CULTURA INICIÁTICA DE GOETHE
Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
Em primeiro lugar, convém perguntar-se se Goethe não se divertiu escrevendo um conto enigmático, com o único prazer de intrigar seus contemporâneos e levá-los a buscar um esoterismo com o qual ele não se preocupava. Goethe gostava de deixar acreditar que era assim. Ninguém jamais conseguiu obter dele o menor esclarecimento sobre o significado do conto. Em uma carta a Schiller, ele se contenta em dizer:
“Como os dezoito personagens envolvidos na ação são tantos enigmas, os amantes de enigmas devem encontrar nela o que procuram.” Em seguida, zombando dos esforços dos exegetas, Goethe escreve em 1797: “Mais de vinte personagens intervêm no conto. O que fazem todos eles? O conto, meu amigo.”
Esse silêncio e essa ironia não provam que o conto de Goethe não faça alusão a nada. Pelo contrário, tenho a impressão de que o genial pensador traduziu nele suas concepções mais íntimas, aquelas que ele não se importava em entregar como alimento para discussões incompetentes. Ele teria então escrito seu conto para os iniciados, para aqueles que aprenderam a decifrar os hieróglifos eternos do pensamento humano.
Não nos esqueçamos, a esse respeito, que Goethe era maçom. A Loja “Amalia”, de Weimar, tem a honra de tê-lo iniciado em 23 de junho de 1780. Um ano depois, dia exato, ele foi promovido a Companheiro e, em seguida, elevado à Maestria em 2 de março de 1782, ao mesmo tempo que seu amigo e protetor, o duque Carlos Augusto de Weimar. Em 4 de dezembro do mesmo ano, recebeu o 4º grau escocês da Estrita Observância e, em 11 de fevereiro de 1783, assinou seu compromisso como Iluminado.
Mas, ao se aproximar dos vinte anos, Goethe havia se iniciado em todos os conhecimentos misteriosos do passado. Apaixonado pela Cabala, pelo Hermetismo e, mais especialmente, pela Alquimia, mergulhou no estudo dos autores mais famosos do Renascimento. Ele queria descobrir o segredo das operações da natureza e criar uma religião baseada no resultado de suas descobertas.
Que trabalho se realizou em sua mente durante os longos meses de recolhimento que lhe foram impostos pelo deterioramento de sua saúde de 1768 a 1770? Não foi nessa época que uma imaginação tão fértil como a sua foi fecundada por germes que se desenvolveriam posteriormente?
Sabemos que o conto que nos ocupa só foi escrito em 1795. Mas desde quando ele estava em gestação na esfera mental do poeta? É possível, aliás, que essa gestação tenha sido inconsciente, subconsciente ou superconsciente, de modo que, um belo dia, Goethe só teve que deixar correr sua pena e sua imaginação para dar à luz uma obra genialmente coordenada. Ele mesmo explicou que seus mais belos poemas foram fruto de uma espécie de sonambulismo poético. Eles surgiram sob sua pena sem que ele os procurasse e, por assim dizer, sem que ele tivesse consciência disso.
Se assim foi, longe de zombar dos leitores do conto, Goethe revelou-lhes o fundo e até mesmo as profundezas secretas de seu pensamento. Acredito, portanto, que não devemos hesitar em fazer a autópsia da “Serpente Verde”. É um animal que se decompõe em pedras preciosas. Tentemos recolher o maior número possível delas.
