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CONTO DE FADAS

Cristina Campo. Gli imperdonabili

O narrador de contos de fadas carrega um mistério singular que transforma a experiência individual em patrimônio coletivo.

  • A indicação “lenda popular” num livro oculta que toda narrativa perfeita nasce de uma vivência singular e irrepetível.
  • O evento único funciona como espelho do sonho de uma multidão — a máxima profundidade coincide com a máxima superfície.

Quem cria contos de fadas assemelha-se a quem encontra trevos de quatro folhas, adquirindo, segundo Ernst Jünger, vidência e poderes adivinhatórios.

  • O contador começa narrando para entreter crianças e logo o conto se converte em campo magnético que atrai segredos inexprimíveis da vida própria e alheia.
  • O uso constante de metáforas torna quase inevitável o dom perigoso e admirável dos conteúdos ocultos, pois “no princípio era a figura” — vaso de ouro à espera de um licor desconhecido.
  • Com o tempo, tal dom pode ser exercido com crescente delicadeza, como ocorre, a título de exemplo, com Madame d'Aulnoy.

O grande fabulista trabalha com inúmeras sobreposições geológicas que eleva ao fulgor do mineral perfeito — a ágata irisada, a malaquita profunda cujas veias parecem obra de ourives e não de água e tempo.

  • A segurança com que o narrador seleciona e recompõe esses materiais varia conforme sua intimidade com o mistério que está na raiz do conto de fadas.
  • Esse mistério está presente em toda fábula digna de memória, e cada elemento do conto o testemunha.

A beleza, em sua dimensão imensurável, é o motor da ação no conto de fadas — age-se sempre em nome de uma beleza pura, abstrata, que manifestamente representa outra coisa.

  • As Três Laranjas que cantam e dançam e a Filha do Rei do Teto de Ouro são exemplos dessa beleza irreal que move o herói.
  • Beleza e medo constituem os polos trágicos do conto, seus termos de contradição e conciliação.
  • Para superar os obstáculos rumo à beleza, o herói precisa das três virtudes teologais, das quatro cardinais e dos sete dons do Espírito.
  • Simbad, o Marujo — esse Ulisses do Oriente, já muito rico após a primeira viagem — responde com mais seis viagens ao apelo que o arremessa repetidamente contra o Leviatã do medo.
  • Após sete viagens, beleza e medo o purgam e reformam; partido pelo versículo do Eclesiastes, ele declara ao fim: “Arrependi-me diante de Deus deste sétimo e último dos meus viagens, e o fim de todas as paixões.”

Os heróis e bardos do conto absoluto — o conto dos contos — foram em cada século os Santos, ou personagens arcanos que, em forma de lamento amoroso ou fantasia extravagante, narraram histórias idênticas às das vidas dos Santos.

  • Os lais de Maria de França constituem essa longa e amorosa lenda dourada.
  • Na corte do Rei Sol circularam contos que eram na verdade parábolas: Bela e a Fera, A Gata Branca.
  • A Comtesse de Ségur, após advertir filhos e netos com as desgraças da inocente Sophie — figura infantil da Justine de Sade — e do virtuoso Blaise, traçou ao ser solicitada dois itinerários místicos perfeitos: a Histoire de Blondine, de Bonne-Biche et de Beau-Minon e Le bon petit Henri.

A saga do bom pequeno Henrique, que por piedade filial sobe a montanha árdua em busca da planta da vida, é uma subida ao Carmelo descrita com sete estações; já a Histoire de Blondine é uma história de expulsão do paraíso e de redenção do pecado original.

  • Pouco importa que a leitura erótica dessas figuras seja igualmente razoável, pois nenhuma história exemplar pode ser lida apenas no plano literal.
  • O passo em que Blondine dorme uma noite e ao despertar passaram-se sete anos e ela conhece todo o saber humano poderá ser traduzido em termos astronáuticos — com uma diferença: o astronauta não saberá mais ao acordar do que ao adormecer, e o sentido desse sono se perde completamente.
  • Isso nos reconduz ao ponto central: o conto de fadas exige leitura em todos os planos simultaneamente, ou nenhuma delas será plenamente plausível.

O impossível está aberto ao herói de conto de fadas, mas só se chega ao impossível por meio do próprio impossível — palavra que se lê ora da direita para a esquerda, ora da esquerda para a direita, ou montanha com dois versantes igualmente íngremes.

