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Começando pelo final

CARRIÈRE, Jean-Claude. Fragilité. Paris: Odile Jacob, 2006.

  • Cada pessoa nasce em estado de fragilidade extrema, sujeita a uma infinidade de causas fatais imprevisíveis.
    • Acidentes, doenças súbitas, atentados, guerras, balas perdidas, explosões, afogamentos, ataques de animais, quedas e até mesmo eventos cotidianos como espirros ou a paragem cardíaca durante o sono podem ser mortais.
    • “Nous venons tous au monde avec l’étiquette « fragile ».”
    • “Des innocents sont morts de piqûres d’abeilles, d’une chute dans un escalier, d’un coup de colère, d’un éternuement.”
  • A existência humana é definida pela posse exclusiva do próprio ser, estando desde o início à mercê da morte, cujo risco aumenta com o avanço da vida.
    • Não se possui nada além do próprio ser, sendo a morte a ameaça constante ao fim desse ser.
    • “Nous n’avons que notre être, nous ne sommes rien d’autre.”
  • O que causa indignação e sentimento de injustiça não é a necessidade de morrer, mas a ausência de garantia de tempo de vida e o caráter súbito e imprevisível da morte.
    • A morte espreita a cada instante do percurso, podendo decidir subitamente que a caminhada terminou, seja por um capricho, cansaço ou tédio.
    • “La mort est postée à chaque instant de notre parcours.”
  • As ameaças não se limitam aos danos físicos, estendendo-se a ataques surpresa contra a consciência, o pensamento e a segurança interior, incluindo danos íntimos e secretos.
    • São considerados danos invisíveis e malfeitores que agem silenciosamente sobre a psique.
  • Todo movimento no corpo é espreitado pela paragem, e a percepção dos movimentos internos enredados (coração, pulmões, sangue) apenas aguça o estado de alerta diante da possibilidade de imobilidade súbita.
    • A consciência de que os movimentos vitais podem a qualquer momento cessar é uma ameaça comum e banal.
  • Os movimentos internos são solidários, e a paragem de um deles leva os outros à imobilidade, interrompendo a vida para sempre, ainda que existam relatos isolados como o crescimento pós-morte das unhas de Napoleão.
    • “Nous sentons aussi, et tout nous le confirme, que ces mouvements qui nous parcourent sont étrangement solidaires et que, si un d’entre eux s’arrête, les autres l’imitent aussitôt, ce qui casse à jamais notre vie.”
  • A aparência de solidez física não oferece garantia de duração, pois organismos frágeis como os juncos sobrevivem aos carvalhos, e corpos aparentemente frágeis, como o de Gandhi, podem mostrar imensa resistência.
    • “Les roseaux survivent aux chênes.”
    • “L’Empire britannique s’est incliné devant ce squelette.”

Uma longa coleção de máscaras

  • Nasce-se aprisionado, trazendo consigo não só a morte, mas a doença e a sofrimento inscritos na carne antes mesmo da consciência disso.
    • Inimigos íntimos e armadilhas originais vêm ao mundo antes da pessoa, incluindo fontes de dores como nevralgias e ciáticas.
    • “Nous portons en nous-mêmes non seulement la mort mais la maladie, la souffrance.”
  • A própria realidade é ocultada, e a imperfeição, inicialmente insuspeitável, é um segredo inconfessável que se nega a ponto de causar loucura.
    • As pessoas escondem umas das outras suas armadilhas internas e negam a própria fragilidade.
    • “Nous dissimulons comme un secret inavouable. Nous taisons les embûches que nous sentons en nous.”
  • A história das civilizações pode ser vista como uma série de tentativas refinadas para mascarar o verdadeiro rosto humano, tanto de si mesmo quanto dos outros.
    • Indivíduos e grupos calam sua fraqueza ou a disfarçam com aparências de força.
    • “Nous nous cachons les uns aux yeux des autres.”
  • Mantém-se a máscara, escondendo a fragilidade, hesitações, tremores, sofrimentos e medo profundo, tanto individual quanto coletivamente, com o uso de símbolos e desfiles.
    • O combate à fragilidade é uma constante, assim como a construção de fachadas brilhantes à maneira das aldeias Potemkin para ocultar a falta de solidez.
    • “Nous sommes tous des Potemkine, nous construisons à la hâte, sur le passage de l’impératrice, des façades brillantes pour dissimuler, là-derrière, l’absence de bâti, de solide.”
  • Toda aparência de grandeza ou duração é uma ilusão de ótica, e somente o ser vivo comunica a sua ruptura constante, ao contrário do inerte.
    • “Toute apparence de grandeur, de durée, est un trompe-l’œil.”
  • Não se sabe o próprio grau de fragilidade ou resistência, ou seja, até que ponto se pode estender o fio da existência antes de romper, permanecendo o silêncio e a perplexidade sobre isso.
    • “Où en sommes-nous? Individus comme nations, individus surtout, jusqu’à quel point pourrons-nous tirer sur notre fil?”
  • A fragilidade consubstancial comanda ou dirige o comportamento, como se aprende na infância ao atravessar a rua, sabendo que um objeto como um carro não se quebra nem morre como um humano.
    • A fragilidade dos objetos leva-os ao depósito, não à morte, mas um objeto quebradiço, como o vidro, pode ferir gravemente.
    • “Le fragile est en danger, mais le fragile est dangereux.”

