PROSA PENSATIVA
PENSAMENTO MORFOLÓGICO DE GOETHE
A invenção da escrita é temível aos olhos daquele para quem o movimento vivo da palavra, enquanto passa da boca de um para o ouvido de outro, constitui o elemento em que o pensamento se conforma, para quem sabe, ao mesmo tempo, que esse movimento vivo só pode aparecer, enquanto reconhecimento intencional, através da sua transcrição escrita, que é, com efeito, mais do que uma transcrição. O movimento da palavra, que conspira para manifestar um pensamento, envolve-se em luta com o próprio pensamento por via dessa transcrição mesma, luta por expressar, recuperar a sua própria fisionomia — o progresso do pensamento exprimindo-se de viva voz —, e luta pelo reconhecimento de si, através desse vazio branco que cresce nos interstícios da própria transcrição; luta que transforma a consciência imediata do pensamento em conhecimento mediato acerca do pensamento: pensar sobre o pensamento, o que, a acreditar numa das suas Xenien, Goethe não ousou empreender: Ich habe nie über das Denken gedacht.
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Escrever sobre a prosa filosófica é uma tarefa aterradora em si mesma, mas obedece à inspiração de dois patronos: Platão e Walter Benjamin.
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Platão teme os perigos do texto escrito, que pode passar de mão em mão estendendo sem discrição o seu domínio, abusando do leitor e permitindo todos os abusos por parte do leitor, mas ele mesmo se entrega a esses perigos.
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Benjamin considera a prosa filosófica como a mais digna forma de escrita, despojada, pobre, forma crítica que se atravessa no seu próprio caminho, fica por natureza inacabada e responde mais do que a oralidade à respiração própria do pensamento.
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O diálogo platônico possui um elemento ficcional que nenhum outro texto logrou restituir: a energia nostálgica e erótica, o sabor de imortalidade, que resumem de uma experiência expressiva inédita.
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A relação entre a forma do diálogo e o que nele se passa fabrica uma trama indecifrável que alcança no Fedro o seu clímax.
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O diálogo platônico transmuta-se na sua própria perfeição em três dimensões fundamentais: a recusa do didatismo, o saber dos limites da escrita filosófica e o reconhecimento do mar imenso onde o pensamento acaba por se perder.
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A recusa do didatismo dirige a atenção para a esotérica do texto filosófico: só se pode pôr em palavras escritas aquilo que se aprende; o essencial é arrheton, não exprimível por palavras, conforme a Carta VII (341b-343a).
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A dificuldade inerente à prosa pensativa concentra-se na conciliação entre a consciência da pouca valia do ato de escrever e o propósito de deixar vestígios inteligíveis do sentido de perseverar nesse mesmo ato.
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O diálogo platônico transporta em si o reconhecimento de que a natureza inflexível da escrita, a sua fraqueza e a sombra da sua ameaça, se descobrem como a sua própria redenção.
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No primeiro capítulo da Poética, Aristóteles realiza uma distinção entre o texto de natureza mimética e o texto que, mesmo escrito em verso, não procede da mimese, distinção que orienta a determinação da qualidade própria do texto pensativo.
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O movimento mimético é produtivo, requer a pré-existência de uma realidade como matéria da imitação, e desenvolve-se na captação de uma forma própria e na sua restituição, tendo como matéria-prima os mythoi e a lexis.
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A energia expressiva da mimese, conforme Aristóteles explicita nos capítulos XXI e XXII da Poética, exprime-se sob forma heurística: reconhecer semelhanças, encontrar as simpatias invisíveis que ligam as coisas; formar boas metáforas é um talento natural que não se pode aprender.
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A efetividade do texto poético manifesta-se na emoção sentida, fruto de um reconhecimento, efetividade patética aliada a um ato cognitivo que se exprime pela afirmação: É isto!
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O texto não-mimético, raciocinante, pensativo, não procura acordo patético, mas desenvolve-se por argumentação interna regulada, procurando que o leitor tome parte no perfazer da sua consequência consigo mesmo.
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No texto pensativo, a metáfora dirige-se sempre para a constituição conceitual, numa tentativa de controlar a própria energia conformativa da linguagem, em vez de se deixar conduzir por ela como acontece na poesia.
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A matéria objetual da filosofia já não é o mythos como fonte inexcedível, mas como o que é preciso analisar, instituindo a diferença pelo ato de separação reflexiva, como se o mythos constituísse a sombra de um saber fragmentário e arruinado que apenas pode ser interpretado tacitamente.