  • Na subida, o herói deve realizar a cada passo o impossível; na descida, pode realizá-lo quando quiser, pois ao tocar o cume todos os obstáculos se invertem em talismãs.
  • Esse duplo movimento exige do herói uma disposição ascética perfeita: esquecer todos os seus limites ao medir-se com o impossível, e vigiá-los sem descanso ao realizá-lo.

O caminho do conto começa sem esperança terrena, e o impossível é de imediato figurado pela montanha — para apenas resolvê-la a enfrentar, é preciso um sentimento que sirva de ponto arquimediano fora do mundo.

  • “Qualquer coisa para salvar minha mãe” é a fórmula simbólica que abre a entrada na quarta dimensão.
  • Essa fórmula opera o que um místico disse da oração: arranca a montanha de sua base, invertendo-a sobre seu cume.
  • A partir desse momento, o herói de conto é um louco para o mundo.
  • Após tal profissão de fé — ou seja, de descrença na onipotência do visível — as ordálias são apenas modos de perfeição, confirmações dessa fé insensata.
  • As provas de intrepidez — atravessar fogos, amansar dragões, disputar torneios — são pequenas diante das abstinências dolorosas do coração: partir em busca da beleza e ter de dedicar ternura a monstros; sendo nobre, vestir-se de mendigo, de peregrino, de servo, tornar-se servo do próprio servo; sendo amante, ceder ao rival e ao usurpador as próprias noites de amor.
  • A porta que não deve ser aberta, a pergunta que não é lícito fazer, o rosto amado que, contemplado, se dissolve num grito — essas são as provas mais profundas.
  • Como certos pêssegos têm em italiano “l'anima spicca” — o caroço bem destacado da polpa —, assim o herói é chamado a desprender o coração da carne, pois com um coração preso não se entra no impossível.

Essa zona mediana do conto — entre a prova e a libertação — é um mundo de espelhos onde bem e mal trocam de máscaras como numa antiga dança de corte.

  • Que a rainha sorridentes fosse uma necromante, que na choça do menestrel se ocultasse o magnânimo rei Barba-de-Tordo, só se revelará naquele além-mundo das datas imponderáveis a que o conto conduz.
  • Lá, as figuras invertidas se recomporão no tecido esplêndido, no atlas perfeito dos significados.
  • No entanto, o herói é chamado desde o início a ler esse além-mundo em filigrana e a obedecer às suas leis recônditas em suas escolhas e recusas.
  • Pede-se a ele nada menos do que pertencer simultaneamente, sonambulicamente, a dois mundos.

Com que auxílios passará entre esses fogos e espelhos a criatura mortal — os tratados de ascética e mística responderiam: antes de tudo com a memória do supremo bem para o qual se encaminha.

  • “Pensou em sua mãe… pensou no jardim maravilhoso…” — essa memória é o primeiro sustentáculo.
  • Anjos e padroeiros, sacramentos e sacramentais têm seus equivalentes no conto: no horror da floresta, a fada madrinha e o bom gênio trazem ao perdido alimentos portentosos, bebidas restauradoras, nozes que contêm carruagens, lenços que secam mares.

Esses penhor, frequentemente devidos às boas obras do passado — “o belo passarinho, libertado, gritou ao afastar-se: Fica a dever, Henrique!” —, entram em jogo no instante do perigo extremo.

  • Esse é o instante em que o cansaço se confunde com a tentação de olhar para trás, de lançar um olhar sobre o caminho percorrido, tão longo e tão inútil aparentemente.
  • Vozes e mãos perturbam a mente porque imploram socorro, conjuram a desistência, prometem ternuras e reconhecimentos maravilhosos.
  • O iníquo papagaio, guardião da rosa proibida, não instiga Blondine a apoderar-se dela — ele a suplica a libertá-lo.
  • A esses apelos só pode haver uma resposta: a que ensinou para sempre a saltar de um golpe o jogo das forças — “Não só de pão vive o homem…” ou “Não tentarás…”

A lição obstinada e inesgotável dos contos de fadas é a vitória sobre a lei de necessidade, a passagem constante a uma nova ordem de relações — e absolutamente nada mais, porque absolutamente nada mais há a aprender nesta terra.

