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ARQUÉTIPOS PERCEPTIVOS E DE LINGUAGEM DO "PENSAMENTO CONCRETO"
PENSAMENTO MORFOLÓGICO DE GOETHE
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O excerto de Ernst Junger sobre figura (Gestalt) e tipo (Typus) serve de introdução privilegiada às teses da morfologia goethiana, ciência das questões da forma, do tipo e das imagens originárias.
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Figura e tipo são formas da intuição mais elevada: a figura concede poder metafísico, o tipo assegura poder espiritual.
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A dificuldade do tema reside em que as coisas simples estão mais perto do sem-nome (Namenlosen) do que as complicadas.
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O tipo não se dá na natureza e a forma não aparece no universo: ambos devem ser recolhidos nas manifestações, como uma força nos seus efeitos ou um texto nos seus sinais.
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A metáfora da moeda distingue a peça singular que circula e a instituição onde é cunhada, apontando para a diferença entre o cunho visível e o molde invisível da cunhagem.
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A morfologia goethiana move-se na tensão entre a atividade empírica de observação e coleção e o anseio pela compreensão global, pela aproximação ao Inseparado (Ungesonderte).
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O tema da forma implica questões de transformação e permanência, fragmentação e plenitude, passagem e acabamento, visibilidade e invisibilidade.
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O projeto morfológico é dificilmente integrável em qualquer sistema filosófico ou científico; tentar responder a tais dificuldades implica a metamorfose daquele que responde.
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A forma e a cor constituem, conforme Goethe confessa a Schiller em carta de 15 de novembro de 1796, os objetos únicos do sentido da visão, que institui a possibilidade mesma do pensamento.
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O ato de ver é tido como único, primeiro e incomparável, e a nomeação é sempre um movimento segundo, de tradução.
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A desproporção entre ver e falar, entre perceber e nomear, é central no pensamento goethiano.
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Da metamorfose das plantas e da teoria das cores procedem de um Aperçu, intuição originária anterior à construção racional.
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A reprodução por palavras é apenas a realização incompleta da ideia; só a crença, o Aperçu e o Amor (inclinação) podem apoderar-se de uma ideia como o conceito de metamorfose das plantas ou a teoria das cores.
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Toda a visão é única: não há segunda visão que avalie a primeira.
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O verbo latino intueor, tomado apenas na voz passiva pelos antigos, revela que intuir não é uma decisão do espírito, mas uma aquiescência a uma imposição, uma forma de produktive Leidenschaft.
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A nomeação é sempre um movimento segundo, mediador, de tradução em relação ao ato de ver.
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Toda palavra que não regressa à visão está condenada a morrer, aniquilando seus propósitos explicativos.
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Jünger formula esse risco: as despesas aumentam e os rendimentos diminuem quando o espírito cognitivo triunfa sobre o perceptivo.
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A constituição de uma linguagem teórica adequada à contemplação e descrição do aparecimento e transformação das formas é um dos nós centrais dos estudos naturais e estéticos de Goethe.
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Distingue-se entre pura nomenclatura baseada em divisões e subdivisões e uma língua que propicia o vislumbre e o reconhecimento da metamorfose própria de cada forma.
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Os nomes como classe, família, gênero e espécie não designam conceitos em sentido estrito, mas tipos de natureza intrinsecamente ideal.
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A classificação, para não se converter em pura nomenclatura, deve ser constituída a partir de um reconhecimento das formas enquanto aspectos de um Werdendes.
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O conceito sofre uma conversão simbólica que integra os elos entre a intuição e o objeto intencional do pensamento.
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O perigo está em converter a intuição em conceito, o conceito numa palavra e a palavra numa coisa, reificando numa terminologia o que lhe escapa inexoravelmente.
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O pensamento da forma move-se para a origem vivendo no interior das manifestações derivadas, exigindo requisitos ambíguos próprios do caminho intermediário.
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Nunca se afastar das formas vivas e, ao mesmo tempo, ter de se afastar delas para poder observá-las.
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A separação é um dos momentos necessários tanto da manifestação quanto do ato cognitivo.
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O pensamento morfológico de Goethe procura os arquétipos da intuição e da linguagem; o raciocínio lhe aparece sempre como uma forma de apresentação, conforme escreve a Schiller em 15 de novembro de 1796.
