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Nascer para morrer
CARRIÈRE, Jean-Claude. La Vallée du Néant. Paris: Odile Jacob, 2018.
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A alegria diante de cada nascimento e a tristeza diante de cada morte coexistem numa contradição irresolvível — pois todo recém-nascido é um futuro cadáver, condenado a morrer desde a chegada ao mundo, e todos ao redor do berço o sabem.
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Sabe-se, diz-se sem cessar e por um longo tempo esquece-se — pensa-se na vida antes de pensar na morte, e no momento do nascimento a vida é uma festa e uma alegria em que todos concordam.
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A morte é algo que o recém-nascido ainda não conhece — e levará tempo aprendê-la, suscitando reações diversas e imprevisíveis.
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Além do fim inevitável, toda existência — longa ou breve, brilhante, medíocre ou miserável — está prometida a obstáculos e sofrimentos, àquilo que há séculos se chama “as misérias da vida humana”: privações, acidentes, doenças, enfermidades, lutos, exílios, decepções, traições e tristezas de toda ordem.
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Falências nos negócios, traições no amor, cânceres semeados como ao acaso, solidão e o sentimento de uma vida sem propósito integram esse horizonte.
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Sabe-se tudo isso — mas no momento do nascimento, quando uma vida inteiramente nova surge do nada, esquece-se, e sorri-se para ela.
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Somam-se ainda os desastres provocados pelos próprios seres humanos na ilusão de escapar a eles lançando-os sobre os outros: guerras, atentados, torturas, torpedos, invasões, venenos, bactérias homicidas, mísseis, drones assassinos e arame farpado atrás do qual homens exterminam outros homens.
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A cada um cabe sua parte de dor e de luto — garantida desde o início.
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Nesse ponto preciso, os seres humanos não se distinguem do conjunto dos viventes — tudo que teve começo terá fim, inclusive o próprio Universo.
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Alguns escolhem morrer antes da hora, por desespero ou fanatismo — e por vezes simplesmente por tédio, cansaço ou para pôr fim a uma dor persistente —, mas ninguém jamais escolheu nascer, pois essa escolha foi feita por outros sem que soubessem quem se seria.
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A frase de Rousseau — “O homem nasce livre” — é descrita como falsa e radicalmente equivocada: o ser humano não é sequer livre para nascer.
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Em todas as tradições, ao que parece, vigora o pressuposto universal de que a vida é o objetivo buscado e que todos — ricos ou pobres, mulheres ou homens, jovens ou velhos, atletas, franzinos ou disformes — desejam viver, e portanto morrer.
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Os animais e os vegetais partilham dessa condição — e embora se possa falar de sua aplicação e teimosia em viver e de sua obrigação de se reproduzir, e da proteção que tentam assegurar à prole, não se conhece, no mundo animal, pais que se lamentem do nascimento de um recém-nascido.
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A questão que permanece é como os seres humanos se arranjam para aceitar o que chamam de “destino” e persistir — não apenas vivendo, mas dando a vida —, sabendo que ao mesmo tempo transmitem a inquietação cotidiana, o sofrimento e enfim a morte.
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A resposta é que é isso ou o nada — e como quase sempre se escolhe a vida em vez do nada, para si e para os filhos, há aí um sortilério incompreensível, mas tenaz, poderoso e irresistível: a necessidade de escapar ao nada, a necessidade de ser.
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As dores, os medos, os lutos e as angústias são transmitidos inevitavelmente aos descendentes, com o risco de multiplicá-los de geração em geração — e ainda assim espera-se sempre que vivam melhor e mais longamente, reportando sobre eles impaciências, insatisfações e curiosidades, chegando-se hoje a imaginar que talvez não morram jamais.
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A questão que se coloca é como sentir-se à vontade nessa torrente, como esquecê-la por momentos, como deslizar “nos segredos da água”, à maneira do montanhês japonês — ao que se diz, Confúcio teria dito quase o mesmo.
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Muito se escreveu sobre esse trânsito obrigatório e esse epílogo inevitável — e apesar da renovação do vocabulário, do acúmulo dos séculos e da agitação dos cérebros, nenhuma ideia resolutamente original é de se esperar da morte.
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A morte não é um repouso — o Requiescat in pace inscrito nas tumbas cristãs é apenas uma consolação fácil e uma ilusão apaziguadora; um corpo que se decompõe não “descansa”, esqueceu tudo, inclusive que estava cansado, e a palavra “paz” não tem mais sentido para ele.
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A mitologia indiana — uma das mais ricas do mundo, ao lado da grega — conta que a Terra, chamada Boumi, numa época em que a morte ainda não existia, queixava-se aos deuses da presença crescente de homens “arrogantes” que a pisoteavam e maltratavam, perguntando-se a cada noite, alarmada: “Amanhã, o que ainda vão me fazer?”
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Os deuses se consultaram e, para aliviar a Terra, inventaram a morte — e Brahma decidiu que bastava fixar um limite à vida de todos os seres humanos, sem exceção.
