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Linguagem Privativa

SAMUEL FURLANI

  • A narrativa de Samuel Beckett na história Companhia de 1980 explora o paradoxo de Ludwig Wittgenstein segundo o qual a dúvida repousa sobre a certeza, demonstrando que o solipsismo é erodido pela atividade linguística regida por regras mesmo quando parece estar assegurado.
    • A atenção a um mostrador em Mal Visto Mal Dito revela que a descrição do tempo é função do jogo de linguagem em que opera.
    • A conclusão de que a dúvida é certa expõe a contradição fundamental do método de René Descartes ao presumir uma certeza prévia.
    • Ludwig Wittgenstein estabelece em Zettel que apenas quem aprendeu algo com certeza pode começar a duvidar.
    • A certeza do sentido das palavras é condição necessária para a certeza de qualquer fato conforme Sobre a Certeza.
  • Dúvida e certeza constituem conceitos correlatos governados por uma ratificação comunitária implícita sobre o que configura uma reivindicação de conhecimento nas análises de A. C. Grayling.
    • As reivindicações de saber são significativas apenas onde a dúvida é possível.
    • Uma rede estável de crenças tácitas subjaz necessariamente ao ato de duvidar.
  • O fundamento que habilita a dúvida reside na própria linguagem e na imagem do mundo que constitui o pano de fundo para a distinção entre o verdadeiro e o falso.
    • A dúvida segue a crença e encontra um termo final.
    • O sistema de relações não articulado precede o exercício da investigação lógica conforme Sobre a Certeza.
  • O desafio do cético pressupõe a existência da comunidade e de suas práticas linguísticas para que o formato da contestação seja compreensível aos outros.
    • Avrum Stroll explica que as dúvidas do cético são autodestrutivas por pressuporem o que desejam desafiar.
    • O ambiente societal herdado permanece firme como condição da própria dúvida.
  • As obras tardias de Samuel Beckett negam o vazio através de formas de vida que se mostram imunes à negação final apesar das figuras fragmentárias e resíduos verbais.
    • Moran e Malone lamentam a incapacidade de aniquilar a própria existência através da dúvida cartesiana.
    • Persiste um mínimo não anulável que resiste à pretensão de tornar-se nada em Rumo ao Pior.
  • A crença poética além da crença mencionada por Wallace Stevens equivale ao sistema de relações de Ludwig Wittgenstein que ultrapassa a justificação.
    • O sistema de relações garante a coerência da sintaxe elíptica e do léxico comprimido analisados por Ann Banfield.
    • O saco em Mercier e Camier, Como É e Ato sem Palavras II simboliza a necessidade de crer antes da entrada da dúvida.
    • O conhecimento manifesta-se como um modo de agir e não como uma certeza teórica.
  • A tolerância fleumática em relação à dúvida presente nos monólogos de Samuel Beckett encontra respaldo na visão de Ludwig Wittgenstein sobre a sistematicidade dos processos duvidosos.
    • As dúvidas constituem um sistema que não requer justificação adicional conforme Sobre a Certeza.
    • O modo de agir sem fundamento encontra-se na base do jogo de linguagem.
  • A rejeição do ceticismo absoluto não conduz à crença em fundamentos, mas à definição de um campo descritivo autoconsistente.
    • Molloy aceita a ignorância e habita um espaço sem fundamentos verdadeiros sustentado por crenças infundadas.
    • Anthony Kenny e a personagem Moran convergem na aceitação de paradigmas como proposições empíricas fósseis que orientam a investigação.
  • A suspensão da suspeita puritana contra a linguagem resulta em um respeito pela sua vitalidade nos trabalhos tardios de Ludwig Wittgenstein e Samuel Beckett.
    • A transição de Murphy para Companhia marca a passagem do nada para o nada renovado.
    • A manobra semântica do termo anew oscila entre a afirmação e a negação de si mesmo em uma mudança de aspecto gestaltica.
  • A prosa tardia de Samuel Beckett revela que a linguagem mantém companhia mesmo no isolamento através da incorporação beduína das palavras no mundo.
    • A linguagem precede a dúvida e ameaça o solipsismo das personagens.
    • A perpetuação do mundo externo é presumida até nas declarações de anulação.
  • A insinuação da terceira pessoa no texto atua contra o solipsismo ao demonstrar que o solipsista que fala incorre em uma contradição de termos.