Morte, onde está a tua derrota?

  • Antigamente, a boa morte era aquela recebida na cama, como uma visita esperada, com preparação, presença da família e rituais religiosos.
    • O moribundo aceitava sua condição efêmera, perdia as forças gradualmente e, com sorte, mantinha lucidez para entrever o Paraíso ou o Inferno.
    • “La belle mort était autrefois celle qu’un moribond recevait dans son lit comme on accueille une visite attendue depuis bien longtemps.”
  • A resistência do agonizante no último combate é surpreendente, e dele se diz que é forte ou que luta, tendo a alma ligada ao corpo como por um artesão.
    • A agonia é o último combate, sempre perdido, mas que inspira admiração pela força e coragem, guardando-se a memória de uma vitória.
    • “L’« agonie » – le mot le dit – est le dernier combat, celui que nous perdons toujours.”
  • A morte contemporânea é aseptizada, anônima e ocorre em hospitais, com a consciência apagada por calmantes, sem combate visível, gerando sentimento de impotência e derrota total.
    • O último combate é escamoteado, a vida não se defende, e não há nada de heroico ou patético a recordar.
    • “Notre mort est aujourd’hui différente. Elle est aseptisée, anonyme, pareille aux autres morts.”

Na defensiva

  • O sentimento de fragilidade deriva mais do modo de morrer do que da morte em si, levando a esforços para se proteger e prolongar a existência, ainda que isso aguçe a inquietação.
    • Foram criadas vacinas, terapias e check-ups para se blindar contra as surpresas, mas o “grande liquidador” sempre encontra a pessoa sob qualquer disfarce.
    • “Depuis plus d’un siècle, nous avons tout fait pour nous préserver des surprises qu’on dit mauvaises. Pour nous cuirasser, pour nous alerter, pour nous défendre.”
  • A fortaleza construída contra a morte apresenta fissuras e é assaltada por novas ameaças, como o sida, a obesidade, o terrorismo e o fanatismo, aumentando a angústia de ser aniquilado.
    • “Et notre angoisse d’être submergés et anéantis est d’autant plus forte que nous pensions notre redoute inexpugnable.”
  • O sonho incessante de imortalidade, outrora mítico e reservado a heróis, é agora anunciado por pesquisas médicas, o que desloca o mito do tabernáculo para o laboratório e levanta questões práticas sobre financiamento e superpopulação.
    • “L’immortalité, nous la recherchions autrefois au contact des dieux (…) Le mythe s’est déplacé du tabernacle au laboratoire.”
  • A busca pela imortalidade médica implicaria o fim do nascimento de crianças, criando um mundo imóvel de adultos clonados, enquanto os pobres continuariam a morrer e a nascer, evoluindo lentamente.
    • Para se chamar a imortalidade com recursos financeiros, seria preciso renunciar a dar a vida.
    • “Les bébés d’aujourd’hui auront à les résoudre.”
  • Proclama-se a imortalidade futura, mas os cadáveres se acumulam diariamente nos noticiários, provenientes de novas causas como guerras sagradas, epidemias e vírus, agravando a insegurança e o desamparo atuais.
    • “Nous voyons même de nouvelles raisons, de nouvelles manières de mourir.”
    • “Aussi pour le moment notre insécurité, loin de disparaître, s’aggrave-t-elle.”

A ascensão da pesantez

  • A morte não atinge apenas os velhos, mas ceifa crianças famintas no planeta, enquanto as sociedades ocidentais engordam, criando um contraste entre o excesso e a penúria.
    • “Nos jeunes générations s’épaississent, d’une année à l’autre.”
    • “D’un côté le surplus, de l’autre la pénurie.”
  • A forma feminina oscila entre a anorexia e a obesidade, sendo esta última interpretada por psicólogos como uma defesa contra agressões externas, uma nova carapaça macia em sociedades superalimentadas.
    • “Les psychologues nous disent quelquefois que ces « surcharges pondérales », dans nos sociétés gavées, sont une défense de type nouveau contre les agressions venues de l’extérieur.”
  • O comportamento de comer excessivamente, especialmente à noite, é visto como um gesto subversivo e clandestino para apaziguar uma angústia moderna, ignorando-se os milhões de crianças desnutridas.
    • “Ces gloutons pensent-ils, à ce moment-là, aux millions d’enfants décharnés qui mangent des brindilles ou sucent de la terre ?”
    • “Il y avait là quelque chose de tragique, comme dans La Grande Bouffe, un sacrifice expiatoire.”
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