CONTO – REIS E VELHO DA LÂMPADA
Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
Quatro estátuas reais são os ídolos do santuário subterrâneo. A primeira, inteiramente composta do ouro mais puro, representa a Sabedoria, baseada nas verdades eternas, imutáveis e inalteráveis como o metal precioso. A segunda corresponde às Aparências, às formas exteriores variáveis, que se impõem por seu charme e beleza. Seu metal é a prata. A terceira estátua, sólida em sua massividade de bronze, representa a Força que executa. Reencontra-se aqui, portanto, o ternário maçônico Sabedoria, Força e Beleza, potências destinadas a reinar sobre a terra quando a quarta estátua, a do Rei compósito, tiver desmoronado.
O bronze, a prata e o ouro fornecem a substância desta última estátua, que simboliza o oportunismo, regime equívoco, destinado a ruir sob a ação dissolvente da crítica hábil em subtrair-lhe os elementos de sustentação.
Os Reis propõem perguntas análogas às do ritual maçônico:
— De onde vens?
— Das fendas onde reside o ouro (da Loja de São João, onde recebi a luz).
— O que há de mais esplêndido que o ouro?
— A luz (ela é viva em seu resplendor, ao passo que o ouro é morto em sua fixidez).
— O que há de mais reconfortante que a luz?
— A palavra (o Verbo atuante não se contenta em esclarecer o espírito; ele penetra a alma e a conforta).
A Serpente não se sente embaraçada para responder, pois possui agora um grau suficiente de instrução iniciática. Ela não está, contudo, instruída em todos os segredos. O verdadeiro Mestre do mistério é um ancião franzino, vestido como camponês e portador de uma pequena lâmpada cuja suave luz projeta uma claridade envolvente que não deixa lugar a nenhuma sombra. Esse personagem, que passa através da rocha sem encontrar resistência e desliza sobre a água sem afundar, parece pouco materializado. Ele faz recordar o Eremita do Tarô, ancião prudente que esconde sua lanterna sob o manto de filósofo para mostrar a luz apenas quando conveniente.
Quando, bruscamente, o Homem da Lâmpada sai da parede rochosa da cripta, o Rei de ouro pergunta-lhe:
— Por que vens, se já temos luz?
— Sabeis que me é proibido iluminar as trevas.
O Velho personifica o Espírito iniciático superior aos indivíduos. Pode-se, em certa medida, assimilá-lo a Hiram, o Mestre imortal que ressuscita no adepto suficientemente esclarecido. A Serpente, ou seja, a associação dos Iniciados, apesar de todo o ouro que pôde assimilar, ilumina apenas a curtíssima distância. Sua fosforescência permite-lhe reconhecer os objetos mais próximos, mas é necessário que outra luz intervenha para que o conjunto do Santuário seja iluminado e nada permaneça na sombra. Trata-se, desta vez, de uma luz integral, da Verdadeira Luz, como dizem os Maçons.
Essa luz não pode manifestar-se no seio da obscuridade completa; porém, um princípio de claridade iniciática apela ao Velho da Lâmpada, que conclui a iniciação conferindo o Mestrado.
Espírito penetrante, ele possui o dom de prever o futuro. Sabe que o reinado do Rei de Prata não está prestes a terminar, pois os homens correm o risco de jamais serem governados pela razão pura (ouro). As aparências e suas ilusões continuarão a dominá-los, verossimilmente, para sempre.
Quanto ao Rei de Bronze (Vontade que executa), sua hora está próxima. Uma vez erguido, deverá aliar-se aos seus irmãos mais velhos, o Rei de Ouro (Sabedoria que aprofunda) e o Rei de Prata (Arte que seduz as almas). Assim que estiver de pé, porá fim ao reinado do Rei compósito (compromisso, incoerência oportunista).