  • O alfaiatezinho corajoso, para vencer no arremesso o gigante horrendo capaz de despedaçá-lo com um sopro, lança aos céus, em vez de uma pedra, um pássaro.
  • Não há gigante no jogo das forças a quem não possa opor-se um gigante ainda mais tremendo; nenhum tesouro tem certeza de ser o único tesouro.
  • As balanças viciadas são ainda mais funestas — meu inimigo abriu o cofre, logo eu não o abrirei; meu rival era pobre, logo eu serei rico — no movimento pendular e ironicamente inexorável da lei de necessidade, de que a astúcia ingênua é a mais antiga aliada.
  • Quando o príncipe caçula entra na sala do trono e diz “Não encontrei em minhas viagens princesa digna de nota, mas tenho aqui uma gatinha branca qui fait si bien patte de velours”, sabe-se imediatamente que a ele caberá a coroa.
  • Quem tenha encontrado ao menos uma vez um homem espiritual reconhecerá esse método.

Como os evangelhos, o conto de fadas é uma agulha de ouro suspensa a um norte oscilante, sempre diferentemente inclinado, como o mastro de um navio em mar onduloso.

  • Oferece a cada vez a escolha — velada por véus sempre diferentes — entre simplicidade e sabedoria, dureza e suavidade, memória e esquecimento salutar.
  • Um vence por ser desconfiado e reservado num país de crédulos e intrigantes; outro vence por se fiar ingenuamente ao primeiro que aparece ou até a um círculo de malfeitores.
  • A princesa que cai no sono mágico de cem anos pode agradecer ao ciúme do rei seu pai, e sabe-se que, fugindo de Bagdá, quem se encontrará à frente em Samarcanda.
  • Nenhuma Escritura oferece preceitos válidos para sempre, pois isso negaria a vida — enigma sempre novo, nunca resolvido senão na hora decisiva, no gesto puro, nutrido dia após dia de visão e silêncio.

Sobre todo conto de fadas pesa o enigma impenetrável e central: a sorte, a eleição, a culpa.

  • A aventura gloriosa pode cair sobre o inocente — o manso pastor, a jovem enclausurada na torre.
  • Uma força imperativa empurra outros — os inquietos — às partidas sem espírito de retorno, ao despojamento de tudo pelo bem impossível.
  • De modo inescrutável, leva alguns à infração: à culpa providencial que abre o caminho de Blondine rumo à vitória.
  • A Comtesse de Ségur desenhou esse nó em Blondine como ninguém antes dela — um nó terrível e aparentemente inextricável que só se desata pela tração oposta de suas duas pontas.
  • Assim fala Boa Cerva, restituída à forma de fada madrinha graças à culpa e à redenção de Blondine, e assim poderia falar a cada geração seguinte: “Blondine, Blondine… nós jamais deveríamos ter retomado nossas formas primeiras se vós não houvésseis colhido a rosa, que eu sabia ser o vosso mau gênio e que mantinha cativa… Oxalá tivéssemos ficado para sempre, de bom grado, como Boa Cerva e Belo Gatinho a vossos olhos, para poupar-vos as cruéis dores pelas quais passastes…”
  • No desastre do jardim bem-aventurado cumpre-se uma economia de sofrimentos e libertações, de socorros e sufrágios — a Boa Cerva e ao Bel Micio, espíritos cativos, é necessária, embora tentem suavemente evitá-la, a paixão redentora de um vivente para obter libertação.

O conto de fadas é, por outro lado, obstinadamente horoscópico — as fadas madrinhas entram uma a uma no batismo da princesa recém-nascida como planetas surgindo no horizonte.

  • Sete planetas, doze constelações, benignos ou adversos conforme os méritos dos pais: a rainha cuidou dos convites, lembrou-se da fada que lhe era verdadeiramente amiga em vez de outras mais poderosas?
  • Planetas favoráveis e constelações benéficas surgem primeiro, mas um maligno Saturno — a fada desprezada e rancorosa — aparece em seu coche puxado por morcegos para obscurecer o céu.
  • De nada valem os dons esquisitos das outras fadas se essa fixa um termo funesto: a princesa morrerá aos vinte anos.
  • Quando tudo parece perdido, uma última fada — jovial, que por acaso ainda não falou — intervém com seu pequeno voto: não pode anular, mas pode paliar o malefício, mudando sua natureza; a princesa não morrerá, mas ficará cem anos imersa no sono mágico antes que seu destino se cumpra.
  • Assim se revela a relação entre as culpas dos pais e a sorte dos filhos, e o tempo imponderável necessário a uma vocação.

