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Euclides da Cunha
José Guilherme Merquior
Os Sertões, de Euclides da Cunha, ocupa lugar central na literatura brasileira como obra que combina ensaio científico, relato literário e denúncia política.
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Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909) nasceu em Cantagalo, na província fluminense, e ficou órfão cedo.
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Aluno da Escola Politécnica e depois da Escola Militar, foi excluído do Exército um ano antes da Proclamação da República por ato de provocação, sendo então ardoroso republicano.
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Em 1897, publicou no jornal O Estado de S. Paulo, de Júlio Mesquita, dois artigos intitulados “A Nossa Vendeia” — alusão aos levantes rurais contrarrevolucionários na França de 1793 — sobre a revolta de Canudos.
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Seguiu em agosto de 1897 como correspondente ao sertão baiano para acompanhar o fim da insurreição de Antônio Conselheiro, debelada pelas tropas federais.
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Redigiu Os Sertões em São José do Rio Pardo, onde trabalhava como engenheiro do governo, publicando a obra em 1902.
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O livro abriu-lhe as portas da Academia e do Instituto Histórico, e de 1904 a 1908 chefiou comissão oficial na Amazônia, colaborou com Rio Branco no Itamarati e lançou Peru versus Bolívia e Contrastes e Confrontos (ambas de 1907).
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Segundo Gilberto Freyre, Contrastes e Confrontos marca o primeiro encontro entre o alto ensaísmo brasileiro e o socialismo democrático.
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Após conquistar por concurso a cátedra de Lógica do Colégio Pedro II, foi morto em legítima defesa pelo homem com quem sua mulher passou a viver; À Margem da História (1909) saiu postumamente.
Os Sertões constituem antes de tudo uma retratação intelectual e afetiva do autor diante do sertão e do determinismo científico que professava.
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O tribuno republicano que condenara dogmaticamente o “obscurantismo” dos jagunços de Antônio Conselheiro reconheceu, em contato direto com o hinterland, o heroísmo anônimo das populações sertanejas.
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Com Euclides se completa a revelação do sertão como Brasil oculto e verdadeiro, valor que Capistrano tanto encarecia.
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O determinismo geográfico e racial e a convicção da inferioridade das “raças fracas” cederam à descoberta de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”.
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Essas contradições, embora turvas para a coerência científica, depõem em favor da honestidade intelectual de Euclides e enriquecem a significação sociológica e estética da saga sertaneja.
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O alcance épico da pintura da rebelião cabocla deriva não das teses racistas tomadas de empréstimo ao darwinismo social, mas do sopro de transfiguração artística com que o prosador forjou protagonistas e massas do drama de Canudos.
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De José Veríssimo a Afrânio Coutinho, a crítica apontou o “romance” que pulsa sob Os Sertões, marcado pela categoria ímpar da língua literária.
A prosa de Euclides, aparentada ao parnasianismo pela linguagem rutilante e pelo culto do vocábulo raro, supera largamente o decorativismo mecânico desse movimento por sua força dramática e impressionista.
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Coelho Neto, príncipe dos prosadores parnasianos, saudou calorosamente a “ornamentação verbal” de Os Sertões, mas a semelhança entre os dois estilos é superficial.
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A frase contundente, angulosa e convulsa de Euclides se singulariza pela elasticidade da sintaxe assindética, pelos crescendos dramáticos e pelos ritmos espasmódicos.
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O famoso trecho “Estouro da Boiada” exemplifica o conjunto de valores plásticos e rítmicos da prosa euclidiana: “Origina-o o incidente mais trivial — o súbito voo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo.”
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No mesmo trecho: “É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada por diante, revoltos, misturando-se embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos.”
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A posição expressiva do sujeito “o vaqueiro” ao fim da última frase do trecho reproduz o efeito de uma câmera que só focaliza em close após um traveling arrebatador.
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Para Joaquim Nabuco, o estilo euclidiano dava a impressão de um “imenso cipoal” — impressão que só desconcerta quando comparada à eloquência uniforme e meridiana do próprio Nabuco.
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Araripe Júnior já registrara o contraste entre o estilo “estilhaçado” de Os Sertões e o efeito hierático, inteiriço e compassado das cláusulas oratórias de Rui Barbosa.
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A prosa euclidiana é um caso de escrita artística de alta voltagem, idioma impressionista carregado de explosividade por estar embebido num páthos apocalíptico.
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A solenidade de Euclides difere substancialmente do majestoso parnasiano de Rui Barbosa e da placidez dos parágrafos de Nabuco — trata-se de monumentalidade dramática, escultural à maneira de Rodin.
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O oxímoro “Hércules-Quasímodo”, com que Euclides apresenta a figura forte-débil e atlética-aleijada do sertanejo, é o mais típico exemplo do seu estilo hiperbólico baseado em enérgicas antíteses.
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Outros recursos característicos são a adjetivação insólita — frequentemente anteposta ao substantivo à moda anglo-germânica — e a dinamização do substantivo pelo uso constante do infinitivo substantivado.
Os Sertões constituem o clássico do ensaio de ciências humanas no Brasil e antecipam com argúcia temas atualíssimos da pesquisa antropológica.
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A obra surge numa época em que os estudos sociológicos conservavam fortes afinidades com a formação humanística e seus autores ainda eram autodidatas pioneiros.
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Um dos temas antecipados é a interpretação dos surtos milenaristas — a escatologia dos jagunços e a mística do advento do Reino de Deus entre os seguidores do messias Antônio Conselheiro.
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Euclides sentiu com lucidez o problema da definição sociológica de certas formas de anormalidade mental, reconhecendo o entrosamento dos aspectos irracionais da personalidade do profeta de Canudos com as aspirações e carências de uma comunidade rústica sufocada pelos flagelos naturais e pela indiferença das camadas dominantes.
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Ao intuir a natureza psicossocial da noção de loucura, Euclides definiu-a como “zona mental onde se acotovelam gênios e degenerados”.
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De Antônio Conselheiro, cujo delírio místico traduzia o desespero de uma sociedade, afirmou genialmente que foi “para a História como poderia ter ido para o hospício”.
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O positivista Euclides suspeitava da existência de uma sociologia do psiquismo, do mesmo modo que o darwinista social constatara a força titânica das raças consideradas “inferiores”.
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Os Sertões sobrevivem tanto pela energia poética do estilo quanto pelos iluminadores vislumbres sociológicos que a obra contém.
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