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GRAUS DO APARECER E DA CONTEMPLAÇÃO

PENSAMENTO MORFOLÓGICO DE GOETHE

  • A questão que ocupa Goethe e que toma pela última vez uma dimensão visionária é a questão dos universais, ou seja, a antiquíssima relação entre unidade e multiplicidade, consagrada como reconhecimento da presença irruptiva da unidade e como entendimento do seu poder manifestante.
    • O paradoxo central é o da multiplicidade que tem unidade sem que a diversidade se perca.
    • É nesse quadro que se captam as reflexões goethianas sobre conceito e ideia, tipo e forma, imagem originária e fenômeno originário, planta originária, animal originário e corpo originário.
  • O movimento próprio daquele que nomeia e habita as coisas tem dupla natureza: o propósito de unir e a premência de separar, ambos suspirando por um terceiro que restabeleça o que Jünger chama das Ungesonderte, que Goethe denominou das Ungeheure, e que os filósofos condensaram na palavra ser ou na palavra uno.
    • Unir e separar correspondem às solicitações feitas pelos existentes, múltiplos e diversos, que acompanham a sede inextinguível de cada um em perseverar.
  • De acordo com Goethe, cada existente constitui-se pela possibilidade da relação entre singular e universal, entre a perfeição de si próprio e a aproximação à sua ideia, e entre si próprio como figura concreta determinada espaço-temporalmente e si próprio como revelação da sua própria lei.
    • As formas e as ideias dizem respeito à possibilidade da existência, à configuração da existência, e à gênese e ao ser levado a cabo dessa configuração.
    • As ideias são indivíduos integralmente realizados, plenos, onde não se pode conceber o movimento relativo; todo o sucessivo tem de ser pensado na ideia como simultâneo, numa turbulência da ordem do fogo heraclitiano, que Goethe viu como tranquilidade eterna: Über allen Gipfeln / Ist Ruh.
  • O que vem à existência é múltiplo e variado, e cada modo de existir estabelece uma qualidade própria do ato de individuação.
    • Goethe poderia subscrever a concepção estoica de um idios poion (S.V.F. II, 397), qualidade determinante que particulariza cada indivíduo, princípio ativo e pneumático que preenche para cada ser a função que Aristóteles atribui à alma no composto humano.
    • Essa concepção é apreensível no modo como Goethe entendia a formação das obras de arte nas passagens da imitação à maneira e da maneira ao estilo, e na sua exigência de constituição de uma crítica dos sentidos simétrica de uma crítica da razão.
    • A imitação fica ao nível da apropriação dos pormenores; a maneira consagra a estimulação da imaginação sobre a apreensão e comparação; o estilo é o grau-limite do ato artístico, que preserva a qualidade inconfundível de cada coisa apresentando-a.
    • Conhecer na íntegra qualquer indivíduo, equivalente a conhecer a sua ideia ou forma em toda a sua plenitude, seria o mais alto prêmio, aniquilador e último, da faculdade de julgar.
    • Jünger (§§ 81-82, pp. 437-438) esclarece que as formas determinam a possibilidade de estabelecer um reino e os tipos declaram qualificações de um reino: ver no lírio a planta que cresce como lírio e se chama lírio, este lírio.
  • Os universais são o resultado da atividade recognitiva do espírito, formas invisíveis chamadas a reunir o que há, mas não de maneira homogênea; há universais que reúnem os existentes efetuando escolhas, encontrando semelhanças estruturais e fisionômicas, estabelecendo diferenças e aprofundando afinidades.
    • A linguagem realiza por esses universais o enleio paradoxal entre todos e cada um, entre partes e todo: pedra designa cada uma das pedras, o que permite distingui-la da árvore e o que torna cada pedra um singular.
    • Reúne-se por regra, podendo o universal ser definido como regra de unificação, mas com graus de diferenciação: a regra que une este cão a todos os cães não é a mesma que o une aos carnívoros, aos mamíferos ou a todos os animais.
    • A árvore, o cão, a estrela, o lírio, a pedra são nomes que designam uma extensão indeterminável e ao mesmo tempo dirigem a atenção para os particulares nomeados: nesta árvore está presente a árvore, neste cão o cão, neste lírio o lírio.
    • Diferentemente, o universal que reúne determinações separáveis da matéria (peso, dureza, impenetrabilidade, densidade, massa) não permite a identificação de nenhum indivíduo, tratando-se de uma reunião que fixa sem intensificar uma parcela abstraída do todo, sem tensão interna nem movimento para o singular.
  • Kant, ao falar dos esquemas dos conceitos empíricos, não tematizou senão aqueles para os quais a designação não era a mais exata, como o conceito empírico de cão, deixando por tematizar os esquemas dos conceitos empíricos propriamente ditos como dureza, impenetrabilidade e densidade.
    • Os universais designados como conceitos puros, como causalidade, necessidade e possibilidade, têm origem em operações de natureza exclusivamente espiritual e necessitam de encontrar uma mediação, o esquema, para se converterem em legítimas possibilidades das relações entre as coisas.