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Börnsen observa que há algo mais envolvente do que o fixado nas obras de um autor, comparando o conhecimento de uma árvore pela observação de suas folhas e frutos no Outono.
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Para Goethe, a essência só se capta a partir de uma história manifesta; a ideia é resultado da experiência, como afirma na Máxima 537.
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A intuição da ideia se dá sob a forma de coincidência de uma antecipação com a irradiação própria da forma-matriz na obra.
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É nos momentos de transição que se tornam mais visíveis as tendências escondidas do desenvolvimento do espírito humano.
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A tendência do espírito humano de manifestar mais intensamente suas regularidades nas fases de passagem está presente em qualquer processo natural.
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As leis do aparecer são as mesmas no domínio do espírito e no domínio da natureza.
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Goethe diz a Falk que é necessário observar atentamente as passagens (Übergänge), das quais tudo depende na natureza.
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O tema da passagem aparece na relação entre as faculdades, na relação entre faculdades e formas, na história do espírito humano e no crescimento de qualquer forma.
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A expressão passagens goetheanas alude a Das Passagen-Werk de Walter Benjamin, obra mantida em estado fragmentário que pretendia assumir os princípios metódicos da morfologia goethiana, em particular os da Metamorfose das Plantas, para descrever as passagens arquitetônicas parisienses.
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Benjamin, em nota do Passagen-Werk (v.l [N2a,4], p. 577), declara tratar-se de uma fundamentação da origem, seguindo o desenvolvimento das configurações das Passagens parisienses a partir de fatos econômicos tomados como Urphänomene.
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A forma deve ser vista como história interna de sua própria transformação, série ordenada de acordo com um modelo primitivo, cuja passagem de um momento a outro é percebida pelo ato de imaginação.
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Wittgenstein, em suas investigações sobre a linguagem, encontra ressonância com a compreensão da forma como transformação e com o método morfológico goethiano de descrição das passagens e da sinopse (Übersicht).
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J. Schulte mostrou que a ideia goethiana de morfologia está na base das considerações de Wittgenstein, não como influência direta, mas como wiederholte Spiegelungen.
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Wittgenstein afirma, em passagens citadas por Schulte, que toda a explicação deve ser posta de lado e apenas a descrição deve tomar seu lugar, e que a representação perspícua é o mediador da compreensão consistindo em ver as conexões.
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Paul Valéry, em Introduction à la Méthode de Léonard de Vinci, defende que o ofício do artista é tentar ver o que é visível e, sobretudo, não ver o que é invisível.
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O essencial da investigação é não querer aprender nada de novo, mas compreender o que já está diante dos olhos, dificuldade expressa por Goethe nas Xenien: Was ist das Schwerste von allem? / Mit den Augen zu sehen, was vor den Augen dir liegt.
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Nas Vermischte Bemerkungen, Wittgenstein formula sentenças próximas a esses versos: Wie schwer fällt mir zu sehen was vor meinen Augen liegt e Möge Gott dem Philosophen Einsicht geben in das, was vor allen Augen liegt.
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Os objetos da morfologia goethiana são as formas enquanto passagens, compreendidas como Bewegliche, Werdende, Vergehende, que exigem ao mesmo tempo a compreensão da forma como totalidade.
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A passagem como contínuo movimento de metamorfose engloba o perigo da dissolução e de uma transformação ininterrupta sem limite interno.
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O conceito de Steigerung (intensificação) é o princípio pelo qual o separado pode reunir-se num sentido mais elevado, produzindo um terceiro, um novo, um mais elevado, um inesperado.
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Aquilo que aparece tem de se separar para aparecer; o separado procura de novo o todo e pode reunir-se a ele por indiferenciação ou por concentração e diferenciação.
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No parágrafo 586 de Die Farbenlehre, Goethe estabelece que tudo o que é vivo move-se para a cor, para o particular, para a especificação, enquanto tudo o que é desprovido de vida tende para a abstração e a transparência.
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Hermann Tietz mostrou que Gradation serviu várias vezes a Goethe como equivalente de Steigerung, ainda que Steigerung seja mais pregnante e versátil.
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O objetivo mais próximo da morfologia goethiana consiste em pensar a manifestação mais simples como a mais diversa e a unidade como pluralidade (Vielheit), conforme Goethe expõe em Einzelnes.
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O muito em um (Viele in Einem) não deve ser pensado como simples sucessividade, mas como o muito enleado na singularidade.
