User Tools

Site Tools


goethe:conto-da-serpente-verde:wirth:conto-gigante-sombra

CONTO – GIGANTE E SUA SOMBRA

Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.

Não podendo restituir a vida ao Pug, o Velho encarrega sua esposa de levar o cão petrificado a Lília, que possui o poder de reanimá-lo por meio de seu toque. Nessa ocasião, o Barqueiro deve receber os vegetais que lhe são devidos. A Velha transporta os diversos objetos em um cesto colocado sobre sua cabeça. Esse balaio é um receptáculo singular: torna-se leve com tudo o que contém de morto, como o Pug de ônix, mas sobrecarrega-se excessivamente sob o menor peso de um objeto vivo. Com o tempo, as poucas hortaliças recém-colhidas esmagam a mensageira. Ela não avançava menos por isso, superando o cansaço, quando avistou o Gigante, que acabara de banhar-se no Rio e cujo sol nascente projetava até ela a sombra temível. Sem que ela pudesse se opor, essa sombra irresistível tomou do cesto uma couve, uma alcachofra e uma cebola, que o Gigante devorou gargalhando tolamente. A Velha não pôde, assim, entregar a conta ao Barqueiro, que a obrigou a assumir perante o Rio o compromisso de quitar a dívida dos Fogos-Fátuos em vinte e quatro horas.

O cesto que a Velha carrega sobre a cabeça, por vezes sem que haja contato, figura essa substância psíquica exteriorizável com o auxílio da qual a Magia opera seus prodígios. Trata-se de uma emanação fluídica conhecida pelos magnetizadores e ocultistas, condensação mais ou menos densa de luz astral ou de substância psíquica. Essa luz anímica obscurece-se quando concentrada ou coagulada, pois aproxima-se então da matéria. Quanto mais, ao contrário, ela é distendida — portanto, etérea ou espiritualizada —, mais se torna luminosa. Assim se explica o aumento do poder luminoso do cesto à medida que é esticado pelo Velho e pela Velha, os quais, como veremos adiante, o alongarão para conseguir nele depositar o cadáver do Príncipe.

O que está morto não apenas nada pesa nesse cesto, mas ainda o eleva ligeiramente acima de qualquer ponto de apoio. Isso só pode ocorrer em razão da força ascensional inerente às formas que não estão mais vinculadas à vida transitória e grosseira. Transmutado em um maravilhoso objeto de arte, o Pug de ônix encontra-se astralizado, e a Velha o transporta em sua esfera imaginativa (o cesto) sem a menor fadiga. Os vegetais frescos, ao contrário, são atraídos para o solo pela vida que possuem em si, vida inferior que tem suas raízes no fogo central, ardor subterrâneo ou infernal.

A sombra do Gigante só é poderosa pela manhã e à tarde; ao meio-dia, é curta demais para exercer uma ação eficaz.

Trata-se, portanto, de uma força oposta à plena luz da razão, ao positivismo que ilumina cruamente as coisas e as mostra tais como são. Mas que negativismo é esse, capaz de produzir efeitos, de pregar peças desagradáveis em uns e de prestar serviços, se necessário, a outros?

A sombra refere-se àquilo que a razão não ilumina, portanto ao que permanece inexplicado. Esse mistério torna-se atuante nas horas em que a inteligência está inquieta, seja quando desperta timorata (manhã), seja quando sucumbe à lassidão (tarde). A ignorância exerce então seu império sob a forma de ilusões, quimeras e superstições de mil espécies. Não se deve ver um efeito da sombra do Gigante no poder de temores injustificados, propagados entre emotivos fáceis de aterrorizar? Certas associações beneficiam-se de um formidável prestígio de terror, sobretudo em razão da credulidade ignorante de seus adversários. Jesuítas e Maçons não estariam nesse caso? Nada há de surpreendente no fato de a Velha ser vítima de semelhantes ficções, visto que ela personifica, sobretudo, a impressionabilidade imaginativa.

Mas a sombra do Gigante também pode ajudar a atravessar o Rio. Ao embalar-se em ilusões, consegue-se, de fato, ser transportado acima da corrente da vida prática para alcançar a margem do Ideal, domínio da bela Lília. É digno de nota que os personagens do conto de Goethe não recorram a esse meio conhecido, mas sem dúvida equívoco, de transpor a onda movente do escoamento vulgar das coisas.

O Gigante banha-se no Rio e jamais abandona suas margens. Ele está, aliás, confinado à margem do passado, como se fosse seu guardião. A rotina, os preconceitos, os impulsos irracionais do atavismo exercem, em realidade, a ação irresistível de sua sombra, enquanto ele próprio corresponde à multidão, massa gigante paralisada intelectualmente e, por si mesma, de uma impotência absoluta para elevar idealmente a menor coisa.

Não é tudo. Não exercemos nós um poder oculto inconsciente? Estamos inativos quando dormimos? Após esgotar todos os nossos meios de ação manifesta, não seríamos capazes de agir no mistério? Em sua ignorância, o instintivo pode mobilizar energias temíveis. Ele torna-se taumaturgo, provocando desordens enquanto entregue a si mesmo, mas torna-se apto a prestar serviço a quem saiba aproveitar seus talentos anormais.

Análogo ao do Tarô, esse Louco obedece aos seus impulsos e aos hábitos que contraiu. Profano, rebelde à iniciação, termina petrificado diante do Templo, como um gnomon cuja sombra inofensiva indica as horas do dia. Deve-se entender por isso que os poderes ocultos serão domesticados quando deixarem de ser misteriosos graças ao triunfo da verdadeira luz humana?

O Gigante não é mau, pois a maldade não ganha corpo em nenhum personagem do Märchen. O mal não é intencional; resulta apenas de erros cometidos por falta de discernimento.

Saibamos conquistar a Luz. Quando ela iluminar todos os homens, eles se corrigirão de seus desvios, tornar-se-ão bons e merecerão ser felizes, pois não são amaldiçoados e só caem para se reerguerem gloriosamente. Mas a vida individual é curta, enquanto a Arte redentora é longa e difícil.

goethe/conto-da-serpente-verde/wirth/conto-gigante-sombra.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki