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GOETHE E A TRADIÇÃO HERMÉTICA
FAIVRE, Antoine (org.). Cahiers de l’Hermétisme – Goethe. Paris: A. Michel, 1980.
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Após a crise de Leipzig de 1768, Goethe foi iniciado na tradição hermética pelo Dr. J.F. Metz, tornando-se familiarizado com os grandes autores do ocultismo e com questões de unidade profunda, analogia entre microcosmo e macrocosmo, e inserção do indivíduo no destino espiritual do mundo.
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Autores estudados: Paracelso, Welling, van Helmont; leitura da Aurea catena Homeri.
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Em Estrasburgo, Goethe tomou distância do cristianismo e da magia como meios de conhecimento, mas permaneceu impregnado pelas experiências alquímicas e pelas leituras pansóficas.
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Essas experiências forneceram não apenas um arsenal de imagens e motivos, mas também uma moral da qual continuou a se inspirar.
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Em Weimar, o contato com as realidades cotidianas tornou o pensamento hermético mais estranho a Goethe, mas a admissão à Loge Amalia entre 1780 e 1782 e a afiliação à ordem dos Illuminés em 1783 reavivaram certas lembranças de leituras herméticas.
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O projeto da epopeia Les Mysteres, iniciado em 1784, testemunhava o respeito de Goethe pelo caráter sagrado dos mistérios, transmitidos de geração em geração por irmãos iniciados.
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Goethe, como Herder, estimava que Deus se manifestava em todas as formas de crenças e sistemas de pensamento, participando todos da grande religião original.
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O projeto visava traduzir o sonho de uma comunidade religiosa universal, com ênfase na moral hermética: mestria de si, renúncia e pureza, sendo a alma límpida o melhor receptáculo da sabedoria.
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A epopeia foi abandonada por ser demasiado vasta, e porque Goethe tornou-se mais interessado no grande livro da natureza e, com a viagem à Itália, na arte.
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Por instigação de Herder, Goethe leu as obras de J.V. Andreae, especialmente Les Noces chimiques de Chretien Rose-Croix, que considerou um belo conto a precisar apenas de ser desempoeirado para ganhar nova vida.
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Em Andreae, a viagem ao Castelo celeste com suas provas morais era apenas o prelúdio ao verdadeiro tema: a morte e a ressurreição do jovem casal real.
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Após decapitação segundo um rito sagrado, o rei e a rainha passavam por longa purificação na Torre Olimpe, cujos andares correspondiam às etapas da ressurreição.
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Reduzidos a cinzas e lavados de toda mancha, os corpos diáfanos do casal eram por fim reanimados pela luz do sol.
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As alusões à operação alquímica abundam em Andreae, com animais como a fênix e a serpente, cores sugerindo fases sucessivas da operação, e detalhes que reaparecem em grande parte no Conte de Goethe.
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Segundo a analogia entre mundo físico e mundo moral, a transmutação dos metais significava ao mesmo tempo purificação interior.
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Para Andreae, o humor e a ironia eram complementos indispensáveis do esoterismo, mesclando ao relato alusões ao Novo Testamento, aos mistérios e mitos antigos, episódios agradáveis ou frívolos.
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Assim como não concluiu Les Mysteres, Goethe não deu sequência ao projeto de renovar Les Noces, talvez pretendendo usá-lo apenas oralmente em contos improvisados para divertir amigos.
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Inspirou-se nele para o Marchen, associando esoterismo e humor e conservando atitude semelhante diante da simbólica alquímica.
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Apesar das numerosas analogias, a diferença entre as duas obras permanece grande.
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Enquanto Andreae escreveu um conto moral centrado na purificação individual, o problema que preocupava Goethe era político, e esse sujeito lhe impôs por alguns anos uma linguagem esotérica que alterou a natureza e o alcance da mensagem.
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Na tradição hermética, o mistério era sagrado por dizer respeito a uma verdade divina que não devia ser profanada.
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No esoterismo moderno, político ou outro, o segredo concerne a uma verdade humana, respondendo a uma situação histórica determinada ou sendo função de uma estratégia.
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