O Homem da Lâmpada conhece três segredos. É provável que se trate das respostas ao triplo enigma da Esfinge: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? A primeira questão interessa mais particularmente ao Rei de Ouro, que remonta aos princípios, às verdades necessárias de onde deriva a Sabedoria, ou seja, o conhecimento racional. Para o Rei de Prata, que se detém na superfície das coisas e no efeito que produzem, o segredo mais importante refere-se aos fenômenos constatáveis. Ora, os progressos da ciência revelam-nos o mistério do que existe e fazem-nos compreender o que somos. O Rei de Bronze lançará o raio de sua vontade ou brandirá sua clava (desferirá um golpe de malhete) quando estiver seguro do objetivo a perseguir, quando souber para onde vamos.
O Rei compósito desinteressa-se dessas questões, pois carece de razão de ser e subsiste apenas em virtude de um ilogismo necessariamente frágil e transitório.
Os Reis são estátuas imóveis, erigidas em nichos. Esperam que o Velho lhes comunique seu triplo segredo; mas o iniciado deve calar-se enquanto a Palavra perdida não for reencontrada.
Ora, a Serpente detém o quarto segredo; ela o sussurra ao ouvido do Velho, que clama então com voz formidável: “Os tempos se cumpriram!”
Que palavra mágica teria a Serpente surpreendido? O ouro proveniente dos Fogos-Fátuos pôde sugerir-lhe um vocábulo sintético, indício de um certo estado de espírito atingido pela mentalidade humana. Teria o homem, em número suficiente, tomado consciência de sua solidariedade? A palavra que anuncia a vinda da hora da renovação seria então Humanidade. Teria a noção da Grande Obra construtiva humanitária tornado-se luminosa no espírito dos pensadores? A palavra sagrada poderia então equivaler a Trabalho. Sobre este ponto, o campo permanece aberto a conjecturas, pois apenas o Velho recolheu o segredo da Serpente.
Segredo formidável, palavra de ordem de uma nova criação, de uma renovação integral do mundo. Seu enunciado, em voz baixa, abala o Santuário, de onde se retiram, em sentidos opostos, o Velho e a Serpente, cada qual atravessando à sua maneira a massa rochosa da montanha. O Velho submerge em direção ao Ocidente e a Serpente em direção ao Oriente. A Serpente retorna, assim, à fonte da luz emancipadora que dissipa as trevas da noite. O que ela assimilou da Tradição permitir-lhe-á lutar contra os preconceitos e combater os erros que se opõem à realização do ideal agora formulado. Quanto ao Mestre espiritual, ele regressa ao domínio dos espíritos, esse misterioso Ocidente onde Osíris desaparece. Sua passagem através da montanha deixa ali um corredor preenchido de ouro, pela claridade de sua lâmpada que transmuta as pedras em ouro, a madeira em prata e os animais mortos em minerais preciosos, com a condição, todavia, de não se combinar com nenhuma outra luz. O resplendor da Lâmpada mágica perde, de fato, sua virtude transmutatória assim que se combina com outras radiações, pois limita-se então a iluminar muito agradavelmente, ao mesmo tempo em que penetra os seres vivos com ondas reconfortantes (fluido vivificante).
Trata-se aqui do Verbo, considerado em sua irradiação vivificante, ou seja, do Grande Mercúrio dos Sábios, que, penetrando em toda parte, ilumina as inteligências receptivas e estimula todo ardor generoso. Esse agente, desde que nenhuma outra influência se associe à sua, transforma em ouro espiritual toda pedra, isto é, toda substância apta a concorrer para a construção humanitária, no sentido em que a entendem os Maçons. Deponde vossos metais, símbolos do que perverte e torna cúpido; eles seriam aniquilados pela luz iniciática; isolai-vos do mundo profano e de sua influência corruptora, a fim de que, iluminando-vos Hiram, a Grande Obra se realize em vós!
Produto da vida vegetal, a madeira morta transmuta-se em prata sob a ação do Grande Agente mágico universal. A forma efêmera que sobrevive encontra-se então fixada em beleza: a Arte interveio para estabilizar e conferir um valor duradouro às aparências, às ficções e às ilusões estéticas.
Mas como um animal morto pode petrificar-se em um objeto precioso? O cão Pug no-lo ensinará.
