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Ka
CALASSO, Roberto. Ka. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
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De repente, uma águia escureceu o céu, com suas penas formando uma cortina entre nuvens e terra e carregando, nas garras, um elefante e uma tartaruga.
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Pendurado nas garras da águia, igualmente imenso e rígido de terror, um elefante e uma tartaruga roçavam os topos das montanhas, enquanto a ave mantinha no bico um enorme galho.
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Garuḍa voava e se lembrava, tendo eclodido do ovo há poucos dias, e voar era a melhor maneira de pensar e repensar as coisas.
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O primeiro olho que Garuḍa sustentou foi o de sua mãe, Vinatā, e ele soube imediatamente que aquele olho era seu.
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Garuḍa viu outra mulher exatamente como sua mãe, mas com uma bandagem preta cobrindo um olho, e no chão diante dela havia um emaranhado de serpentes.
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A voz por trás disse: “Eles são seus primos. E aquela mulher é minha irmã, Kadrū. Somos suas escravas”, as primeiras palavras que sua mãe lhe falou.
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Vinatā contou que ela e Kadrū foram noivas de Kaśyapa, o grande ṛṣi, que concedeu a Kadrū mil filhos de igual esplendor e a ela dois filhos, mas mais belos e poderosos.
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Vinatā vigiou o ovo de Garuḍa por quinhentos anos, pois sua impaciência ao abrir o ovo de seu irmão Aruṇa fez com que a metade inferior de seu corpo ficasse informe, e ele a amaldiçoou a ser escrava de sua irmã por quinhentos anos.
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Vinatā e Kadrū avistaram um cavalo branco sobre as águas do oceano, onde o mar encontra o céu, e ficaram maravilhadas.
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O cavalo se chamava Uccaiḥśravas e nasceu quando o oceano foi batido, e Garuḍa perguntou à mãe como aconteceu a batida do oceano.
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Vinatā explicou que o soma é o resgate, uma planta e um líquido leitoso que se encontra no céu, vigiado por Indra e todos os deuses, e que Garuḍa deve conquistá-lo.
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No início, nem os deuses tinham o soma, e a vida era monótona, sem encantamento, até que os deuses decidiram bater o oceano até que o soma flutuasse, como a manteiga flutua do leite.
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Vinatā contou como se tornou escrava da irmã ao apostar sobre a cor do cavalo branco, que Kadrū disse ter uma cauda preta.
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Kadrū corrompeu seus filhos, as serpentes, para que se pendurassem na cauda do cavalo para torná-la negra, e quando elas se recusaram, ela as amaldiçoou: “Vocês serão todos exterminados…”
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Ao chegarem ao cavalo, Kadrū mostrou alguns pelos pretos que suas dedos hábeis colheram entre todos os pelos brancos da cauda da criatura, dizendo: “Eu venci você. O mar é minha testemunha. Agora você é minha escrava.”
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Garuḍa disse que iria conquistar o soma, mas primeiro precisava comer, e sua mãe o instruiu a ir ao meio do oceano para comer os Niṣādas, mas com a advertência: “Nunca mate um brâmane.”
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Os Niṣādas foram sugados por milhares para dentro de Garuḍa, mas um deles se agarrou à parede sem fim, segurando uma jovem de cabelos de serpente.
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Garuḍa sentiu algo queimando em sua garganta, pensou “Esse é um brâmane”, e disse: “Brâmane, não quero lhe fazer mal. Saia da minha garganta.”
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A voz da garganta respondeu: “Nunca sairei a menos que possa trazer esta mulher Niṣāda comigo, ela é minha noiva”, e Garuḍa concordou.
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O brâmane era magro, ossudo, empoeirado, com olhos fundos e vibrantes, e a beleza da mulher Niṣāda lembrou Garuḍa de sua mãe e de sua traiçoeira tia Kadrū.
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Kaśyapa observava uma fila de formigas e não prestou atenção ao filho, até que depois de um dia de silêncio, perguntou: “Como está sua mãe?”
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Kaśyapa disse a Garuḍa: “Procure o elefante e a tartaruga que estão brigando em um lago. Eles serão sua comida. Depois vá comê-los em Rauhiṇa, uma árvore amiga minha. Mas tome cuidado para não ofender os Vālakhilyas…”
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Garuḍa pousou em um galho da árvore Rauhiṇa, que disse: “Antes de você nascer, você sentou aqui em mim, junto com um companheiro exatamente como você.”
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O galho se quebrou, e Garuḍa voou com o galho partido no bico, sentindo vergonha e culpa por ter feito algo terrível sem querer.
