O promeneur solitário e pensativo tira uma singular embriaguez dessa comunhão universal, adotando como suas todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que a circunstância lhe apresenta.
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Baudelaire não hesita em se buscar, como o homem da multidão personificado pelo narrador do conto, graças a uma alquimia do verbo que permite ao poeta solitário arrancar-se da turba coletiva.
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A reflexão mais profunda de Baudelaire sobre a multidão descreve o flâneur como um observador apaixonado para quem a multidão é seu domínio, sendo sua paixão e sua profissão esposar a multidão.
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O observador é um príncipe que goza em toda parte de seu incógnito, entrando na multidão como em um imenso reservatório de eletricidade, amando a vida universal.
O homem das multidões de Poe
As indicações da estética baudelairiana e de sua paráfrase benjaminiana correspondem ponto por ponto à cena de abertura de L’Homme des foules no café.
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O narrador do conto tem o aspecto distanciado do flâneur ou do dândi, sendo sua paixão e sua profissão esposar a multidão, e não se fundir nela como o velho que ele perseguirá.
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Ele não se mistura à multidão, mesmo durante sua perseguição, mas a observa a uma distância respeitável, sentado confortavelmente diante da grande janela arqueada do café.
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Ele é o observador apaixonado de que fala Baudelaire, que se compraz, abrigado em seu refúgio, em se absorver no ondulante, no movimento, no fugitivo e no infinito.
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O homem da multidão é um espectador, e não um ator como o homem das multidões, pertencendo à família desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais que são os pensadores.
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Como todo filósofo, o narrador, ao contemplar a cena exterior, se consagra a observações que têm de imediato um caráter abstrato e generalizador, olhando os transeuntes por massas.
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A vida universal se declina segundo classes recortadas por uma razão analítica preocupada em ordenar a idiossincrasia dos indivíduos, ao contrário do velho abobado, incapaz de abstrair.
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O homem arrastado pela ondulação humana na cidade moderna só existe na promiscuidade da multidão e sente o horror de se encontrar sozinho, confirmado pela epígrafe da novela: Ce grand malheur, de ne pouvoir être seul.
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O narrador conclui explicitamente que o homem das multidões, o tipo e o gênio do crime profundo, é o homem que recusa estar sozinho, refuses to be alone.
Quatro leituras graduadas e convergentes são propostas para desvendar o enigma do relato: uma leitura política, uma ontológica, uma ética e, apenas esboçada, uma leitura teológica.
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A primeira leitura, de alcance político, é destacada por Poe, Baudelaire e Walter Benjamin, vendo no homem das multidões o produto das sociedades democráticas na era do capitalismo industrial.
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Tocqueville é apontado como o primeiro escritor a detectar, na mesma época que Poe, a agitação permanente no seio de uma democracia tranquila, ilustrada pelas correntes cegas e contrárias da multidão.
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A crítica política, fundada na recusa do progresso e na crítica da democracia comuns a Poe e a Baudelaire, não esgota a lição do relato, assumindo uma forma ontológica ao questionar o ser vago do homem das multidões.
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O indivíduo moderno, sob o reinado da burguesia, é incapaz de afirmar sua identidade a não ser se fundindo em uma multidão anônima, na medida em que seu ser é privado de qualquer substância real.
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O homem das multidões lança sobre o mundo um olhar fixo, estarrecido e vazio, buscando preencher essa vacuidade por um movimento perpétuo que o condena a uma corrida sem fim.
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O olhar do investigador na pista do enigma é o olhar do conhecimento que busca dar um sentido à fuga cega do homem democrático, e Baudelaire se coloca na posição do narrador do conto.
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O poeta possui o privilégio de ser ele mesmo e outrem, ao ponto de entrar no personagem de cada um, extraindo uma singular embriaguez dessa comunhão universal, diferentemente do homem das multidões.
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A vacuidade do olhar do poeta ou do filósofo é bem diferente da vacuidade do homem arrastado pela multidão, pois o primeiro olhar, movediço, calmo e curioso, é distanciado pela vitrine do café.
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O segundo olhar, fixo, estarrecido e vazio, é o olhar mudo do homem das multidões, incapaz de se arrancar da ganga da multitude e nunca em posição de observador.
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Os dois olhares estão irresistivelmente ligados um ao outro, e a dualidade do ser humano, dilacerado entre o bem e o mal, se revela no olhar, sendo esta a lição ética do conto.
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O observador foi fascinado por um velho que ele segue como sua sombra, sem ver que o homem que foge na multidão nada mais é do que seu duplo, sendo o olhar cheio do investigador e o olhar vazio do criminoso as duas facetas de um único olhar.
A figura do duplo
O motivo do duplo percorre toda a literatura romântica do século XIX, de Chamisso a Dostoiévski, passando por Hoffman, Nerval, Maupassant, Stevenson e Oscar Wilde.
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O duplo, em alemão der Doppelgänger, remonta ao romance Siebenkäs de Jean-Paul Richter, que definia as pessoas que encontravam seus sósias como aqueles que se veem a si mesmos.