    • A concepção do esquematismo kantiano tem sobretudo em vista resolver a passagem do conceito puro à intuição.
    • O que faz mover o pensamento não são essas condições endógenas que o autocontituem, mas aquilo que lhes dá sentido: as ideias.
  • Entre os universais-existentes, cuja origem permanece irremediavelmente insondável, o homem é capaz de, por força da sua mêchanê, produzir existentes que imaginou, concebeu e realizou, nos quais está guardada uma exemplaridade que os faz casos inéditos de uma regra não enunciável.
    • Há ainda seres nascidos de um poder aparentado ao da mêchanê, mas menos intensificado, para os quais é possível enunciar tanto a regra que os unifica como totalidade quanto a regra que os unifica enquanto produtos: casa, caminho, cadeira, cama, mesa, túmulo.
    • Na obra de arte está presente o seu universal: a arte ou a sua ideia (a arte como natureza) e a sua forma (o elemento pregnante, equivalente à forma-matriz nas configurações naturais).
  • A questão dos tipos na poesia ocupou intensamente Goethe, em diálogo com Schiller, manifestando-se na distinção cuidadosa entre Dichtarten (tipos poéticos) e Dichtweisen (modos poéticos).
    • Os Dichtarten qualificam espécies poéticas organizáveis de acordo com os modos poéticos: a balada, o epigrama, a elegia, a epopeia.
    • Os Dichtweisen são conteúdos puros, os gêneros tal como Goethe os concebeu (narrativo-épico, entusiástico-lírico e dramático-agindo por pessoas), que alcançaram a sua perfeição originária na cultura grega.
    • Os modos poéticos são designados por Naturformen der Dichtung, acentuando o caráter ínstito dos gêneros enquanto formas naturais à poesia, formas nas quais a poesia desdobra a sua natureza.
  • A tensão presente em cada obra de arte manifesta-se no modo como se relaciona com a totalidade da obra do artista e no modo como se relaciona com a arte ou a ideia de arte.
    • Essa tensão é desencadeada por um ato concreto, que Novalis chamaria mecânico, de realizar e conduzir ao seu termo, e cuja intensidade a constitui como imagem originária e modelo de tudo o que foi gerado ou há de aparecer.
    • Procede-se por comparação com o agir humano produtivo para compreender o haver dos cães, das estrelas, das árvores; mas o movimento inverso também é percorrido, tomando-se o modo de aparecer do gerado independentemente do propósito humano como modelo daquilo que o homem produz.
    • Goethe considerou esse segundo movimento como condição de possibilidade do primeiro: a poesia é co-natural ao princípio generativo na sua imensidade, a natureza, sendo a poesia uma atividade co-respondente.
  • Existe ainda uma outra espécie de universais que não se exibem diretamente na existência, que penetram nela como convidados estrangeiros únicos, por quem se esperou e se espera sempre.
    • Essa forma de universal contém a força expansiva do espírito em mais alto grau, expressa por um máximo de intensidade tensional em relação às singularidades, devido precisamente à sua forma própria de invisibilidade.
    • A forma e a ideia gozam de uma invisibilidade especial que não tem origem apenas num movimento de autodeterminação operatória do espírito, nem se encontram protagonizadas mais ou menos adequadamente nas disposições inerentes aos seres que há, como é o caso dos conceitos empíricos de lírio, estrela.
    • A forma e a ideia contêm não apenas o poder espiritual do invisível, mas o seu poder metafísico, objeto do anseio e da nostalgia dos homens, mas não do seu conhecimento.
  • Relativamente aos universais que sustentam todas as ordenações e classificações dos existentes, família, classe, gênero, espécie e tipos não se tornam visíveis direta e integralmente, mas são indiretamente captáveis através das qualidades próprias dos visíveis a que se referem.
    • Os universais corporificados em obra mecânica, como a pintura e a escultura, dotam cada singular do poder da exemplaridade, de expressar na íntegra o seu próprio universal.
    • As obras de arte constituem existências originárias, dado que cada indivíduo expressa ele mesmo a totalidade do todo.
    • Nos Materialen zur Geschichte der Farbenlehre Goethe afirma que, já que tanto no saber (Wissen) como na reflexão (Reflexion) nenhum todo pode ser reunido, é necessário pensar a ciência enquanto arte, mostrando-se de cada vez como um todo em cada um dos seus objetos singulares (HA 14, p. 41).
  • O texto dos Materialen interessa decisivamente não só pelo modo pregnante como apresenta a natureza original da obra de arte, mas pelo tomar dessa relação como modelo para qualquer projeto de ciência (Wissenschaft).
    • A Wissenschaft, no sentido em que Goethe a toma, aproxima-se de uma teoria categorial do conhecimento, acentuando motivos recorrentes que configuram as condições do processo cognitivo e descobrindo-lhes uma história interna (a típica do pensamento, no dizer de Benjamin).
