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ESTRATÉGIA SECRETA DE MELUSINA

GONTHIER-LOUIS FINK

  • A revelação da natureza de Melusina era estruturalmente inevitável no gênero do conto, mas Goethe a atrasa e a coloca sob o signo do adeus e do elogio da própria raça.
    • Rémond havia transgredido a interdição, tornando obrigatória a explicação ao leitor sobre o segredo do sábado.
    • Melusina afirma ter preferido nunca precisar revelar sua natureza, apresentando-se como forçada pelas circunstâncias.
    • Em vez de um melancólico canto do cisne, Melusina faz o panegírico de sua raça.
  • Goethe inova em relação à tradição do conto de Melusina, de Jean d'Arras ao romance de colportagem, ao construir uma mitologia original a partir de fontes diversas.
    • A tradição anterior explicava a metamorfose de Melusina pela punição infligida por sua mãe, conforme o relato encontrado por Geoffroy junto ao túmulo do rei Helmas.
    • Goethe se inspira no conto licencioso, mais prolixo sobre o tema, e incorpora elementos de A Maravilhosa História de Siegfried o Cornudo, com o rei Egwald e seus mil anões escravizados por um gigante a serviço de um dragão.
    • O Livro dos Heróis, citado por Herder, fornece o papel preponderante dos anões na gênese e a origem da nobreza a partir dos gigantes.
  • Goethe constrói uma cosmogonia burlesca em que os anões são as primeiras criaturas divinas, seguidos de dragões, gigantes e cavaleiros, cada criação corrigindo os excessos da anterior.
    • Os anões foram punidos por querer dominar o mundo, e Deus criou os dragões para contê-los.
    • Os dragões, que “cuspiam fogo e cometiam mil maldades”, foram controlados pelos gigantes.
    • Os gigantes, por sua vez corrompidos, foram sucedidos pelos cavaleiros.
  • A cosmogonia parodia a teodiceia iluminista e esboça uma filosofia da história em que toda vida carrega o germe de sua degradação.
    • A gênese aparece como série de retificações, como se Deus pudesse complementar a obra original mas não subtrair nada dela.
    • O mundo físico e moral degeneram continuamente, como provam as histórias dos gigantes e dos anões.
    • As correções sucessivas revelam que há sempre, ao menos por um tempo, um remédio para o mal.
    • A missão da nova Melusina é percorrer o mundo em busca de um homem capaz de infundir vigor novo à dinastia enfraquecida.
  • O bem e o mal se interpenetram de tal forma que cada um testemunha pelo outro, e a pequenez física dos anões comprova simultaneamente a degeneração e a antiguidade da nobreza.
    • A primogenitura dos anões tem aspecto negativo, pois a raça encolhia proporcionalmente à sua antiguidade.
    • A pequena estatura da família real atesta, inversamente, a ancianidade de sua nobreza.
  • A cosmogonia serve a Goethe para lançar farpas aos defensores intransigentes da pureza da antiga nobreza, que triunfavam com a Restauração após terem visto seus pergaminhos ameaçados pela Revolução.
    • A pureza de raça é associada à degenerescência, como contraponto irônico ao orgulho genealógico.
  • Os contemporâneos podiam ler na união do homem robusto com a princesa uma alusão ao casamento de Napoleão com Maria Luísa, filha do imperador da Áustria, que havia suscitado protestos entre os tradicionalistas.
    • Goethe teria rejeitado tais leituras alegóricas como passatempos que não esgotam o simbolismo do conto.
    • O relato ecoa também as denúncias do relaxamento dos costumes e do triunfo do materialismo burguês.
    • As armas mágicas dos anões das épocas heroicas foram substituídas pela busca do luxo e do conforto, exemplificados pelo cofre e pelo salão principesco.
  • Melusina não narra com ingenuidade, mas persegue um objetivo secreto por meio de uma retórica diplomática que inverte a importância relativa dos dados históricos.
    • O herói quer saber por que devem se separar, mas Melusina responde contando a história de sua família desde a criação.
    • Cada parte do relato segue o mesmo esquema dualista: longa apologia seguida de menção breve à tara ou ao remédio.
    • Melusina transforma a confissão de experiências anteriores em elogio ao herói, apresentando-o como o único digno da missão.
    • Há um descompasso entre a missão moral proclamada e as verdadeiras intenções de Melusina, confirmado pela retórica estratégica.
  • O relato mítico lança nova luz sobre a primeira parte do conto ao revelar a estratégia de Melusina, que o Barbeiro, por ingenuidade, jamais havia percebido.
    • O Barbeiro narrava os fatos em sua sequência aparente, sem suspeitar que a aparência ocultava a verdade essencial.
    • O estilo ágil do Barbeiro tornava fácil esquecer o retrato incompleto que ele fazia de Melusina.
    • Elementos capazes de despertar a atenção do leitor passavam despercebidos porque o narrador se abstinha de qualquer comentário moral.
  • Goethe ancora a ação na realidade contemporânea ao invés de situá-la em tempo e lugar utópicos, inspirando-se na figura da “Louca em Peregrinação” da novela francesa.
    • Melusina viaja sozinha, desrespeitando as convenções sociais e morais de sua época, o que se justifica por sua missão.
    • O comportamento provocador parece intencional e parte de seu estratagema para atrair homens adequados.
    • A lógica do mito exige que Melusina volte os olhos para a parte menos nobre da população, o povo, que conserva melhor o vigor original.
  • Melusina seduz também pelo maravilhoso, introduzido progressivamente para habituar o herói a fenômenos estranhos sem provocar estranhamento imediato.
    • A chave que abria e fechava todas as portas, as portas que se abriam sozinhas e a bolsa inesgotável constituem etapas dessa iniciação gradual.
    • O herói, acostumado a trapacear com a realidade, assimila facilmente a magia por encontrar nela a mesma função de melhorar sua vida sem esforço.
  • O maravilhoso não se opõe à realidade, mas oferece meios de transfigurá-la, opondo-se contudo à moral ao favorecer os defeitos do herói.
    • A bolsa mágica, o bálsamo curativo e a proteção das consequências dos próprios atos alimentam a irresponsabilidade do herói.
    • O dinheiro o conduz às armadilhas do jogo, do vinho e das mulheres, contra as quais Melusina o havia alertado, como se o aviso fosse parte do próprio estratagema.
    • O herói acredita dominar a vida enquanto se torna cada vez mais dependente de Melusina, que brinca com ele como o gato com o rato.
  • Toda a atitude de Melusina em relação ao companheiro decorre do estratagema de criar alternância entre proximidade e inacessibilidade, à maneira das grandes cortesãs da literatura.
    • A abolição da diferença social pelo convite ao jantar e pelo gesto de sentar-se à mesa em frente ao herói provoca quase fatalmente a declaração do dia seguinte.
    • O beijo concedido como penhor cria a ilusão de posse total, e os fracassos sucessivos, em vez de separar os dois viajantes, os aproximam.
    • Melusina concede seus favores somente quando o herói já está suficientemente subjugado, contradizendo abertamente o discurso moral anterior.
    • O objetivo de Melusina não é reformar o vagabundo, mas torná-lo dependente o bastante para aceitá-la com sua verdadeira natureza, em busca não de uma aventura passageira, mas de um remédio duradouro para a decadência de sua raça.
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