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A escrita filosófica, herdeira de Platão, tenta anular as ambiguidades das palavras e procurar um acordo que proceda da ordem das razões, mas esse reino está sitiado, sobretudo porque não alcança a eliminação total dos apelos da palavra encantatória.
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Platão é levado a estabelecer um parentesco entre a inspiração poética e o entusiasmo filosófico (Fedro 244a-245b; 249c-250c), instituindo temerariamente uma forma de mimese que pode cair fora das regras do puro jogo do prazer.
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O diálogo platônico é ainda um texto de natureza mimética, animado por uma intenção salvadora que, avisada dos perigos da grafia, não pode evitar que a mudez da escrita seja o único som que se ouve após a ação da morte.
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Para Platão, a invenção da escrita não é apenas a de um instrumento de fixação aniquilador da memória viva: escreve-se porque se morre, e alguns compreenderam-no precocemente.
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O parentesco entre morte e escrita foi tomado por Platão como opondo-se à arte da separação entre a alma e o corpo, tarefa propriamente filosófica (Fédon 64c): a separação entre alma e corpo, que descreve a passagem da vida à morte, tem a ver com um movimento do logos em relação a si próprio.
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A morte que a escrita efetiva é de outra ordem: não separa o pensamento do corpo, separa o pensamento de si próprio, fixando-o por meio de uma espécie de fingimento retórico.
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É a escrita que concede paradoxalmente proteção ao pai mortal que ela substitui; o perigo da arte descoberta por Theuth reside no poder de esconder a sua natureza não-natural: a leitura é fonte de esquecimento, mas pode ser transformada em benefício pela atividade daquele que lê.
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Sendo a repetibilidade uma condição necessária para a possibilidade do pensamento enquanto movimento de perfazer o ter já sempre sabido, a leitura pode tornar-se o modelo adequado para o conhecimento como recognição (Político 277e-278d).
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Tocando a escrita, dela pode jorrar água viva: se a escrita mata o diálogo vivo, é unicamente por esse dar morte que se há de ressuscitar e manter vivo aquele a quem foi dada morte.
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A invenção da escrita é temível aos olhos de Platão, para quem o movimento vivo da palavra constitui o elemento em que o pensamento se conforma, mas que sabe ao mesmo tempo que esse movimento só pode aparecer como reconhecimento intencional através da sua transcrição escrita.
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O movimento da palavra que conspira para manifestar um pensamento envolve-se em luta com o próprio pensamento por via da transcrição, luta que transforma a consciência imediata do pensamento em conhecimento mediato acerca do pensamento.
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Pensar sobre o pensamento é empresa que Goethe, a acreditar numa das suas Xenien, não ousou empreender: Ich habe nie über das Denken gedacht.
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Benjamin utilizou raras vezes o pronome pessoal na primeira pessoa do singular, levando a cabo uma experiência de despojamento que era condição da objetividade daquilo que era dito, pretendendo que o seu texto caminhasse pelo caminho que a própria coisa abria.
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Num fragmento de Das Passagen-Werk, Benjamin apresenta como princípio de método a necessidade de incorporar tudo quanto se pensa num trabalho em que se está embrenhado, preservando os intervalos da reflexão e as distâncias entre as partes mais essenciais voltadas para o exterior com tensão extrema (I.1 [N 1,10], p. 570).
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Daí deriva o valor que a citação adquire nos escritos de Benjamin: por ela, a lei da forma da filosofia alcança a sua configuração mais acabada, sobretudo quando se prossegue como espírito do tratado enquanto sistema de citações.
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Falar como se outro falasse é um apagamento simultaneamente real e simbólico daquele que escreve: apenas ressoar e repetir, mediando ressonâncias, emprestando voz, movido pela paixão de compreender e pela necessidade de separar de si essa compreensão.
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O propósito da prosa pensativa é eliminar o indizível da linguagem, pressupondo que as palavras não são naturalmente transparentes, mas opacas e espessas.
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Eliminar o indizível equivale a conduzir as palavras à sua transparência, procurando reanimar a pureza do poder do diáfano no nome; processo de metamorfose sempre fragmentário que toma expressão mais plena no momento contemplativo sem êxtase.
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Em carta a Martin Buber de julho de 1916, Benjamin escreve que a linguagem nunca é eficaz pela comunicação de conteúdos, mas pela mais pura revelação da sua dignidade e essência, e que a eliminação pura e cristalina do indizível coincide com o estilo propriamente objetivo e sóbrio, apontando para a relação entre conhecimento e ação no interior da magia da linguagem.
