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Joseph Campbell

CAMPBELL, Joseph. Mythic worlds, modern words: on the art of James Joyce. Edited by Edmund L. Epstein. Novato: Joseph Campbell Foundation: New World Library, 2003

Imagens Afetivas

As imagens mitológicas são definidas como imagens afetivas que liberam e direcionam energia, sendo que a desconexão entre afeto e imagem na esquizofrenia ou na tradição racionalista leva a uma perda de comunicação emocional consigo mesmo e com os outros.

  • As observações de John Weir Perry sobre a esquizofrenia revelam que as imagens observadas por ele coincidem com as descritas em “O Herói de Mil Faces”.
  • A definição pessoal de um símbolo mitológico eficaz é a de um “signo que libera e direciona energia”.
  • Na tradição ocidental, as imagens mitológicas perderam sua conexão com os afetos, sendo interpretadas por meio de desvalorizações racionais ou eventos históricos.
  • A obra de James Joyce conecta a experiência pessoal do afeto com a herança geral das imagens afetivas, servindo como um guia para a interpretação do material mitológico.
  • A tendência racionalista e a concretização dos símbolos pelas tradições religiosas, como a interpretação histórica da ressurreição de Cristo, privam as imagens de seu poder afetivo.
  • A tradição apresenta sistemas de imagens aos quais se espera que se tenha certas respostas, enquanto o artista vive uma experiência e depois busca a imagem para expressá-la, sendo processos inversos.
  • A comunicação de imagens herdadas por um sacerdote pode ser estagnante se a pessoa não estiver pronta para recebê-las.

Asas da Arte

O lema latino extraído das “Metamorfoses” de Ovídio anuncia a decisão de Joyce de fazer asas com a arte, simbolizando uma fuga tripla: da Irlanda provinciana, do catolicismo romano para os arquétipos e do romance naturalista para a mitologia.

  • A frase “et ignotas animum dimittit in artes” (“e ele dedica sua mente a artes desconhecidas”) refere-se a Dédalo, o artífice que construiu o labirinto de Creta e fabricou asas de cera para escapar.
  • O tema do voo e do pássaro da arte é dominante em toda a obra de Joyce, aparecendo desde o “Retrato do Artista quando Jovem” até “Finnegans Wake”.
  • A escolha de Joyce é associada a Dédalo, que conseguiu voar com sucesso, em vez de Ícaro, que caiu ao voar muito alto, demonstrando otimismo quanto à capacidade do artista competente.
  • A fuga de Joyce se dá da cultura provinciana da Irlanda para a cultura-mãe do continente europeu.
  • A fuga também ocorre do simbolismo da Igreja Católica Romana para os universais que Jung chama de “arquétipos”, indo do provincianismo espiritual para a humanidade total.
  • Um jovem católico é criado em meio a inflexões locais dos grandes arquétipos (Virgem Maria, Deus Pai), mas tem o problema de relacionar o mundo real com essas imagens que não se encaixam.
  • Joyce, assim como Thomas Mann, parte da tradição naturalista para a esfera mitológica, abandonando as confissões religiosas de origem em obras que vão do naturalismo ao reino mítico.

Metamorfoses Consubstanciais

A obra de Ovídio fornece a Joyce o tema da consubstancialidade, onde um único poder animador se move através de múltiplas formas, sugerindo que todas as mitologias são metamorfoses de um único grande sistema mitológico.

  • O décimo quinto livro das “Metamorfoses” de Ovídio apresenta a ideia de que o poder animador passa de uma forma para outra (animal, vegetal, humana, divina), e que nada morre.
  • O tema central de “Ulisses” é a consubstancialidade, um conceito teológico sobre a mesma substância divina do Pai, Filho e Espírito Santo, questionando se pai e filho são consubstanciais.
  • As principais linhas das histórias de Ovídio também são duplicadas na Bíblia, permitindo um salto da tradição clássica para a semítica, que por sua vez derivam da tradição sumero-babilônica.
  • Joyce incorpora a tradição geral humana ao se mover para a esfera oriental, mencionando os Upanishads e o movimento teosófico em Dublin.