A cena do balo redondo — o que Madame d'Aulnoy chama com termo popular e arcano de branle des fées — é igualmente horoscópica.

  • É a festa das jovens fadas no equinócio de primavera ou o Conselho Secular realizado a cada cem anos na clareira de Brocelianda — uma renovação da sorte com a natureza ou uma conjunção espetacular de astros.
  • Heróis de conto de fadas, nascidos deformes ou minúsculos, são lançados pela mãe ao centro do balo redondo, ao coração do próprio destino.
  • Após um momento de perplexidade ameaçadora, a criança é em geral acolhida pelas fadas — sua deformidade não é removida, apenas elevada ao máximo: ao anãozinho é dado penetrar lugares impenetráveis, ao sem-braços descobrir tesouros, veias auríferas, todo o mundo subterrâneo como espelho do céu.
  • A desventura dedicada e oferecida às potências torna-se para o desventurado e para o mundo uma chave.

Nunca como no conto de fadas as duas direções em que a vida se busca — rumo às suas raízes mais obscuras e rumo ao céu — se mostraram tão deliciosamente e escandalosamente complementares.

  • E, no entanto, o conto aristocrático — pois que significa príncipe ou princesa senão a alma sobre a qual caiu uma escolha? — não desce a composição de contrários nem a androginia junguiana.
  • Nada, à exceção das Escrituras, é mais radicalmente não-sentimental do que um conto de fadas.
  • Nos rostos dos dois gêmeos, o sublime e o abjeto, os dois reinos da sombra e da luz parecem densamente misturados.
  • Mas é sempre o contemplativo, o fiel, que redime o outro: com suas lágrimas que restituem a vista, seu sangue que faz florescer os espinhos, reanima as estátuas, recompõe os corpos mutilados.
  • A substituição mística, tão comum outrora nas Trapas e nos Carmelos, é sempre, também nos contos, a premissa inevitável do prodígio.

Simbad o disse: um conto de fadas opera apenas sobre a matéria-prima da existência — é o mistério do caráter, sejam os humores, os astros ou o legado atávico de outro conto, que até o fim guarda seus traços e só pela repetição dos mesmos erros e pelo sofrimento das mesmas derrotas alcança a metamorfose.

  • Ao príncipe caçula, o último dos nove cisnes enfeitiçados, a túnica de urtigas que deve desenfeitiçá-lo chega com apenas uma manga — não houve tempo de terminar a outra.
  • Ele conservará toda a vida sua asa de cisne, sendo um desses seres raros e inquietantes que guardam para sempre a memória de sua noite obscura e de seu totem espiritual — uma asa de cisne dolorosa e régia.

A maturidade é o instante imprevisível, fulminante e conclusivo que nenhum homem tocará antes do tempo, ainda que todos os mensageiros do céu descessem para ajudá-lo.

  • No conto de fadas, ela é precedida por uma sequência de aparições — a pomba, a raposinha, a velhinha com o feixe de gravetos —, todas igualmente eloquentes e ineficazes.
  • Entre as penas, o pelo ruivo e os trapos não se entreve o lampejo azul do vestido da Moira?
  • Mas maturidade não é persuasão nem iluminação intelectual — é uma precipitação súbita e biológica, um ponto que todos os órgãos precisam tocar juntos para que a verdade possa tornar-se natureza.
  • Como acordar uma manhã e saber uma língua nova — os signos vistos e revistos tornam-se palavras: Blondine que após uma noite de sono sabe todo o saber humano; ou: “Est-ce vous mon prince? Vous vous-êtes bien fait attendre!…”

As crianças possuem, no entanto, órgãos misteriosos de presságio e correspondência — aos seis anos pode-se ler contos o dia inteiro, mas por que esse retorno obstinado e hipnotizado a certas imagens que um dia serão reconhecidas como emblemas recorrentes de uma vida?