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Ver o um no muito e descobrir o muito no um são procedimentos das passagens goetheanas, próprios de um olhar demorado em volta (umhersehen), na origem da sinopse.
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Esse procedimento exemplifica-se na metamorfose das plantas a partir da forma-Proteu, na teoria das cores deduzida do Urphänomen (claridade/obscuridade) e na concepção do tipo no reino animal.
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Goethe fazia seu o verso de Tasso che per variar natura è bella, que Leibniz também tomara como um de seus motes.
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Na viagem à Itália, descrita em Italienische Reise, Goethe anuncia o tema da Urpflanze e desenvolve seu interesse pelas cores, sistematizado pela pintura.
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Em Palermo, em 17 de abril de 1787, Goethe formula o tema da Urpflanze em seu modo mais visionário: o poder de reconhecer uma planta como planta advém do encontro com a forma comum a todas.
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A procura da Urpflanze não é tentativa ingênua de encontrar uma planta concreta; é a interrogação pela unidade de um reino e por sua visibilidade.
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Jünger restituiu a claridade do pensamento goethiano ao afirmar que a ciência pode apresentar tipos, mas a planta originária (Urpflanze) brilha numa luz invisível para ela, procedendo não da extensão, mas da profundidade do encontro.
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Trata-se de intuir a forma a partir da qual se pode reconhecer, na versatilidade das configurações, a unidade de um reino natural, celebrando uma coincidência entre Gesichtspunkt e Vereinigungspunkt.
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A necessidade de um Typus aparece igualmente constrangedora no reino animal, exigindo uma imagem geral (allgemeines Bild) a partir da qual se possam aperceber as formas de todos os animais.
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Em Erster Entwurf, Goethe propõe um tipo anatômico que contenha, de acordo com sua possibilidade, as formas de todos os animais; nenhum animal singular, nem mesmo o homem, pode ser apresentado como cânon de comparação.
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Tanto no caso da Urpflanze quanto no do tipo animal, trata-se de aperceber uma série de formas ordenadas sinopticamente.
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Em Goethe reúnem-se os dois grandes movimentos conceituais de Platão e Aristóteles: a procura de um modelo originário a priori e a ideia de um propósito imanente à forma viva.
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Jünger usa o termo fotográfico Entwicklung (revelação) para nomear o poder de desenvolver, a partir do sem-nome, os anônimos sinais da die gestaltende Macht presente em cada ser.
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A diversidade originária (ursprüngliche Verschiedenheit), formulada em Die Skelette der Nagetiere, é uma versão do princípio de polaridade, que permite conceber tanto os fenômenos constantes quanto os desviados.
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A cor, como qualidade sensorial imediatamente dada e irredutível, funda a afirmação de Goethe a Eckermann em 1831 de que sua teoria das cores é velha como o mundo e não poderá ser negada ou passada em silêncio.
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O Urphänomen é a manifestação específica e originária que unifica toda a variabilidade das cores quando a luz atravessa um meio opaco ou semi-opaco.
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No Urphänomen, a diversidade originária é enunciada como polaridade entre luz e trevas, formulada na pintura como chiaro-oscuro.
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A grande dificuldade está em tornar compreensíveis essas imagens por meio de palavras sem reduzir completamente sua resistência à teoria explicativa.
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Na Geschichte der Farbenlehre, Goethe reflete sobre os aspectos devastadores da ação do espírito quando se apodera da palavra alheia, aniquilando as tensões que faziam dela a palavra de um outro.
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As Máximas 1021 e 1036 e várias passagens de Dichtung und Wahrheit retomam esse tema; o clímax é o verso de Faust: Name ist Schall und Rauch.
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A expressão de Zenão estoico, citada por Plutarco, de que as cores são os primeiros esquematismos da matéria é bem-vinda a Goethe porque as palavras, ainda que modificadas em seu sentido original, são suficientemente significativas.
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No pensamento kantiano, o tema da forma cobre ambas as variações da faculdade de julgar no uso reflexivo, estético e teleológico, sendo desenvolvido na Kritik der Urteilskraft em torno da experiência estética.
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A forma designa o modo de aparecer de cada singular configurado pela imaginação e favorece uma parada contemplativa em que o sujeito abdica de seu poder constitutivo.
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No parágrafo 14, forma refere-se a uma configuração proporcionada por um esboço ou uma composição, Gestalt und Spiel, na gênese de qualquer forma artística.