Joyce e o Inconsciente Junguiano

Joyce adota a atitude de Jung em relação ao inconsciente, que é visto como primário e compensador da consciência, diferindo da visão freudiana ao propor um inconsciente coletivo acessível por meio da amplificação mitológica.

  • Na mesma época em que Joyce e Mann desciam ao reino mitológico, Frazer na antropologia, e Freud e Jung na psicologia, também exploravam a mitologia em termos psicológicos.
  • A abordagem associacionista de Frazer interpretava a magia por meio de leis como a da similaridade (imitar a chuva com um chocalho) e a do contágio (cuidar de um prego que feriu o pé), sem considerar associações inconscientes.
  • Freud partiu de Frazer, mas acrescentou a dimensão do inconsciente como lembranças recalcadas da infância, de ordem biográfica e histórica, que podem se tornar conscientes novamente pela análise.
  • Jung aceitou o inconsciente pessoal de Freud, mas foi além ao postular um “inconsciente coletivo”, cujo conteúdo não é inventado pela pessoa, mas sim funções da dinâmica do corpo humano.
  • O inconsciente, para Jung, tem um valor positivo e corretivo em relação à consciência, tentando comunicar a correção da atitude consciente por meio de imagens mitológicas.
  • A técnica junguiana de interpretação é a “amplificação por meio de estudos mitológicos comparativos”, que decifra o símbolo por suas manifestações em outros contextos, ao invés de associá-lo à biografia pessoal.
  • Nos romances de Joyce, é possível observar os mesmos temas que Jung já havia explicado, transitando da biografia no “Retrato” para o reino onírico do inconsciente biográfico em “Ulisses” e, finalmente, para o poder dos arquétipos em “Finnegans Wake”.

O Modelo Danteano de Joyce

Joyce imita Dante ao estruturar sua obra em um modelo de três partes, onde “Retrato do Artista quando Jovem” corresponde à “Vita Nuova”, “Ulisses” ao “Inferno” e “Finnegans Wake” ao “Purgatório”, sendo o “Paraíso” o livro não escrito.

  • Dante, em sua “Vita Nuova” e “Divina Comédia”, expressa as implicações dos dogmas góticos medievais como afeto experienciado, e não como dogma.
  • Joyce imita Dante ao escrever “Retrato do Artista quando Jovem” como equivalente à “Vita Nuova” e, em seguida, planejar sua própria “Divina Comédia” em três partes.
  • “Ulisses” corresponde ao “Inferno”, onde o inferno é o estado de uma alma absolutamente comprometida com suas experiências terrenas, sem reconhecer a dimensão divina, representado por Dublin.
  • Em “Ulisses”, Stephen e Bloom vagam por Dublin assim como Dante e Virgílio vagam pelo inferno, observando almas presas a seus pequenos círculos egóicos.
  • “Finnegans Wake” é o “Purgatório”, onde as almas que aprenderam bem as lições da vida, mas não o suficiente para o céu, têm suas limitações (“pecados veniais”) purgadas, análogo ao conceito oriental de reencarnação.
  • “Finnegans Wake” é escrito em um círculo com uma ruptura, oferecendo uma saída do ciclo de reencarnação para o vazio, que seria o cenário do “Paraíso” não escrito de Joyce.
  • Joyce adota o modo dramático de arte, onde os objetos são apresentados sem comentário do autor, e o estilo amadurece com o personagem, da fala de uma criança pequena em “Retrato” à linguagem onírica de “Finnegans Wake”.
  • A pergunta central a ser abordada nas palestras é como reconectar a imagem da própria vida aos grandes arquétipos, unindo afeto e imagem para experienciar a herança total da cultura humana.
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