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Retrato do Artista quando Jovem

CAMPBELL, Joseph. Mythic worlds, modern words: on the art of James Joyce. Edited by Edmund L. Epstein. Novato: Joseph Campbell Foundation: New World Library, 2003

Parada Estética

A experiência de “parada estética”, exemplificada pelo encontro de Dante com Beatriz na “Vita Nuova”, é definida como um momento eterno que abre o olho interior e compromete toda a vida com aquela visão, servindo de modelo para a estrutura de “Retrato do Artista quando Jovem”.

  • Dante descreve o instante em que vê Beatriz como o momento em que o senhor do coração reconhece ter encontrado o mestre, o senhor dos sentidos reconhece ter encontrado a bem-aventurança e o senhor do corpo reconhece ter encontrado a agonia.
  • O amor, segundo a definição dos trovadores provençais do século XII, como Guiraut de Borneilh, nasce dos olhos e do coração: os olhos fazem o reconhecimento de um objeto que fascina e o recomendam ao coração, e se este coração é “gentil” (capaz de amor, não apenas de luxúria), o amor desperta.
  • Joyce distingue arte própria de arte imprópria: a arte própria é estática e produz a parada estética, enquanto a arte imprópria é cinética e excita desejo (levando à arte pornográfica) ou repulsa (levando à arte didática ou crítica).
  • A arte que excita o desejo de possuir o objeto representado (como a vontade de tomar chá com uma velha senhora numa pintura ou de esquiar numa montanha) é considerada pornografia por Joyce, e não arte.
  • A arte didática, que excita a repulsa e critica a sociedade (como muitos romances após Zola), é chamada por Joyce de outra forma de pornografia, e a experiência estética verdadeira nada tem a ver com biologia ou sociologia.
  • Recorrendo a Tomás de Aquino, Joyce define os três aspectos da experiência estética como “integridade” (ver o objeto como um todo separado do mundo), “consonância” (a relação rítmica e harmoniosa das partes entre si e com o todo) e “claridade” (a radiação ou fascínio que o objeto bem- realizado exerce).
  • A claridade pode ser experimentada como beleza, quando não oprime o ego, ou como sublime, quando a imensidão do espaço ou do poder diminui o ego e produz um êxtase quase transcendente.
  • A experiência estética bem-sucedida leva a uma realização mística profunda: de que o universo e todas as coisas são absolutamente desprovidos de significado, uma vez que os significados são associações racionais a sistemas de pensamento.
  • As emoções próprias evocadas pela arte são o trágico e o cômico: o terror é o sentimento que paralisa a mente diante do que é grave e constante no sofrimento humano (a mortalidade, a passagem do tempo) e a une à causa secreta (o mistério do morrer).
  • A piedade é o sentimento que paralisa a mente diante do mesmo sofrimento grave e constante, uma compaixão positiva pelo sofredor humano, sem categorias específicas.
  • A emoção cômica própria é a alegria entendida como posse (e não como desejo), de modo que a obra de Joyce é uma comédia trágica que mantém uma sensação de realização alegre mesmo ao retratar as situações mais dolorosas.
  • O mito budista de Buda sob a árvore Bodhi é apresentado como análogo à parada estética: Buda, imóvel, toca a terra e dispensa o Senhor da Vida (desejo e morte) que o atacava, alcançando a iluminação.
  • Os dois querubins postos por Deus na porta do Jardim do Éden (com a espada flamejante) representam as duas emoções cinéticas: agressão (boca fechada) e desejo (boca aberta), que mantêm a humanidade afastada do Paraíso e também do jardim da arte.

Um Retrato

No “Retrato do Artista quando Jovem”, Joyce demonstra desde as primeiras frases o funcionamento das imagens de afeto na infância de Stephen Dedalus, escrevendo em um estilo que amadurece junto com o personagem e internalizando cada experiência em sua subjetividade.

