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Hinduísmo
BLANCHOT, Maurice. Faux pas. Paris: Gallimard, 1943.
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Ao ler estudos dedicados ao hinduísmo — entre eles o número especial dos Cahiers du Sud, Message actuel de l'Inde —, surpreende a facilidade com que esses textos estabelecem uma ponte entre as formas mais elevadas da espiritualidade hindu e leitores para os quais nada os preparou para esse conhecimento.
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Seguindo essas explicações claras, tem-se a impressão de que a linguagem comporta facilmente segredos incômodos — precisamente aqueles que só se podem conhecer quando a linguagem estoura.
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Não apenas não haveria grandes dificuldades de tradução do sânscrito para as línguas ocidentais, como também as mais elevadas experiências místicas se comunicariam sempre, com surpreendente facilidade, a qualquer leitor razoável.
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Há aí uma falta de prudência cujos inconvenientes escritores certamente sérios não viram em sua totalidade: o desejo de orientar os espíritos para o pensamento hindu os tornou descuidados quanto às dificuldades com que esses espíritos deveriam se deparar com toda a razão para aceder a ele.
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Benjamin Fondane afirma que só se pode encontrar-se desorientado no coração da filosofia índica se também se ignora a alma da filosofia ocidental, suas correntes místicas e suas exigências dilacerantes — mas isso apenas desloca o problema.
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Diante do Mestre Eckhart, de São João da Cruz ou mesmo de Kierkegaard, é natural e necessário que o leitor não se sinta à vontade, mas que perca o controle — que note uma preocupação, a de seu pensamento paradoxalmente afetado e de seu ser tirado de seus trilhos.
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O perigo começa no momento em que se fez crer que se podia captar com facilidade uma disciplina espiritual autêntica: a inteligência inocente é despojada de si mesma pelo ato de compreensão ingênua que crê preenchê-la.
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Nunca se lamentará suficientemente a ausência de advertências destinadas a retirar do leitor as verdades que as exposições bem conduzidas lhe aportam generosamente demais.
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Qualquer comunicação direta de um pensamento que não deva deixar-se compreender diretamente tem um caráter cômico — assemelha-se ao sermão do religioso de que fala Kierkegaard, que pregava por toda parte que não se deve ter discípulos, e era tão eloquente que muitos discípulos o seguiam repetindo: não se deve ter discípulos.
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Quando a razão discursiva entra tranquilamente num âmbito ao qual sua única forma de acesso deveria ser a luta com a contradição e a paixão pela paradoxo, ela capta como serena evidência o fato de ser dispensada, recebe o não-saber como um saber que se formula em termos nítidos e encontra, à beira do abismo, um descanso cheio de encanto.
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Um inconveniente semelhante adquire todo o seu sentido nas páginas em que os colaboradores dos Cahiers du Sud dão a palavra a pensadores hindus contemporâneos com a esperança de que uma síntese Oriente-Ocidente pareça possível.
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Sri Ramakrishna e Vivekananda viram nessa síntese o projeto do futuro — mostrando que a busca da verdade prosseguia, através das diferentes civilizações, sob formas autênticas e que o acesso ao absoluto era universal.
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Dessa aspiração resultou antes de tudo um esforço para colocar ao alcance dos ocidentais uma sabedoria difícil — e o extraordinário vigor sintético do gênio hindu forjou uma imagem do hinduísmo em que o Ocidente pôde tentar reconhecer-se.
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A desgraça é que essa conciliação não tem o sentido que um europeu seria tentado a conceder-lhe: quando o hindu adapta seu vocabulário a determinadas formas ocidentais de raciocínio, não é porque as disciplinas do Ocidente o atraiam, mas porque essa complacência faz parte de sua visão profunda — há nela uma parte de verdade, assim como há tanto no sim quanto no não.
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Onde o leitor ocidental crê ver o andar de um pensamento que se aproxima para tornar-se-lhe mais acessível, encontra-se diante de um movimento que, longe de favorecer a compreensão, é ele mesmo incompreendido — e se torna um novo motivo de mal-entendido.
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As generalidades a que habitualmente recorrem os comentaristas são capazes de inspirar dois sentimentos contrários — e essas reações mostram os limites e os perigos de qualquer apologética de vulgarização.
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De um lado, estudos sobre as experiências místicas da Índia fazem nascer em muitos espíritos um sentimento de simpatia e de admiração: sempre resulta fácil excitar uma curiosidade amigável falando de um país tão admiravelmente dotado e em que a espiritualidade penetrou tão profundamente na vida social.
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De outro lado, esses mesmos comentaristas correm o risco de afastar os espíritos que, ao carregar uma angústia mais penosa, serão ameaçados de ser preenchidos com demasiada facilidade.
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O que os comentaristas mostram é que a espiritualidade hindu triunfou portentosamente — e daí resulta o paradoxo de que a doutrina buscada por uma exigência pessimista total parece desembocar numa concepção estranhamente otimista da vida espiritual, prometendo e oferecendo a segurança definitiva mediante a paciência, o saber e a técnica.
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Acrescenta-se que, no hinduísmo moderno, a preocupação religiosa mais austera e pura está finalmente destinada a servir a reivindicações nacionais e sociais — as que melhor podem obstaculizar a unidade da vida fundada numa consciência comum da existência profunda.
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Os problemas espirituais não podem ser abordados senão com o maior rigor e as precauções mais estritas — e os ocidentais, que conhecem sobretudo a charlataneria, possuem o traço particular de falar sem critério e crer, não obstante, na linguagem.
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O que as palavras lhes aportam tem um sentido definido que reconhecem e que tentam organizar logicamente: diante de qualquer ensinamento místico, nunca se os poderia privar suficientemente de linguagem nem forçar ao silêncio — o único que pode dilacerá-los.
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A lenda contada por Shânkara: interrogado por Vashkalin, Bâhva respondeu “Amigo, aprende a conhecer o Brahman” — e permaneceu silencioso. Vashkalin repetiu sua petição por segunda e terceira vez. Bâhva continuou calado. E ao final disse: “Em verdade, anunciei-te. Mas não queres compreender. Esse atman é: nada se diz, abisma-se no silêncio.”
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