    • Ludwig Wittgenstein argumenta que a fala pressupõe um ambiente exterior incompatível com o isolamento radical.
    • A busca de Belacqua pela ipsissimidade em Dream of Fair to Middling Women é frustrada pela atividade linguística.
    • A voz que surge na escuridão em Companhia constitui-se primordialmente como discurso.
  • A obra Como É antecipa a estrutura de Companhia ao apresentar uma voz que conjura companhia no escuro por meio de memórias e murmúrios de autoria própria.
    • O narrador presta atenção a uma história mal inspirada e mal contada.
    • A memória da mãe severa vincula a voz ao passado social.
    • A narrativa oscila entre o reconhecimento da sociedade e a retratação da imaginação.
  • O texto Como É culmina em uma polaridade entre teofania extática e solipsismo desolado ao sugerir a existência de uma inteligência compreensiva.
    • A necessidade de um meio de escrita e de um entendimento externo é apresentada como uma prova lógica.
    • O pressentimento de um demiurgo literário assemelha-se à epifania metaficcional de Krug em Bend Sinister de Vladimir Nabokov.
    • A experiência torna-se universal e compartilhada antes de ser reduzida a uma voz única.
  • A integridade da ficção não é comprometida pela lógica da retratação que caracteriza as figuras de Bom, Pim, Krim e Kram.
    • As personagens tentam fugir da autoridade autoral enquanto a voz arroga para si uma primazia insustentável.
    • As afirmações finais de Ulisses de James Joyce são evocadas de forma paródica para servir à negação.
  • A voz anônima que precede a identidade representa a linguagem como portadora do sistema de relações e pano de fundo de todas as suposições.
    • A homologia entre a condição de autoria e a condição de fala determina a estrutura narrativa.
    • Peter Fifield nota que a afirmação de solidão absoluta é conduzida em uma forma que nega a unidade do narrador sob uma ética da alteridade inspirada em Emmanuel Levinas.
  • A vacilação entre solipsismo e sociedade nunca se fixa em uma posição definitiva mantendo a pluralidade através de citações.
    • O texto Como É constitui um registro de frases proferidas entre aspas terminando no fim da citação.
    • A pluralidade impertinente da fala implica a existência de mentes e ouvidos para compreender o jargão antigo.
  • Ludwig Wittgenstein afirma a impossibilidade de usar a linguagem para sair da linguagem ou para postular estados internos sem uma gramática pública.
    • Tentar capturar a gramática desprevenida é comparado ao esforço inútil de tentar capturar o próprio polegar.
    • O paradigma linguístico impõe uma estrutura prévia a qualquer afirmação ou negação.
  • Companhia configura-se como um monólogo polivocal que orquestra vozes em diversos registros para interrogar o fracasso da imaginação em aliviar o solipsismo.
    • O narrador é incluído na própria invenção para gerar companhia.
    • A fábula narrativa demonstra que a faculdade imaginativa reside em uma linguagem que desafia a clausura do eu.
  • O estado de espírito solipsista prescinde do uso do pronome de primeira pessoa na descrição de experiências pessoais conforme as lições de Ludwig Wittgenstein.
    • O solipsista busca tornar a especificidade pronominal supérflua.
    • O narrador de O Inominável atribui seus problemas à falha dos pronomes e à ausência de um nome.
  • O pronome de primeira pessoa é excluído de Companhia em favor de uma voz onisciente que se dirige ao ouvinte na segunda pessoa.
    • O ouvinte recebe memórias que ele mesmo nega.
    • O desejo de murmurar que se lembra de algo é visto como um acréscimo à companhia através da primeira pessoa do singular.
  • O uso da primeira pessoa singular gera companhia ao abolir a tautologia da notação solipsista e a monopolização do ego.
    • Ludwig Wittgenstein explica que o solipsista busca o desaparecimento do ego e não o seu monopólio.
    • O ego sem oposição torna-se a única medida e corroboração do real conforme as Investigações.
  • O termo eu é interpretado como um símbolo de uso prático e não como um designador de pessoa ou lugar na filosofia de Ludwig Wittgenstein.
    • O pronome poderia ser descartado na fala prática se não fosse necessário para fins comunicativos.
    • A utilização do eu como ponto de partida filosófico é atribuída a René Descartes e criticada como um equívoco gramatical.