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O duplo nasce sempre de um olhar que retorna sobre si mesmo para descobrir seu próprio rosto, como no lied de Schubert Der Doppelgänger, onde a lua faz o poeta ver seus próprios traços.
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Na maioria dos relatos da tradição fantástica, o duplo encarna o demônio, ou seja, a figura absoluta do mal, e a descrição do homem das multidões em Poe não deixa dúvida sobre sua identidade maléfica.
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Ao primeiro olhar, o narrador discerne na fisionomia do velho ideias de vasta inteligência, maldade, sede sanguinária, triunfo, terror extremo e intenso e supremo desespero.
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O narrador recorda que seu primeiro pensamento foi que Retzch, se o tivesse contemplado, o teria grandemente preferido às figuras nas quais ele tentou encarnar o demônio.
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O homem que assombra a multidão tem algo de demoníaco, aparecendo, ao término de uma perseguição que equivale a uma descida aos infernos, como o tipo e o gênio do crime profundo.
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O duplo é o reflexo do narrador, como atesta o movimento irresistível que o leva a seguir passo a passo o odioso velho, cujo rosto traz os estigmas da maldade e da sede sanguinária.
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Esse desdobramento da consciência humana entre o bem e o mal, a sombra e a luz, a queda e a salvação, é constante nos contos de Poe e encontra um ancoradouro filosófico e teológico em seu ensaio Eureka.
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A metafísica de Poe se funda na cisão da unidade primitiva, contendo na Unidade originária do Ser Primeiro a Causa secundária de Todos os Seres, assim como o Germe de sua inevitável destruição.
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Baudelaire compartilha a mesma ontologia ao afirmar que, se a queda é a unidade tornada dualidade, então é Deus quem caiu, ou o universo seria a queda de Deus.
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O poeta francês escavou essa dualidade radical do ser, que deixa entrever um eco teológico ainda mais do que moral, com duas postulações simultâneas em todo homem, uma para Deus e outra para Satanás.
O olhar de Deus
A trama policial de William Wilson é idêntica à de Édipo Rei, onde o investigador se confunde com o criminoso sem o saber, assistindo-se ao desdobramento de uma única consciência dilacerada.
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Quando Édipo descobre o culpado, ele escolhe furar seus próprios olhos, sendo o modelo mítico do homem de olhar vazio que assume uma nova figura na modernidade com o Homem das multidões.
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Edgar Poe impõe a duplicidade de estrutura que será a de todos os relatos policiais posteriores, tanto nas investigações do cavaleiro Dupin quanto em L’Homme des foules e William Wilson.
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Em Double Assassinat dans la rue Morgue, tem-se um duplo assassinato, o relato do crime redobrado pelo relato do inquérito, a dualidade do investigador e do narrador, e a dualidade do detetive e do assassino.
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Poe faz intervir um duplo maléfico, ladrão ou criminoso, que deve ser desmascarado, e esse duplo é sempre encenado a partir de um olhar ou de um reflexo, através de um vidro ou sobre um espelho.
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No ensaio sobre o inquietante estranhamento, Freud analisa o conto de Hoffmann L’homme au sable, mostrando que a figura do duplo está sempre ligada ao olho e ao espelho.
A inversão do olhar vazio em um olhar pleno, ou a reversão da ignorância em conhecimento, torna-se necessária tanto em Poe quanto em todo investigador.
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Se Édipo furava os olhos para expiar seu crime, Dupin protege os seus para denunciar o culpado em La Lettre volée, escondendo seu olhar por um par de óculos verdes.
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A duplicidade está ligada às maquinações do ministro, mas também à astúcia de Dupin, que pega o ladrão em sua própria armadilha, sendo este o signo do parentesco secreto entre os dois protagonistas.
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A identidade do ministro, que roubou a carta da Rainha, se limita à letra D, como a identidade do café em L’Homme des foules, podendo a letra D ser compreendida como a inicial da palavra Duplo.
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Dupin e o ministro são dois irmãos, o primeiro partidário da Rainha e o segundo seu adversário, sendo este o duplo tenebroso daquele, e a poesia, a matemática e sua inicial comum deixam adivinhar sua proximidade.
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O ministro é descrito por Dupin como o verdadeiro monstrum horrendum, um homem de gênio sem princípios, assim como o Homem das multidões é qualificado pelo narrador como um demônio.
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Poe cita dois versos da tragédia de Crébillon filho, mencionando Atrée e Thyeste, que eram irmãos gêmeos, ambos tendo aberto sua série recíproca de crimes ao matar seu meio-irmão Crisipo.
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O autor de La Lettre volée e de L’Homme des foules deixa na sombra o duplo jogo possível de cada um dos irmãos, não se sabendo sempre distinguir o bom modelo de seu duplo maléfico.
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Apenas aquele cujo olhar nunca é vazio saberá ler no pior coração do mundo, mas talvez seja uma das grandes misericórdias de Deus que ele não se deixe ler.
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Se o universo é uma intriga de Deus, e se essa intriga é perfeita ao contrário da intriga do escritor, então o único olhar que pode distinguir o homem da multidão e o homem das multidões é, em última instância, o olhar de Deus.