  • O livro se abre com a história do “moocow” (vaca) que desce a estrada e encontra o “menino bonitinho chamado baby tuckoo”, já introduzindo o pai que conta a história (e que tem “um rosto peludo”) e o motivo do espelho associado à figura paterna.
  • A pequena rosa silvestre que desabrocha no pequeno lugar verde é identificada como uma imagem mitológica: a rosa como mandala (símbolo do centro) e o pequeno lugar verde como a Irlanda, conectando o local ao cósmico.
  • O motivo do quente-frio aparece quando Stephen molha a cama (“primeiro é quente, depois fica frio”), sendo a mãe quem coloca o lençol de borracha (que tem um cheiro estranho) e toca piano para ele dançar, associando a mãe ao ritmo.
  • A tia chamada “Dante” (já evocando o poeta) possui duas escovas em seu armário: uma com fundo de veludo marrom (para Michael Davitt) e outra com fundo de veludo verde (para Parnell), introduzindo o conflito entre igreja e estado que irá despedaçar o jantar de Natal da família.
  • O primeiro contato com a sexualidade infantil aparece quando Stephen, aos nove anos (como Dante e Beatriz), decide que se casará com Eileen Vance, escondendo-se debaixo da mesa e sendo ameaçado pela tia Dante: “se não se desculpar, as águias virão e arrancarão seus olhos”.
  • Na escola, o menino é empurrado por um colega (Wells) em um escoadouro de latrina e, mais tarde, ao quebrar os óculos, é açoitado nas mãos com uma palmatória (pandybat) pelo prefeito de estudos, apesar de o professor Arnall tê-lo escusado das lições.
  • Ao voltar para casa no Natal, Stephen presencia a desintegração da família em uma discussão violenta entre seu pai (que apoia Parnell) e sua tia Dante (que apoia a Igreja) sobre a traição do líder irlandês pelos padres.
  • Acompanhando o pai a Cork, Stephen sente-se completamente separado dele e de seus amigos, e sua mente parece mais velha, brilhando friamente sobre eles como a lua sobre uma terra mais jovem.
  • A imagem da lua é amplificada mitologicamente: a lua morre e ressuscita todo mês, está associada à serpente que troca de pele (símbolo das energias da terra), enquanto a águia (pássaro do espírito livre) é sua inimiga, e a síntese das duas é o dragão (serpente alada).
  • Stephen sente as “redes do mundo” (as formas de pecado) e experimenta a sensação de que vai cair, com sua alma caindo silenciosamente, ainda não caída mas prestes a cair, como um conhecimento do poder da serpente.
  • O sentimento de ter sido adotado (motivo do herói exposto como Moisés, Édipo, Rômulo e Remo) surge em Stephen como uma sensação de parentesco místico (fosterage), de ser um filho adotivo em relação à própria família.
  • No centro exato do livro (terceira seção), Stephen, que vinha levando uma vida de pecados “mortais” com prostitutas, ouve um sermão sobre o inferno pregado pelo padre Arnall, baseado em Isaias 5:14 (“O inferno alargou a sua alma e abriu a sua boca sem limites”).
  • O sermão descreve o inferno como um lugar onde todos os sentidos são torturados para sempre: os olhos com trevas impenetráveis, o nariz com odores nauseabundos, os ouvidos com gritos e uivos, o paladar com matéria pútrida e o tato com agulhas em brasa.
  • A visão do inferno transforma Stephen, que decide se confessar e se torna devotamente religioso, chegando a pensar em se tornar santo e, mais especificamente, jesuíta, como forma de extremismo.
  • O diretor da escola convoca Stephen para lhe dizer que ser chamado para a vida religiosa é a maior honra que Deus pode conceder a um homem, maior do que a de reis ou imperadores, pois o padre tem o poder de fazer Deus descer ao altar na forma de pão e vinho.
  • Stephen, porém, percebe que os padres condenam livros que não leram e falam em clichês, e que há uma dissociação entre a imagem da tradição e o afeto naqueles que a comunicam, o que o leva a recusar a vocação.
  • A experiência de desorientação na praia leva Stephen ao encontro de uma garota que está sozinha no meio de um riacho (riacho das marés), descrita como uma estranha e bela ave marinha: pernas finas como garça, coxas como marfim, saia azul-ardósia e seios suaves e pequenos como os de uma pomba de plumagem escura.
  • Ela o olha sem vergonha e sem lascívia, e a alma de Stephen exclama com uma explosão de alegria profana (“Heavenly God!”), e ele sente que a imagem dela passou para sua alma para sempre, como Beatriz passou para a alma de Dante.
  • A garota é interpretada como o Espírito Santo em forma de pomba (evocando o terceiro olho aberto) e como o anjo selvagem da juventude e beleza mortal que abre os portões de todos os caminhos do erro e da glória.
  • A visão atualiza as profecias de Joaquim de Flora sobre a terceira era (a era do Espírito Santo) e os ensinamentos do herege Pelágio (de que a natureza humana é inerentemente boa e cada um se salva pelo próprio esforço, sendo Cristo apenas um modelo, não um salvador mágico).
  • Stephen então expõe sua teoria estética, escreve uma pequena villanelle inspirada pela garota (que olhou para ele sem despertar desejo ou repulsa) e declara que tentará voar por cima das redes (armadilhas) da nacionalidade, da língua e da religião.
  • Quando seu amigo Cranly pergunta se ele pretende se tornar protestante, Stephen responde que abandonar o catolicismo (uma “absurdo lógico e coerente”) pelo protestantismo (“absurdo ilógico e incoerente”) não seria libertação, mas perda de amor-próprio.
  • Stephen afirma não ter medo de ficar sozinho, de ser desprezado, de deixar o que precisa deixar, nem de cometer um erro, mesmo um erro para toda a vida ou por toda a eternidade (queimando no inferno), demonstrando a coragem do artista.
  • Os trechos finais do diário de Stephen registram sua decisão de partir: “Away! Away!”, com os braços brancos das estradas e os braços negros dos navios altos chamando-o como parentes, enquanto sua mãe reza para que ele aprenda o que é o coração.
  • O livro termina com a invocação a Dédalo (“Velho pai, velho artífice, ampara-me agora e sempre”) e a anotação “Dublin 1904 Trieste 1914”, indicando os dez anos que Joyce levou para escrever a obra, ao fim da qual ele parte para escrever “Ulisses”.
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