  • O narrador de Companhia falha em convocar seu próprio isolamento ao gerar um mundo habitado sob seu domínio exclusivo.
    • A fantasia central da obra reside na ausência de companhia que é desmentida pela inclusão de memórias de pais e amantes.
    • A solidão é uma condição autoeleita e comprometida semelhante ao isolamento praticado em Eleutheria.
  • A linguagem é coextensiva à experiência e os limites do mundo coincidem com os limites da linguagem conforme o Tractatus de Ludwig Wittgenstein.
    • Ingeborg Bachmann examina a passagem sobre a impossibilidade de fugir do poder da linguagem.
    • O silêncio é o refúgio elusivo enquanto a fala persiste além da exaustão em um acordo de vozes.
  • A recordação da infância no jardim revela que o isolamento da personagem é fruto de um estratagema e não de um ostracismo imposto.
    • O isolamento do filho atrás de um arbusto ilustra um padrão de retirada voluntária das relações.
    • O medo da imersão social inibe o mergulho na água apesar da disposição para a queda física do topo de um abeto.
  • O episódio do ouriço em Companhia funciona como uma projeção de autocompaixão e uma demonstração de falsa segurança.
    • O abrigo oferecido ao animal resulta em morte por negligência e odor de decomposição.
    • O confinamento do ouriço espelha a estratégia do protagonista de controlar interações como cenários de vitimização.
  • As associações facetas com o Satã de John Milton em Paraíso Perdido apresentam um solipsista que tenta exercer autoridade na escuridão visível.
    • A queda e a subsequente desobediência evocam temas de reprovação materna e tentação paterna.
    • O narrador deseja comandar todos os elementos da narrativa incluindo a própria impotência através de imperativos impessoais.
  • A linguagem fornece ao concebedor os meios para estabelecer entidades exteriores prévias inserindo-o em uma rede de relações através de indicadores de segunda e terceira pessoa.
    • A condição da narrativa é inalterável apesar da plasticidade das situações inventadas.
    • A fala pública submete o falante a códigos coletivos e suas consequências inevitáveis.
  • A omissão da primeira pessoa singular não impede a presença do outro cancroso que dissipa a miragem do isolamento solipsista.
    • O solipsismo levado a cabo coincide com o realismo puro conforme o Tractatus de Ludwig Wittgenstein.
    • Bertrand Russell elucida que o sujeito metafísico é um limite do mundo e não parte dele conforme notas de Dirk Van Hulle e Mark Nixon.
    • O outro assegura objetivamente a existência da companhia contra a reclusão da consciência.
  • As oscilações pronominais são manobras sintáticas que dependem de um mundo antecedente à primeira pessoa conforme demonstra Gottlob Frege.
    • A prioridade da terceira pessoa é a garantia do discurso e da constituição do próprio eu.
    • A linguagem não apenas torna a companhia possível mas efetivamente a produz.
  • O reconhecimento da companhia indesejada culmina na segunda trilogia onde a fala habita as sombras e as mãos aleijadas.
    • Ludwig Wittgenstein substitui a ênfase de René Descartes no eu pela prioridade do coletivo dentro da própria linguagem.
    • O eu é considerado um mistério profundo que não se configura como um objeto nos Diários de 1914-1916.
  • O ataque de Ludwig Wittgenstein às linguagens privadas refuta a interioridade cartesiana ao estabelecer que a referência é necessariamente pública.
    • As palavras seriam ininteligíveis se as sensações fossem puramente privadas e inacessíveis.
    • A forma de vida compartilhada coletivamente torna a experiência possível e impede o sentido de qualquer dúvida fundamental.
  • O acervo de Samuel Beckett continha diversos textos sobre o argumento da linguagem privada incluindo ensaios de Newton Garver e David Pole.
    • David Pole enfatiza que as perplexidades filosóficas surgem de analogias linguísticas falsas entre a experiência e os objetos públicos.
    • O dualismo entre mente e corpo é interpretado como um erro derivado da aplicação de uma gramática inadequada à vida mental.
    • A linguagem da experiência privada é aprendida em contexto social como parte de um sistema público maior.
  • A mente é caracterizada como uma metáfora cujo significado reside em seu uso na linguagem tornando o cogito um conceito ocioso e sem trabalho útil.
    • Fritz Mauthner refuta o dualismo por considerar que o cisma mental não possui base a priori.