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Os demais deuses aprovaram e designaram uma jovem criatura celeste para exercer esse papel — e a morte é com frequência do sexo feminino, assim como a mãe que dá a vida, exceto em alemão.
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A jovem deusa, ao descobrir o ofício da morte, recusou horrorizada — gritou, chorou, torceu os cabelos, fugiu e se refugiou nos cimos inacessíveis do Himalaia numa longa e dura retirada, implorando ao Universo que lhe fosse poupado esse encargo.
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Os deuses persistiram em sua escolha e, entre os argumentos para convencê-la, incluíram: “Tua glória será sem igual.”
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E assim foi — a morte foi celebrada em todo lugar, em todos os tons, em todas as épocas e em todas as línguas humanas, por poetas, pintores, romancistas e músicos; como se canta em Carmen: “sempre a morte.”
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Quando passa um cortejo fúnebre, todos param ao menos um instante; alguns homens tiram o chapéu; a morte avança num carro de triunfo que todos observam passar com respeito, por vezes com uma lágrima.
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A onipresença da morte e sua autoridade suprema foram longamente interrogadas pelos filósofos, de Epicuro a Heidegger — alguns a veem como terror permanente, fato de natureza e escolha de um destino cego que limita a existência a uma simples passagem e contra o qual bate toda alegria, toda visão e todo pensamento.
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Cioran — que lançava sobre todas as coisas um olhar sombrio mas sabia mostrar-se bastante alegre na vida — falava do “inconveniente de ter nascido”, e só o nada lhe parecia desejável; contudo, nunca tentou renunciar à vida.
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Esses filósofos das ideias sombrias reconhecem que os animais também morrem, assim como as árvores e talvez as estrelas — mas perguntam se eles sabem que vão morrer, se têm consciência de sua condição provisória e se pensam nisso sem remissão durante a vida.
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A ideia do aniquilamento — que não abandona os seres humanos e gira sem cessar na cabeça — é provavelmente mais aterrorizante e insuportável do que a própria morte.
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Outros, como Spinoza, tentaram apaziguar essa imagem esmagadora, argumentando que a morte é necessária — que não se poderia prescindir dela, pois ela contribui para tensionar, densificar, iluminar e até glorificar por momentos a existência breve, apresentando-a como uma joia no mais belo escrínio possível.
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Sem a morte, a vida seria apenas uniformidade, tédio e banalidade repetida e interminável — sempre os mesmos se cruzando na superfície da Terra, sem a surpresa de um encontro, sem a esperança de que os filhos sejam maiores, mais belos, mais generosos e vivam melhor.
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A morte faz, talvez por contraste, toda a beleza e toda a força da vida — e ajuda a apreciar suas alegrias e seus prazeres, mesmo passageiros, mesmo ameaçados, mesmo por vezes adulterados.
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Cioran, na última vez em que foi visto, duas semanas antes de entrar no hospital de onde não sairia mais, levantou o copo sorrindo e disse: “Às nossas próximas derrotas!”
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Cioran definiu o nada, que chama de “vital”, como “o ponto de apoio da divindade.”
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Se a vida não fosse agradável e desejável, não haveria razão para temer a morte — ao contrário, ela pareceria uma doce libertação; e pensar constantemente na morte levaria à melancolia, à obsessão e à infelicidade, talvez ao rancor, ao desprezo, ao esquecimento dos outros e ao ódio do mundo inteiro.
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Ao se perguntar, chegada certa idade, se valeu a pena, não há resposta possível — pois não se pode dizer “teria preferido não viver”, já que nesse caso nada da vida se teria conhecido, e para preferir um estado a outro é preciso ter conhecido os dois; ora, como conhecer a não-vida, o nada?
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O nada é inconhecível — não tem contrário, não apresenta nenhuma equivalência, e não sendo nada, não pode ser comparado a nada.
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É mais que provável — Sêneca já o dizia — que não se terá nenhuma lembrança da própria morte, assim como da própria existência; e quando o coração parar de bater e o sangue deixar de circular, será tarde demais para discutir as escolhas de vida.
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Imagina-se defuntos transparentes e cansados que saem de seus sepulcros à noite, sentam-se silenciosamente sobre suas lápides e recomeçam, a cada noite sem se cansar, o balanço de suas existências, em voz baixa e como envergonhada — todos gostariam de mudar algo, apagar um arrependimento, reparar um esquecimento, retificar um erro; mas a noite passa depressa, a aurora se anuncia a leste e é preciso voltar rapidamente aos túmulos.
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Seguir Baudelaire quando ele chama a morte de “velho capitão” e pede que ela levante âncora para ir “ao fundo do desconhecido para encontrar o novo” parece difícil — pois nada de novo espera no desconhecido, nenhuma surpresa no nada, nenhuma lembrança do que se pensava saber ou do que se desejava encontrar do outro lado.
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O nada não é novo — estava lá antes, sem dúvida, e sem dúvida sobreviverá; dele se vem, a ele se retorna; é um território imutável, imenso e secreto, provavelmente imaginado e inventado pelos próprios seres humanos, sem nenhuma consciência de ser.
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