ATENÇÃO E POESIA
Cristina Campo. Gli imperdonabili.
A poesia não ajuda a viver senão em virtude da pura beleza, ou seja, da natureza — e os chineses ajudam a viver porque seu universo íntimo se exprime no universo visível: a noite obscura no peso da neve sobre um bambu, no extremo comprimento de uma cauda de faisão.
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“O próprio Tao resplandece ali, 'na sebe do jardim.'”
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A jovem e desprovida poesia de P. também ajuda a viver: “Meu coração se cobrirá de pele de pêssego / para ter a cor do teu rosto.”
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Aos dezesseis anos age-se inconscientemente como os chineses — “devorados pelo pudor da inocência, tece-se a própria eternidade numa chuva, num cair de caquis dourados.”
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“Mais tarde se deveria poder fazê-lo com conhecimento de causa. Pudor, tão difícil, da perfeita consciência.”
Proust é o longo poema do mana primitivo, da energia vital elevada a poder mágico — poema de marés: pessoas, lugares, palavras, melodias, primeiro cheios e depois esvaziados desse poder.
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“Sob a onda resplandecente e terrível do mana as rochas falam, a areia se faz ouro, tudo se move, se responde, se transmuta, envolve o homem e o domina, com direito de vida ou de morte.”
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“Na vazante, tudo retorna fóssil, desértico, se imobiliza numa brancura de esqueleto.”
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“A maravilhosa cerimônia de Proust é a evocação e a ressurreição do mana obtida pelo feiticeiro com a ajuda de objetos sagrados: os espinheiros-brancos, a bille d'agathe, a petite phrase de Vinteuil — assim como nos rituais polinésios o fragmento de osso, a impressão do pé humano na argila.”
Todo o indizível, todas as veias mais inapreensíveis e mais sutis da análise de Proust nascem da síntese e retornam à síntese — seu vasto círculo vai do objeto ao objeto, como o gigante saído da ampola que deve voltar à ampola se quiser servir ao homem.
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“Não por acaso o inteiro e imenso livro nasce de um gole de chá, de um Letes em xícara.”
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É essa enorme e incessante operação no interior da figura que torna possível uma leitura de Proust em todos os planos da existência, nenhum excluído — “é isso que o associa à constelação dos poetas mais do que à dos narradores: mediador e vidente mais do que testemunha.”
A obra de Proust é sobretudo uma empresa de altíssima nobreza, uma gesta de cavaleiro andante em defesa de um culto prestes a desaparecer, de um esplêndido e vazio sepulcro.
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Isso não diz respeito somente ao seu mundo ao crepúsculo — é sobretudo sensível na suprema beleza da linguagem, na perfeição de uma língua onde “os mais puros modos aristocráticos e populares estão entrelaçados sem trégua com a paixão de uma extrema despedida.”
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“Língua salva no limite e que se faz instrumento de salvação para as próprias coisas que significa, sejam as menos nobres, situando-as, com sua força e sua pureza, num plano onde nada pode mais contaminá-las.”
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“Todos os belos nomes extintos e tanto mais ardentemente reacesos… de modo que diante da porta foi como uma recitação gritada da história da França.”
Outrora o poeta estava lá para nomear as coisas — como pela primeira vez, como no dia da Criação; hoje parece estar lá para despedir-se delas, para lembrá-las aos homens, ternamente, dolorosamente, antes que sejam extintas.
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“Para escrever seus nomes na água: talvez na própria onda levantada que logo as terá arrastado.”
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“Um parque sombrio, o espelho verde de um lago percorrido por belos gansos dourados, no coração da cidade, da tormenta de concreto armado — como não pensar, ao contemplá-lo: o último lago, o último parque sombrio?”
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“Quem hoje não é consciente disso não é poeta de hoje.”
Na poesia, como na relação entre as pessoas, tudo morre no instante em que aflorar a técnica — e a verdadeira educação da mente nunca teve outro fim, desde que o mundo existe, senão a morte da técnica.
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“Desse artesanato do viver cada homem é arrancado nos limiares de sua inocência, assim como dos flores matizadas ou da corça perseguida na caça os antigos príncipes eram arrancados para a casa paterna.”
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É uma viagem necessária que deverá conduzir bem além da rosa ou do cervo, “até o coração das cavernas e dos terrores, onde o saber viver se dissolverá como a cera no contato, real e metafórico, com os quatro elementos.”
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“Pode-se então tornar-se natural além da técnica, como crianças se foi aquém dela. Mas há tempo o homem parece murado em sua técnica como um inseto no âmbar.”
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“Em torno ao seu jardim se ergue um alto muro dentro do qual nada de novo pode crescer — 'se o voo de um pássaro não lá deixar cair uma semente.'”
