CONTO – VELHA E CARLIN
Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
Tendo a palavra fatídica trazida do exterior ecoado no santuário interno da Montanha, o Velho da Lâmpada é misteriosamente impelido para fora, no sentido do Ocidente.
Reencontramo-lo imediatamente em sua casa, construída contra a encosta da Montanha iniciática, a qual um corredor, doravante preenchido de ouro, conecta à cripta central onde os Reis aguardam.
Essa casa não é mais uma franzina cabana de tábuas como a morada do Barqueiro. O alojamento do Velho da Lâmpada compõe-se de pedras sólidas extraídas da Montanha, que, por sua vez, está em contraste com o Rio. Este representa aquilo que flui adaptando-se às circunstâncias, variando incessantemente, como as modas e as opiniões, segundo o capricho da atualidade; esse domínio, como se viu, pertence ao Barqueiro.
A Montanha simboliza o oposto, portanto, o que é fixo e invariável. Sua massa rochosa recobre o Santuário do esoterismo mais profundo, onde os princípios imutáveis (estátuas dos Reis) mantêm-se fixos em uma imobilidade hierática. Tenebroso por si mesmo, esse centro isola-se da luz exterior por toda a altura e espessura da Montanha. Mas esse amontoado de minerais é livremente atravessado pelo Velho da Lâmpada, ou seja, pelo espírito capaz de iluminar, em outros termos, de discernir, de compreender a si mesmo e de fazer compreender a outrem. Trata-se, de fato, do Mestre, cuja habitação apoia-se no exterior da Montanha, de modo que está, sob esse ponto de vista, em oposição ao Santuário interior. Este corresponde às profundezas que o pensamento se esforça por atingir ao recolher-se sobre si mesmo, descendo até o fundo do insondável poço onde a verdade se esconde. A casa do Velho seria apenas a borda desse poço ou, se preferir, a doutrina iniciática, formulada em sistema (construção) tornado acessível à inteligência humana.
A morada do Velho é, portanto, um edifício intelectual, tal como a cabana do Barqueiro. Mas esta última é apenas um andaime de conhecimentos práticos, baseados em uma observação superficial, em um empirismo na maioria das vezes grosseiro, ao passo que a casa é solidamente erguida com o auxílio de blocos talhados em esquadria. Há ali uma coordenação metódica de verdades comprovadas, ou seja, uma filosofia duradoura, à prova dos séculos e de todas as variações da fantasia humana.
O Sábio por excelência compartilha essa morada com uma esposa que se mostra acessível a todas as fraquezas femininas. Ele a encontra em lágrimas porque, durante a ausência do marido, os Fogos-Fátuos abusaram da confiança da excelente mulher para lamber as paredes do alojamento e despojá-las de todo o seu ouro superficial.
Cometida essa travessura, as galantes Chamas, sapateando de gratidão, agitaram-se freneticamente. Assim como os frutos caem de uma árvore que se sacode, moedas de um ouro luminoso rolaram imediatamente pelo solo. Infelizmente, o cão da casa lançou-se sobre o metal, cuja absorção o matou, daí a dor da compassiva Velha, que não percebera imediatamente o malfeito dos Fogos-Fátuos e, lisonjeada por eles, aceitara quitar a dívida destes perante o Barqueiro.
Recusando o ouro, este exigia três couves, três alcachofras e três cebolas. Esses produtos da terra possuem valor nutritivo e representam, verossimilmente, um alimento espiritual que responde às necessidades da multidão arrastada pelo Rio. Se compararmos os três vegetais entre si, notamos que a cebola se desenvolve na terra, mas a pouquíssima profundidade, enquanto a alcachofra é um fruto nitidamente aéreo e a couve um florescimento vegetal que mal se eleva acima da superfície do solo. A couve parece, desde então, aludir às noções utilitárias mais banais; a alcachofra, que não poderia crescer no domínio de Lília, poderia figurar as teorias empíricas da ciência aplicada, provisória e superficial. A cebola, enfim, corresponderia às sentenças pouco aprofundadas da sabedoria corrente.
A dona de casa do Sábio possui todos esses vegetais em sua horta, pois personifica a inteligência prática, aquela que não busca remontar aos princípios abstratos e se contenta em coordenar as observações que pode realizar no domínio do concreto.
A visita dos Fogos-Fátuos explica-se pela penúria destes: eles sentiram prazer em despojar-se de todo o seu ouro em favor da Serpente. Tendo exteriorizado tudo o que possuíam, tornam-se ávidos por novos conhecimentos. A casa do Sábio permite-lhes fartar-se de verdades de uma ordem mais elevada; por isso, consideram que o ouro filosófico que ali lambem possui sabor muito melhor que o do ouro comum.
Esse ouro superior é apenas mais fatalmente mortal para o pobre Pug, criatura boa e dedicada que, ao contrário da Serpente, não assimila o metal luminoso. É que o fiel companheiro da Velha, animal recolhido em si mesmo, não é iniciável como a Serpente, criatura sutil, alongada, flexível, insinuante. A fidelidade do cão referir-se-ia, portanto, à credulidade, à fé ingênua que admite sem compreender e perpetua os usos piedosos, à rotina conservadora das formas cuja significação se perdeu?
Após recobrir cuidadosamente com cinzas as brasas ainda ardentes do fogão e fazer desaparecer as moedas de ouro luminoso que o Pug não engolira, o Velho expõe o interior de sua morada apenas à claridade de sua Lâmpada. Rapidamente, as paredes recobrem-se então de um novo ouro, não menos puro que o anterior. Que importa, de fato, que as verdades iniciáticas caiam no domínio público, propagadas pelos belos espíritos ou pelos filósofos vulgarizadores? O mistério é inesgotável; o que o espírito dele discerne torna-se Ouro filosófico.
Mas como o Pug, mantendo suas aparências exteriores, petrifica-se em sua substância? Se, realmente, em seu estado vivo, sua função era cumprir os ritos sagrados sem compreendê-los, portanto instintivamente, por piedade supersticiosa, concebe-se que ele não tenha podido suportar a luz interior, absorvida com o ouro dos Fogos-Fátuos. Esse racionalismo, que pretende dar conta do porquê das coisas, mata a espontaneidade. A forma exterior cairia, doravante, em decomposição, não fosse o Velho da Lâmpada, que lhe penetra o sentido e, por esse fato, a fixa, conferindo-lhe o valor de um mineral precioso e translúcido (ônix).
