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Tábua dos Destinos

ROBERTO CALASSO. LA TAVOLETTA DEI DESTINI. S.l.: ADELPHI, 2020.

  • A tempestade que surpreende Sindbá é diferente de todos os naufrágios anteriores, e o que ele sente não é desânimo, mas uma estranha e ébria temeridade, quase um alívio — pois não apenas perdeu o rumo, mas os próprios pontos cardeais desapareceram.
    • Os naufrágios anteriores serviam a Sindbá como marcos temporais — um evento ocorria antes do terceiro naufrágio, outro após o quinto
    • A última observação exata de Sindbá é justamente a consciência de que não há mais nenhuma orientação possível
    • Sindbá acorda numa tenda, sem saber quanto tempo dormiu — dias ou anos — e percebe no escuro a silhueta imóvel de outro ser adormecido
  • Ao despertar, o outro personagem revela a Sindbá que aquele lugar é a morada de Utnapíshtim, em Dilmun.
    • Utnapíshtim é quem pronuncia as primeiras palavras: “Esta é a morada de Utnapíshtim, em Dilmun”
    • Dilmun é o lugar mítico onde Utnapíshtim habita
    • Utnapíshtim abre os painéis da tenda e uma lâmina de luz deita-se ao lado de Sindbá
  • Utnapíshtim declara conhecer Sindbá sem necessidade de apresentações e oferece-lhe sua presença como ouvinte, não como interlocutor que exige resposta.
    • Utnapíshtim diz: “Eu sei quem você é. Não há necessidade de dizer nada. Se você quiser me ouvir, estarei aqui”
    • Quando Sindbá acorda novamente, tem a impressão de grande clareza, e Utnapíshtim ainda está sentado no banquinho
  • Utnapíshtim inicia sua narrativa reconhecendo o longo silêncio que precede a fala e invoca o costume antigo segundo o qual tudo começa pelos deuses.
    • Utnapíshtim declara: “Estive em silêncio por tanto tempo que não sei por onde começar. Qualquer ponto serviria. Mas o costume antigo determina que tudo comece pelos deuses”
  • No princípio, os deuses caminhavam pela terra e realizavam trabalhos pesados — cavavam valas, erguiam muros, buscavam água — e esse jugo opressivo os dividia entre deuses superiores e inferiores.
    • Os Anunnaki haviam se retirado para os céus, deixando os Igigi a lutar na terra
    • Os Igigi escavaram o leito do Tigre e, cada vez mais exasperados com os montões de terra revolvida, chegaram ao ponto de se armar e atacar o céu
    • Enlil, o guerreiro e conselheiro, foi acordado de sua cama; todas as portas foram trancadas
    • Os Igigi imploraram ajuda de Anu, senhor dos céus, e de Ea, o deus das águas subterrâneas de água doce
    • Enlil chorou por não saber o que fazer; Anu reconheceu que os Igigi tinham razão — suas vidas eram duras demais e seu clamor chegava ao mais alto dos céus
  • Diante da revolta dos Igigi, os deuses compreenderam que precisavam criar substitutos para si mesmos — os homens — e que para isso um deus deveria morrer.
    • Mami, a parteira, poderia misturar argila ao sangue do deus chamado Geshtue
    • Os demais deuses purificar-se-iam três vezes por mês, imersos em água
    • Um espírito penetrou a argila com o sangue de Geshtue, e a argila começou a pulsar
    • A partir de então, o espírito guardava memória do deus ao qual havia pertencido
  • Mami, no aposento do destino ao lado de Ea, amassou a argila tingida de sangue e pronunciou um encantamento, pois já foi outrora uma feiticeira, dando forma aos primeiros homens e mulheres.
    • Mami modelou sete torrões de argila à direita e sete à esquerda, que se tornaram homens e mulheres
    • Um tijolo de barro foi colocado no meio — pois em sua origem tudo começa com tijolos de barro — e cortado ao meio com um pedaço de bambu
    • Os torrões de argila foram dispostos lado a lado; logo, aquelas peças informes começaram a se unir
    • Ishtar observou a cena e ficou satisfeita
  • Ea, protetor de Utnapíshtim, foi quem explicou aos Anunnaki o que deveriam fazer, pronuciando as palavras decisivas que fundam a condição humana.
    • Ea sempre foi o mais previdente; sem ele, os Anunnaki teriam se enredado em conflitos sem fim
    • As palavras essenciais de Ea foram: “Que os homens carreguem o fardo dos deuses!”
    • Essas palavras simples, segundo Utnapíshtim, ainda regem a existência — a de Sindbá inclusive
    • O enunciado expõe apenas o essencial: o fardo e os deuses; todo o resto é supérfluo
  • De Geshtue, cujo nome significa “orelha” e ao qual nenhum feito memorável é atribuído, sabe-se apenas que era considerado inteligente — e talvez por isso tenha sido escolhido para morrer.
    • Geshtue foi morto durante o conselho dos Anunnaki, com todos agindo em conjunto
    • O derramamento de sangue foi coletivo, assim como a purificação posterior nas águas de Ea
    • O ato deveria ocorrer num lugar específico: ao longo do Durmahu — o vínculo, a corda, o eixo que une os céus à terra
    • Utnapíshtim ouviu isso dos sete Apkallu, a Carpa Sagrada, os Sete Sábios de Ea, seus parentes próximos
  • A narrativa sobre os deuses e os fardos serve para iluminar a própria trajetória de Sindbá, que antes de ser o Marinheiro era chamado de Sindbá o Carregador em Bagdá.
    • Sindbá o Carregador passava os dias com pesados fardos sobre a cabeça, transportando mercadorias de um lugar a outro
    • Esse era o todo de sua vida — antes de se tornar Sindbá o Marinheiro
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