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Dos gravetos do galho pendiam dezenas de brâmanes, os Vālakhilyas, cada um não mais alto que a falange de um polegar, perfeitamente formados e quase transparentes.
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Um sussurro zombeteiro respondeu: “É o que todos vocês dizem… O indestrutível é minúsculo e tênue como uma sílaba. Você deveria saber disso, sendo feito de sílabas você mesmo.”
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Garuḍa voou de maneira estranha, tomando o maior cuidado para não sacudir o galho, até que seu pai, Kaśyapa, intercedeu junto aos Vālakhilyas, dizendo: “Garuḍa está prestes a realizar um grande feito. Peço-vos que se despeçam dele agora.”
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Garuḍa viu os Vālakhilyas se soltando do galho como pequenas folhas secas e desaparecendo entre as folhas de grama em direção ao Himālaya.
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Kaśyapa contou a história de como Indra, voltando da floresta carregado de toras, viu os Vālakhilyas tentando atravessar uma poça e, rindo, os empurrou de volta com o calcanhar.
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Os Vālakhilyas ofereceram a Kaśyapa metade de seu tapas para que ele gerasse um ser que seria o flagelo de Indra, o arrogante, e Kaśyapa concordou.
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O tapas dos Vālakhilyas fluiu para dentro de Kaśyapa, e Vinatá, sua mãe, sentiu prazer invadindo seus poros enquanto uma glow brilhava sob um colchão de folhas no topo de uma árvore enorme.
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Kaśyapa instruiu Garuḍa a voar para o norte, para uma montanha coberta de gelo e crivada de cavernas, o único lugar onde não havia risco de matar um brâmane, para deixar o galho e finalmente comer o elefante e a tartaruga.
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Enquanto Garuḍa invadia o céu, Indra lançou seu raio, que ricocheteou em suas penas, e Bṛhaspati disse: “Garuḍa não é feito de penas, mas de metros. Você não pode ferir um metro. Garuḍa é gāyatrī e triṣṭubh e jagatī. Garuḍa é o hino.”
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No cume dos céus, Garuḍa encontrou uma roda de metal com raios afiados girando sem cessar e, atrás dela, duas taças de ouro que abriam e fechavam, entre as quais sibilavam duas serpentes.
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Garuḍa conseguiu deslizar entre as lâminas da roda e colocar o bico entre as bordas das duas taças, arrancando o brilho que vislumbrou dentro, em um piscar de olhos.
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Indra tentou impedir Garuḍa e propôs um acordo: que as Serpentes fossem comida de Garuḍa para sempre e que Garuḍa pudesse estudar os Vedas, em troca de ele não deixar que as Serpentes possuíssem o soma.
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As Serpentes formaram um círculo para aguardar o retorno de Garuḍa, que depositou o soma sobre a grama darbha, mas antes que bebessem, ele as aconselhou a tomar um banho purificador.
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Enquanto as Serpentes se dirigiam ao rio, a mão rapina de Indra desceu dos céus e levou o soma, e as Serpentes, ao retornarem, encontraram apenas um local onde a grama estava ligeiramente curvada.
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Rapidamente, elas lamberam a grama darbha onde Garuḍa havia colocado o soma, e a partir desse momento as Serpentes passaram a ter línguas bifurcadas.
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Garuḍa disse a sua mãe: “Mãe, paguei seu resgate. Você está livre agora”, e depois de vagarem juntos, ele se despediu para se esconder entre os galhos da árvore Rauhiṇa e estudar os Vedas.
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Enterrado fundo entre os galhos da árvore Rauhiṇa, Garuḍa leu os Vedas por anos e reconheceu com reverência os nomes dos seres que havia aterrorizado nos céus: os Ādityas, os Vasus, os Rudras, e outros, trinta e três no total.
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Os nomes giravam em silêncio, e Garuḍa experimentou uma sensação de vertigem e intoxicação, com os hinos flamejando dentro dele.
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Ao chegar ao décimo livro do Ṛg Veda, Garuḍa sentiu uma mudança no vento, onde o que era afirmativo tendia ao interrogativo, e a voz que falava era mais remota e não mais celebrava.
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Garuḍa leu o hino cento e vinte e um, no metro triṣṭubh, com nove estrofes, cada uma terminando com a mesma pergunta: “Quem (Ka) é o deus a quem devemos oferecer nosso sacrifício?”, seguido por uma décima estrofe, separada por um espaço ligeiramente maior, com um nome: Prajāpati.
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