  • Beleza e medo — o diálogo sob a porta escura da cidade entre a guardadora de gansos e a cabeça decepada do cavalo: “Adeus, Falada que pendes lá em cima! / Adeus, Rainha que passas lá embaixo! / Se tua mãe soubesse, / de dor morreria…”
  • Essa história pode continuar a se erguer a cada esquina de uma vida, aberta a uma nova página e destrancada por uma nova chave.
  • “Conto obscuro, nêspera dura, / a palha e o tempo te amadurecem.”
  • Na poesia, a figura preexiste à ideia que nela se vaza; por anos ela pode seguir um poeta — fabulosa e doméstica, assustadora e familiar, quase sempre uma imagem da primeira infância: o rótulo fascinante numa velha árvore do parque, o retorno na vigília e no sonho de uma figura de mulher que dispõe frutas sobre uma mesa, inscrutável e suave, aguardando pacientemente que a revelação — que o destino — a preencha.

Ao tocar o conto de fadas, um escritor dá invariavelmente o melhor de sua língua, tornando-se escritor mesmo que nunca o tenha sido — como se ao contato com símbolos ao mesmo tempo tão totais e particulares, tão excelsos e tangíveis, a palavra só pudesse destilar seu sabor mais puro.

  • Um fabulário clássico bastaria para abrir simultaneamente a uma criança o atlas da vida e o da palavra.
  • Talvez só quem tenha de sua própria língua um sentimento tão litúrgico quanto o rito da festa e tão familiar quanto o alimento cotidiano possa dominar plenamente esses símbolos.
  • Nessa luz, o “pão cotidiano” de Lucas — que em Mateus soa como “pão suprassubstancial” — cessaria de parecer uma obscuridade filológica para revelar-se uma ambiguidade natural: como no rito, onde o pão se faz supra-substância, a substância absoluta.

Quatro exemplos de pura criação — de transmutação das espécies por meio da palavra:

  • “O homem jogou alguns incensos num braseiro, separou a fumaça com as duas mãos, e por essa abertura os prisioneiros saíram para um jardim.”
  • “A velhinha aproximou-se dela, passou diante de seus olhos a roca movendo-a da esquerda para a direita no ar, e a jovem viu um vale arborizado e uma clareira que lhe eram conhecidos e deitado na erva o seu amado.”
  • “Sonhei que dos subterrâneos subia uma palavra. Vinha de baixo, passou diante de mim: eu a vi e era aterrorizante.”
  • “Quando vagava pelos montes, ele costumava assumir o aspecto de uma mula meio apodrecida. Trotava sobre as patas dianteiras, a cabeça e o pescoço ainda cobertos de pele, arrastando atrás de si o esqueleto de todas as outras partes.”

A quem vai, nos contos de fadas, a sorte maravilhosa — àquele que sem esperança se confia ao insperável, pois esperar e confiar-se são coisas tão diferentes quanto a espera da fortuna mundana difere da segunda virtude teologal.

  • Quem repete cegamente “esperemos” não se confia — espera apenas um golpe de sorte, o jogo momentaneamente favorável da lei de necessidade.
  • Quem se confia não conta com eventos particulares porque tem certeza de uma economia que abrange todos os eventos e supera seu significado como o arras, o tapete simbólico, supera as flores e os animais que o compõem.
  • Vence no conto o louco que raciocina ao contrário, inverte as máscaras, discerne na trama o fio secreto, na melodia o jogo inexplicável de ecos, e move-se com estática precisão no labirinto de fórmulas, números, antífonas e rituais comum aos evangelhos, ao conto e à poesia.
  • Esse louco crê, como o santo, no caminhar sobre as águas e nos muros atravessados por um espírito ardente; crê, como o poeta, na palavra, e cria com ela prodígios concretos. “Et in Deo meo transgrediar murum.”

A longa fidelidade do louco, de ascética e mística, torna-se ao fim apostólica — ao término de sua descida aos Infernos e de sua subida ao Carmelo o aguarda a medida transbordante, o mundo por acréscimo.

  • Não apenas o objeto do seu amor impossível, mas todos aqueles a quem soube renunciar por ele.
  • Não apenas a sua vida que não quis salvar, mas as vidas de todos os que tiveram parte — boa ou má — na santa aventura.
  • O bosque desencantado anima-se de figuras; erguem-se pálidas, de seu banho de sangue, as esposas de Barba-Azul.
  • Até os ternos e astutos animaizinhos que serviram o herói como instintos sutis recuperam graça e dignidade humanas — terra nova, céus novos em torno de um espírito transformado.
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