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A poesia não pode querer essa eliminação: a sua transparência provém da aceitação do indizível como atmosfera inerente a tudo quanto é dito; o que a filosofia procura é o espaço sem atmosfera, onde não se pode respirar.
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Tomar a linguagem como comunicação significa reduzi-la a uma função instrumental, retirando-lhe o poder visionário constitutivo do nome e tornando a palavra viva informação uniformemente difundida e esquecida.
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Eliminar o indizível, quando qualquer concepção instrumental da linguagem é suspensa, compreende não um furtar de uma potência inerente ao dizer, mas o fazer desencadear a potência que a linguagem exibe quando é posta a falar de si própria em vista de descobrir a sua própria verdade.
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Benjamin encontra-se com Platão ao anular na filosofia qualquer intenção comunicativa de conteúdos: o que se pode aprender não é essencial, e o método e a linguagem próprios da filosofia perturbam sempre qualquer didática.
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No coração da constituição de qualquer texto filosófico deve haver um movimento eliminativo do indizível, que, paradoxalmente, poderia parecer o elemento mais apto a ser aprendido e ensinado.
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O momento da explosão da própria linguagem é o momento de uma experiência de falha, descoberta do limite interior ao dizer, que faz estilhaçar a linguagem enquanto puro poder de nomear, contrariando o uso comunicacional e conduzindo-a à sua redenção.
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É próprio da natureza da prosa filosófica o despojamento da identidade de quem escreve e o pressuposto de que os termos referentes ao objeto são limitados em número, sendo o neologismo uma esperança vã.
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Os projetos filosóficos possuem uma esotérica da qual são incapazes de se desfazer e que lhes é vedado renegar, que lhes permite a glória pela qual serão julgados, conforme Benjamin afirma no Ursprung (I.1, p. 207).
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Essa esotérica é a impossibilidade de submeter o método filosófico, consistente na apresentação repetida da sua forma, a qualquer propósito didático.
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Goethe formulou assertoricamente essa questão em Winckelmann (HA 12, p. 119): cada um crê ter direito a tomar parte nas descobertas da filosofia, utilizar as suas máximas e consumi-las, o que só ela pode alcançar.
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Pensar é uma espécie de respiração que visa uma finalidade interna: manter o corpo vivo, apto para a respiração; incansavelmente, o pensamento recomeça de novo, regressa à própria coisa.
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A dificuldade inerente ao método próprio da filosofia é, de acordo com Benjamin, a apresentação da sua forma, que prova que ela é uma espécie original de prosa marcada por pausas, como cicatrizes de todos os combates com a perplexidade.
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A prosa filosófica não pretende arrebatar nem entusiasmar, mas fazer deter, obrigar a parar, interromper o fluxo e deixar-se ficar nessa interrupção, qualquer coisa aproximável a uma aura do texto filosófico; quanto maior é o objeto, mais essa contemplação é marcada por pausas (Ursprung, p. 209).
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Aristóteles na Metafísica (B 1, 995a 27) apresentou de modo trágico as pausas do pensamento: a dificuldade com que o pensamento embate mostra que há um nó no próprio objeto, pois enquanto o pensamento está no embaraço, o seu estado é semelhante ao do homem agrilhoado, incapaz de ir para diante.
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Esse ir para diante concretiza-se pela realização de movimentos de retorno e de desenleio do nó, um ir para diante que volta sempre ao mesmo lugar, recomeçando tudo de novo.
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Apenas a escrita permite a entrada em cena do logos simultaneamente sob a forma de ter visto e de dar conta (eidenai e didonai), exercendo e guardando uma tensão entre ter sabido e o seu dar conta, cuja resolução é inexoravelmente falhada.
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A exigência da razão é, como diziam os gregos, dar conta, logon didonai, com a maior precisão, de tudo o que podia haver ou pudesse ter ocorrido.
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A sobriedade da prosa é a única maneira de escrita que convém à investigação filosófica: a descontinuidade própria do pensamento, os ritmos do sopro e os tempos da voz interior, só alcança a sua plenitude pela escrita.
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As pausas em que a prosa se desenvolve efetuam uma restituição originária da atividade rítmica de pensar e antecipam o seu anseio pela paragem final: a perda de fôlego é limite e alimento do próprio crescimento interior.
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O pensamento necessita de parar, retirar-se e voltar para trás para se poder reconhecer a si mesmo; o espírito, quando olha para si mesmo, renuncia completamente à vida.
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