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No parágrafo 15, o momento formal (das Formale) é definido como a concordância de uma multiplicidade com uma certa unidade, sendo o acordo não entre intuição e conceito determinado, mas entre uma multiplicidade e a forma que a unifica.
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No parágrafo 58, Kant fala de formas livres da natureza cuja produção, de ponto de vista mecânico, ocorre a partir de uma matéria fluida em repouso, tomada como uma espécie de atividade estética da própria matéria.
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No parágrafo 30, Kant se estranha com a existência de formas belas naturalmente ocultas ao olhar, nas profundezas do oceano ou da terra.
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Das Formale implica a passagem: a forma é apreendida como formação, e qualquer apreensão de uma forma estética supõe a apreensão de sua gênese.
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Quando nos parágrafos 67 e 68 Kant introduz o conceito de innere Form, a aproximação a seu significado é favorecida pela reflexão sobre a forma desenvolvida em toda a primeira parte da Crítica da Faculdade de Julgar.
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Innere Form diz respeito à gênese da própria forma, à Bildung, ao manifestar-se pelo crescimento nos seres vivos e ao modo como age o Gemüth interpelado pela linguagem da natureza.
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No formal contraem-se o jogo harmonioso das faculdades e uma particular relação entre partes e todo que está na base da ordem interna do vivo.
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Goethe partiu exatamente da compreensão profunda dessa conjugação, que o levou a interessar-se pelas formas dos seres naturais, pelas questões morfológicas na botânica e na metamorfose da luz em cor.
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Desde o início, Goethe teve a percepção do parentesco e da rede de afinidades que uniam toda a natureza, e a necessidade de compreender o enigma dos seres vivos foi uma constante e um foco gerativo.
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A aliança entre a descoberta de princípios comuns e a convicção das afinidades transforma-se, integrada num método heurístico-descritivo, em apresentação sinóptica que recusa o esquema causal linear e qualquer procedimento explicativo-legislativo.
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A apresentação sinóptica pretende mostrar pela figuração mais minuciosa os enleios que asseguram a constância e coerência interna de cada ser.
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Descobrir o muito no um e ver o um no muito só é possível admitindo simultaneamente uma autonomia do diverso e um princípio supremo de ordem.
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A principal dificuldade para quem estuda as formas naturais é descrever pela palavra o modo como elas são enquanto formas aparecendo.
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O modo de dizer necessário perturba e desregra o discurso redutor assentado na distinção separativa entre o poder de nomear e o poder de ver.
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Os estudos de Goethe sobre as formas naturais, orientados pela bússola do amador e inseparáveis de sua atividade poética, contêm uma vocação claramente metafísica.
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Uma reflexão sobre a forma implica, a ela é inerente, uma constelação temática de ordem metafísica, daí a desconfiança do pensamento empirista.
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Um pensamento morfológico exige uma teoria do conhecimento que repousa sobre o ponto de vista e aspira a reunir todos os pontos de vista para conseguir a sinopse integral.
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A estrutura cognitiva morfológica exercita-se sobre fenômenos significativos que convidam à contemplação e à dedução, experienciando uma intuição que se sabe irremediavelmente fragmentária.
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Goethe afirma a Eckermann em fevereiro de 1829 que a verdadeira síntese permanecerá provavelmente uma terra incógnita.
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Geoffroy Saint-Hilaire, no relatório para a Academia de Paris em 1831 sobre a Metamorfose das Plantas, assinalou que o escrito, quando publicado, foi notado por poucos e tomado como aberração, sendo publicado quase meio século antes de haver botânicos que o soubessem estudar.
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Saint-Hilaire observou que, se o livro não trouxesse seu título restrito, seria lido como a história do desenvolvimento do espírito humano em geral.
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Goethe confessa a Eckermann em 1 de fevereiro de 1827 que seu propósito era só reconduzir todos os problemas a uma lei comum fundamental.
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Seu modo de olhar e conhecer o reino sem limites da natureza sempre repousou mais sobre o Glauben e o Ahnen do que sobre o Schauen e o Wissen, conforme Die Lepaden.
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Jünger respondeu a esse chamamento afirmando que o homem defende sempre mais intensamente aquilo em que acredita do que aquilo que sabe, pois as palavras qualificam, não determinam o caminho.
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