CONTO – O PRÍNCIPE E A BELA LÍLIA
Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
Após uma longa espera, a Velha, ansiosa por quitar a dívida dos Fogos-Fátuos, vê finalmente aproximar-se a barca fatídica. Um estranho passageiro, jovem de porte gracioso, intriga-a então ao grau supremo. Revestido de uma couraça brilhante, que em nada impede a flexibilidade de seus movimentos, ele traja um manto de púrpura. Apenas uma cabeleira castanha, de cachos leves, protege seu rosto dos ardores do sol; com os pés descalços, pisa a areia ardente sem notar, pois as dores físicas parecem apagar-se diante do peso das penas morais. Privado de coroa, cetro e espada, este Príncipe perdeu todo o seu poder de ação. Espécie de fantasma, vive agora apenas para amar aquela cujo olhar lhe roubou toda a energia atuante.
Ao buscar um personagem análogo no Tarô, encontram-se sucessivamente o Maglabelo (I), o Namorado (VI), o Mestre do Carro (VII) e o Pendurado (XII). Sob esses múltiplos aspectos, o princípio consciente, destinado a governar os atos e a reinar sobre o corpo, é simbolizado sob diferentes pontos de vista. Assim, o Maglabelo refere-se à causa pensante inicial, geradora das ideias, imagens fáticas e representações puramente mentais com as quais o intelecto joga perpetuamente. Como Namorado, é o árbitro moral que, solicitado em sentidos opostos pelas atrações que sofre, fixa sua escolha para estabelecer os desejos conforme os quais seus atos serão determinados. Quanto ao Mestre do Carro, protegido por uma couraça tal qual o noivo de Lília, representa o princípio de autonomia, coordenador das forças que se associam na individualidade. Contudo, para dirigir o carro do organismo, o espírito anímico deve portar o diadema da inteligência e deter o cetro da vontade.
Ora, o Príncipe decaído não possui mais o que é necessário para governar: mal sendo capaz de dirigir a si mesmo, caminha penosamente a pé, sem calçados, perdido em um sonho que é impotente para realizar. Seu estado é, em realidade, o do Pendurado, que, de braços atados, balança entre o céu e a terra, preso por um pé ao patíbulo da idealidade. A Morte iniciática (XIII) é a única que pode pôr fim à impotência deste supliciado; é necessário, portanto, que o Príncipe consinta em morrer. O despeito de ver Lília prodigalizar carícias ao cão Pug de ônix que ela acaba de reanimar pelo contato provoca a catástrofe. A Beleza perfeita não é compatível com a vida orgânica; realiza-se apenas idealmente, no abstrato, domínio de Lília. Esta mata os vivos, obrigados a afastar-se da perfeição, pois só podem viver adaptando-se às contingências imperfeitas, maculadas pela fealdade. No entanto, ao idealizar as formas mortas, Lília as vivifica comunicando-lhes o ritmo de sua beleza mágica. Em seu jardim, tudo é belo, mas nada é fecundo; as árvores possuem folhagens esplêndidas, mas não produzem o menor fruto. O Ideal é o irreal que a Arte, contudo, deve realizar. É necessário que o Artista, o Príncipe, despose Lília e, já que esta confere a morte, ele não deve temer morrer, lançando-se resolutamente nos braços de sua bem-amada.
Saber morrer: eis, de fato, o segredo supremo de todas as iniciações. Para reerguer-se da decadência e reconquistar todas as prerrogativas de ser divino, o homem deve morrer para todo egoísmo, mesmo o legítimo. Renunciando a si mesmo, ao seu eu e a tudo o que a ele se vincula, o indivíduo deve desvanecer-se fundindo-se na universalidade que, caso retorne à vida, doravante se refratará nele.
A morte do Príncipe mergulha primeiramente Lília em uma consternação muda: tudo parece irremediavelmente perdido para ela, que não concebe remédio para a situação. Petrificada de dor, é incapaz sequer de chorar ou lamentar-se. A intervenção das três graciosas jovens que servem à Beleza suprema põe fim, contudo, a esse estado inicial de estupor. Uma delas traz o assento dobrável de marfim, trono portátil que permite a Lília sentar-se, portanto descansar e recolher-se. Ora, a noiva do Príncipe, que personifica o Espírito anímico, não poderia ser outra senão a alma espiritual, à qual se refere a Imperatriz, Arcano III do Tarô. Essa essência luminosa, fonte de nossas inspirações mais elevadas, deve casar-se com o fogo vital interior (Enxofre dos Alquimistas) representado pelo Imperador (IV), no qual o Príncipe ressuscitará.
Tendo-se sentado — portanto imobilizada, apaziguada, acalmada e reconduzida, por assim dizer, a si mesma —, Lília-Psykhê recebe um véu cor de fogo, adorno que realça ainda mais seu charme irresistível. Uma ambiência ígnea estimula doravante seu pensamento e porá seus dedos em movimento espontâneo assim que a harpa lhe for entregue. A primeira das três Graças retorna então com o espelho, onde Lília se contemplará em sua dolorosa, mas por isso mesmo mais pungente e adorável beleza. Exaltando-se com a própria visão, a alma sofredora encontra os mais sublimes acentos da arte. Estando o intelecto racional morto na pessoa do Príncipe, a sentimentalidade pura flui em uma música impressionante que transmite aos ouvintes a emoção experimentada. Pelo fato dessa transmissão, ocorre um relaxamento; a exaltação de Lília cede e suas lágrimas correm; há um retorno a si mesma e à realidade.
Infelizmente, o dia declina e, assim que o sol desaparecer, o cadáver do Príncipe não estará mais preservado da putrefação se o Homem da Lâmpada não intervier a tempo. Apollon opõe-se, de fato, a toda corrupção. Para impedir que esta atinja o corpo de Hektor, envia sua Serpente para pairar sobre o cadáver que Akhilleus arrasta ignominiosamente sob os muros de Troia. A Serpente Verde protege de maneira análoga o Príncipe inanimado, ao redor do qual se apressou em formar o círculo; mas essa proteção só é eficaz enquanto o sol permanecer acima do horizonte. Se a noite sobrevier antes que a luz da Lâmpada mágica substitua a do dia, a obra da decomposição começará, sem que doravante haja remédio.
O Sol é aqui considerado como o vivificador universal. Tudo o que é vivo está em relação com ele; ele preside ao crescimento dos seres e à sua construção orgânica. Sua influência construtiva opõe-se, portanto, à deslocação dos compostos. Sua luz quente é sintética: une e mantém a harmonia.
A Serpente solar nada mais é do que o fluido vital impregnado de luz construtiva, portanto de forças que se opõem à putrefação. Ao absorver o ouro dos Fogos-Fátuos, a Serpente Verde (cor de Vênus, deusa da geração e da exuberância vital) tornou-se luminosa. Colocou-se, assim, a serviço de Apollon e não hesitará em sacrificar-se, na hora devida, pela revivificação do Príncipe.
