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BORGES

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Roma, o enorme híbrido, tem de tudo — basílicas abaixo do nível da água, uma pirâmide, jardins suspensos, e um sanatório sobre o qual uma alta torre de ferro queima negro petróleo de uma aurora à outra.

  • Poucos sabem que numa praça tristíssima, entre as mais desfiguradas pelos séculos, pelo urbanismo e pela vida, Roma tem uma “ruína circular.”
  • A forma dessa pequena ruína cor-de-terra é em raios, ou melhor em folha de palmeira: diferentes braços, outrora talvez corredores, convergem para uma pequena porta.
  • Foi um minúsculo templo alquímico, uma capela de cabalistas cristãos edificada no século XVII pelo Marquês de Palombara e frequentada, entre personagens mais ou menos mal conhecidos, por Cristina da Suécia.
  • Hoje, de intacto não resta senão a porta — e o monumento é lembrado como a Porta Mágica.

A Porta Mágica, fechada com tijolos vermelhos, não leva mais a nenhum lugar — mas ao longo de sua clara moldura de mármore ainda correm palavras semelhantes a aves negras e brancas que, imóveis sobre as asas, se sustentam no ar entre a terra e o céu.

  • “Quando em tua casa os corvos negros parirem pombas brancas, então serás chamado sábio… Quem sabe queimar com água e lavar com fogo faz do céu terra e do céu terra preciosa…”

A praça onde se encontra essa ruína é vizinhíssima da Estação Central — ou seja, num metrópole, um dos mais infetados escoamentos urbanos — e é ela própria uma espiral de círculos.

  • “No exterior há a parede de carnes vermelhas, plumagens úmidas, escamas, aventais sujos — mas também corolas de puro gelo, folhas glauco e raízes — de um mercado permanente.”
  • Mais ao interior, um parque para crianças: nada mais, sobre o que resta de canteiros, do que uma aldeia de papelão pintada descuidadamente, com intenção abertamente humorística — “a criança de hoje deve compreender de imediato que o jogo não é mais uma visão, é uma piscadela de olho.”
  • “Aqueles cartões tortos propõem à infância da antiquíssima estirpe pequenos e tristes delírios de outros mundos — e por cima disso mortos também eles: o saloon texano, o banco das pepitas, o trenzinho dos mineiros e assim por diante.”
  • Habita também aquela praça, sobre galhos frios e nítidos, uma gorda constelação de gatos — preservados pelas ruínas, pelo mercado, sobretudo pela vizinha estação, onde “quem vive perto de uma estação observa por tradição todo um levítico de tabus: primeiro entre todos a vida arcana, vagamente perigosa, do gato.”
  • Por fim, circula ali um magro e onipresente povo de rapazes: adolescentes misteriosos e óbvios, mãos nos bolsos num canto, deitados sobre um braço de ruína com o boné sobre o rosto; ou entre as mãos o balde de água rosada, coberta de escamas azuis, a vassoura que canaliza para a cloaca “uma enxurrada castanha, amoniacal.”

Aquela praça pode parecer o lugar geométrico por excelência dos que Proust chamou de colecionadores de máscaras do real — “os escritores de aparências, os escritores realistas”: há tudo — “dentes agudos de gato que laceram amarelas vísceras, cheiro de plumagem, sal, humores, misturado ao doentio, virginal dos laticínios, ao aroma um pouco mortuário dos jacintos precoces.”

  • “Naquele ar sulfuroso e decomposto, tristes gritos infantis, olhares pesados, bitucas cuspidas longe.”
  • Há, porém, a Porta Mágica — e é claro que a tais escritores ela se tornaria imediatamente invisível; “e é ainda mais claro que sem a Porta Mágica a praça inteira desaparece.”
  • “Dos gatos altos nos galhos não restaria, em poucos instantes, senão o riso — como o do Gato de Cheshire de Alice, como o que talvez os alquimistas atribuíam a Mercúrio.”
  • “Do sedimento pútrido do mercado restaria no ar um borrifo de neve: a alma do prunus branco. E do humano uma estátua funerária, deitada ali sobre o braço de ruína, o boné sobre o rosto tornado máscara de ouro.”
  • “A entrada dos jardins mágicos das Hespérides é guardada pelo dragão, e sem Alcides Jasão não teria saboreado as delícias da Cólquida.”

Naquela praça pitagórico-visceral pensou-se em Borges — no seu gesto de hierofante que repete o do homem figurado, como ele mesmo narra, sobre o mapa gnóstico: um indicador apontado ao céu, outro à terra.

  • “A dilacerante, a impassível palavra com a qual ele talvez tenha selado por muitos séculos os lábios da poesia contemporânea, assim como um dia foi selada a Porta Mágica: 'Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo uso pressupõe um passado que os interlocutores compartilham.'”
  • “Quem compartilha hoje esse passado? Quem esse alfabeto de símbolos? Há um passado? Há símbolos? Onde, portanto, a nossa linguagem?”
  • “Não de outro modo do que a pequena Porta Mágica, cego e quase imperceptível em seu alfabeto perdido, permanecia o principesco Borges: centro murado de uma 'ruína circular' que o olho, reduzido agora a uma única dimensão, roça sem supô-la.”
  • “É obra oculta do verdadeiro sábio abrir a terra para que germine a salvação…”

Estrangeiros ainda vêm em peregrinação à Porta Mágica, transcrevem em pequenos cadernos as altas sentenças — e sabem bem que somente da Porta Mágica a praça retira ainda sua virtude e medida.

  • “A praça — esse mortal presente que, junto com a Porta Mágica, se destrói a si mesmo: abjeta e inocentemente.”
  • “Considerei que estávamos, como sempre, no fim dos tempos.”
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