    • Desenvolve ainda uma afinidade com a criação artística, elevando a observação a uma atividade mimética e convertendo a experiência em procedimento heurístico de reconhecimento e apropriação.
    • A mais alta promessa da Wissenschaft goethiana é tornar-se na coisa conhecida.
  • Numa só obra de arte exprime-se sempre a arte na sua totalidade, alcançando-se uma adesão sem fissuras entre o indivíduo e a sua própria lei, mas subsiste ainda o pressentimento de um desacerto, propiciatório de teses que contradizem essa aderência.
    • Os gêneros literários, sendo Naturformen, não encontravam para Goethe uma realização concreta plena e definitiva, a não ser entre os gregos, cujas fabricações se elevaram à condição de imagens originárias sem coincidir com a ideia.
    • O gênero pode ser tomado como ideia, condição de possibilidade ínsita à atividade poética, ou como imagem originária, atualização-modelo como é o caso da arte grega.
    • Goethe oscilava entre a concepção que admitia a presença em cada obra de arte da ideia de arte e a concepção que apenas aceitava cada obra como aproximação fragmentária e incompleta à sua própria ideia, o que aparece traduzido em Benjamin sob a forma: a obra como a máscara mortuária da sua intuição.
  • A invisibilidade própria dos conceitos intelectuais é da ordem da pura ação espiritual e relacional, com origem na espontaneidade da mente, não revestindo qualquer aporia no que toca ao visível a não ser a de justificar a legitimidade do seu poder sobre ele.
    • A visibilidade enquanto tal é suspensa no ato cognitivo constituidor de objetos, assumindo o estatuto de um caso-limite, uma ficção necessária: a coisa concreta não é um objeto propriamente dito, tornando-se possível a sua constituição objetual apenas pulverizada nas inúmeras operações materiais e integrada em estruturas e campos energéticos.
  • Acerca dos universais chamados formas e ideias, a invisibilidade é a de uma presença que, se se procura atentar demasiado nos seus vestígios, se dissolve e aparece na sua face mais ofuscante: a ausência.
    • Jünger afirma que as formas são pouco nítidas, difíceis de apreender, e que o que perdem em determinabilidade ganham em significação (§§ 85-86, pp. 441-443).
    • A concepção da forma está associada à categoria da passividade, à experiência de sofrer a ação do outro, confirmando o suposto de uma syngeneia entre o que sofre a ação e aquele que desencadeia essa paixão: o semelhante atrai o semelhante ou só pelo semelhante se pode conhecer.
    • Gestalt ist Erlittenes nicht Erhandeltes: o bem, o belo, a língua pura, a voz universal, a planta originária constituem alguns dos nomes dessas formas.
  • Esta última espécie de universal é abrangente em relação às outras, constituindo um padrão originário de medida de todos os outros, em particular dos universais em primeiro lugar enunciados.
    • Tudo o que vem à existência e alcança a sua própria configuração entra na sua roda, imagem que em Benjamin (Ursprung, p. 215) encarna a relação entre a ideia e as manifestações como a mãe que atrai e abraça os filhos reunidos à sua volta.
    • Os termos tipo, gênero, forma e ideia interpenetram-se no uso, sinal da dificuldade em estabelecer fronteiras definitivas, indistinção presente como seu sal no pensamento goethiano.
    • As ideias ou formas introduzem nos conceitos puros, tal como Kant os determinou, não o seu campo de ação legítimo, mas a imensidão do sentido, o seu norte magnético.
    • O ato redutivo que opõe em essência um conceito a uma ideia ou a uma forma e o ato expansivo que apela para outra forma de reunião encontram no símbolo, e em especial no Urphänomen goethiano, a sua expressão mais própria: a origem do aparecer apresenta-se com o próprio aparecer.
  • As afirmações tudo o que é aparece e tudo se significa a si próprio e aparece como o que é implicam a recondução daquilo que aparece à forma, a um que se move, a um que advém, a um que devém.
    • As relações entre ser e aparecer esclarecem-se como passagens, mudanças inerentes ao progredir interno e externo daquilo que aparece.
    • Os diversos aspectos de cada ser que aparece são mostrativos e significativos, fazendo descobrir cada ser como forma: cada ser, na sua exposição diferenciada, assinala a sua própria lei.
    • Isso implica, por um lado, a compreensão de tudo o que aparece sob o conceito de metamorfose e, por outro, a exigência de uma reunião reconciliada de todos os aspectos plenamente entrelaçados, constituindo uma totalidade levada ao seu termo.
  • Para apresentar a concepção de Goethe sobre o aparecer é necessário articular duas ordens de afirmações: uma que acentua a vertente separativa daquilo que há na sua epifania própria, a autonomia de cada ser; outra que assinala a vertente significativa daquilo que há, a revelação do que é enquanto aparece.
    • Não sujeitando a suspeita o que aparece, descobre-se aquilo que aparece como aparição, interpretando-se o aparecer na sua forma originária como condição do aparecer.
    • É assim que o aparecer resplandece, quando se contempla inseparavelmente da sua origem.
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