As crianças têm órgãos misteriosos de presságio e de correspondência — e a figura poética preexiste à ideia a ser vertida nela.
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“A seis anos eu lia o dia inteiro as fábulas, mas por que retornava sempre, fascinada, a certas imagens que um dia teria reconhecido, quase emblemas recorrentes para mim, quase divisas?”
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“O diálogo, sob a escura porta da cidade, entre a pastora de gansos e a cabeça decepada do cavalo: 'Adeus, Falada que penduras lá em cima! Adeus, senhora que passas lá em baixo…' — história que reenconto em cada esquina da vida, pronta a ser relida em novos planos, aberta por novas chaves.”
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Por anos a figura pode seguir um poeta — “doméstica e fabulosa, familiar e inquietante, frequentemente uma imagem da primeira infância, o nome estranho de uma árvore, a insistência de um gesto — ela aguarda com paciência que a revelação a encha.”
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“Em Proust, esse mistério da figura inundada de repente por torrentes de significado e depois retornando sempre, como vista das curvas sempre mais altas de uma montanha, é a essência da poesia.”
Ama-se o tempo presente porque é o tempo em que tudo vem a faltar — e talvez por isso mesmo seja o verdadeiro tempo da fábula.
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“E certamente não se entende com isso a era dos tapetes voadores e dos espelhos mágicos, que o homem destruiu para sempre no ato de fabricá-los, mas a era da beleza em fuga, da graça e do mistério prestes a desaparecer, como as aparições e os sinais arcanos da fábula.”
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“Tudo aquilo a que certos homens nunca renunciam, que tanto mais os apaixona quanto mais parece perdido e esquecido. Tudo o que se parte para reencontrar, seja a risco da própria vida, como a rosa de Bela em pleno inverno. Tudo o que de vez em quando se esconde sob formas mais impenetráveis, no fundo de labirintos mais horríveis.”
A maturidade é aquele instante misterioso que nenhum homem alcançará antes do tempo, mesmo que todos os mensageiros do céu descessem para ajudá-lo.
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“Assim nas antigas histórias a sequência das aparições, todas igualmente eloquentes e ineficazes: a pomba, a raposa, a velha com o feixe de gravetos. E, todavia, todas dizem a mesma coisa, repetem e reforçam o mesmo aviso — seria fácil entrever sob as penas, o pelo ruivo ou os trapos, o clarão azul do vestido da Moira…”
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“Maturidade: nem fulgurações nem vozes. Somente um precipitar repentino, biológico, eu diria: um ponto que deve ser tocado por todos os órgãos ao mesmo tempo para que a verdade possa fazer-se natureza.”
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“Como acordar uma manhã e saber uma língua nova — e os sinais, vistos e revistos, tornam-se palavras.”
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Maturidade é “desembaraçar continuamente do mundo, que de todo lado solicita e aperta — inclusive e sobretudo o mundo da beleza —, somente o que é nosso desde as origens, 'portanto por destinação.'”
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“É uma contínua resposta ao Tentador no cimo da montanha.”
As canções de amor de São João da Cruz descrevem as noites obscuras, as subidas ao Carmelo — assim como os narradores de fábulas descrevem as suas; somente os comentários eles omitem, cabendo a nós recompô-los.
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“De cueva de leones enlazado / de mil escudos de oro coronado” — assim São João descreve o leito de núpcias.
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“Los ojos deseados / que tengo en mis entrañas dibujados” — obstinada e feliz permanência dos místicos na linguagem erótica, enquanto “tão poucos amantes ousam a sobrenatural.”
Numa relação não imaginária — da qual o jogo das forças esteja excluído —, nenhum sentimento ou pensamento dura isolado, mas cada um se inverte rapidamente em seu oposto.
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“Assim a privação é logo nutrição, a vontade é consentimento, a dor é sentimento cumprido da presença e a humildade uma coroa de graça continuamente recebida e restituída.”
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“Somente a tais sentimentos ou pensamentos, aos quais não é dado o tempo de se corromperem no resultado, é concedido durar e desenvolver-se em sua pureza.”
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“O choque contínuo e harmonioso dos contrários conduz a alma a uma espécie de ardente imobilidade, enche-a até a borda de uma vida que não transborda porque o seu próprio mover-se a freia.”
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“Do centro ao círculo e assim do círculo ao centro / move-se a água num vaso redondo / conforme é percutida por fora ou por dentro.”
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“Somente desse modo e dentro desse círculo o amor pode resplandecer sem se contaminar. Mas uma amizade pura é rara — como uma pura poesia, que vive das idênticas leis.”