    • É insensato imaginar que a vida é um sonho pois tal afirmação exigiria que as próprias palavras tivessem sentido conforme Sobre a Certeza.
  • O ataque aos critérios epistêmicos da primeira pessoa não erradica a certeza mas a desloca para a terceira pessoa fundamentada em uma imagem do mundo coletiva.
    • Roger Scruton observa que a filosofia wittgensteiniana remove o eu do início do conhecimento para devolvê-lo de forma enriquecida ao final.
    • A linguagem arbitra entre o verdadeiro e o falso sem necessidade de observação direta.
  • O deslocamento e a reintegração do eu são pervasivos em Samuel Beckett apesar da resistência de seus narradores em relação aos outros sem número.
    • As afirmações de origem solipsista são retratadas em Rumo ao Pior em favor de uma visão coletiva de figuras humanas.
    • O singular cede lugar ao coletivo que origina os próprios termos da singularidade.
  • A presença de outros sem número insere o concebedor de Companhia em uma lógica de mutualidade e recepção pronominal.
    • É rejeitada a doutrina de Émile Benveniste que define a terceira pessoa como uma não-pessoa sem subjetividade.
    • A terceira pessoa é a condição prévia para qualquer afirmação de identidade ou alteridade segundo Ludwig Wittgenstein.
  • A supremacia da palavra sozinho no encerramento de Companhia é contestada pela própria fábula que depende da materialidade do livro impresso e distribuído.
    • A atitude do falante conflita com o status real da narrativa como compartilhamento linguístico público.
    • O isolamento tipográfico não apaga a presença impertinente da fala coletiva.
  • A pluralidade impertinente da fala constitui fonte de sofrimento para as personagens embora a linguagem permaneça como o único acesso ao real fora das hipóteses de adequação.
    • O mau dizer constitui a essência da linguagem ao desafiar a autoridade do dito conforme Alain Badiou.
    • As palavras quase ringues e ringues verdadeiros desafiam a inanidade através da persistência verbal.
  • O pensamento não possui acesso ao obscuro absoluto conforme a leitura que Alain Badiou realiza de Rumo ao Pior.
    • A linguagem participa exclusivamente da capacidade do mínimo e não do nada.
    • O vazio é afastado pela autoprescrição do dizer governado por suas próprias regras.
  • Samuel Beckett apresenta uma maturação do programa do Um para o tema do Dois que abre espaço para o infinito e o acaso.
    • A oscilação em Companhia constitui um princípio de abertura para o encontro e a alteridade.
    • A falha e o sucesso são sustentados indiferentemente na segunda metade da obra beckettiana.
  • O acesso redentor à alteridade em Companhia abre espaço para o infinito multiplicity do mundo através do amor na interpretação de Alain Badiou.
    • Alberto Toscano e Nina Power explicam que o Um solipsista não possui recursos para escapar de si mesmo sem o encontro amoroso.
    • Ludwig Wittgenstein contesta a noção de infinito como uma entidade nomeável tratando-a como uma cifra com uso linguístico específico.
    • Alain Badiou dirige críticas severas a Wittgenstein classificando-o como um antifilósofo.
  • Os textos tardios apresentam o outro como uma figura fantasmagórica ou uma simples projeção do eu contrariando as leituras redentoras.
    • Graley Herren observa que a promessa de amor funciona apenas como um beco de fuga de volta para a mente.
    • Simon Critchley nota a ausência de um heroísmo militante em personagens anti-heroicos rebitados ao solo.
  • A linguagem patrocina a alteridade em Samuel Beckett de forma mais decisiva que a mutualidade afetiva conforme se observa no texto Chega.
    • A itinerância compartilhada é apresentada sem sentimentalismo assemelhando-se à obra de Charles Dickens.
    • A figura do pai em Companhia transita de companheiro silencioso para uma vacância absoluta.
    • Alain Badiou é criticado por aplicar um misticismo numérico neopitagórico à leitura de Beckett.
  • A posição do sujeito coletivo garantida pela linguagem limita o solipsismo dos narradores embora lhes negue uma voz autenticadora de si mesmos segundo Elizabeth Barry.
    • Samuel Beckett compartilha o idealismo da primeira pessoa do plural descrito por Bernard Williams.
    • O desejo de livrar-se de uma subjetividade plural manifesta-se no esforço de Companhia.
  • A proximidade com a palavra inane reflete uma nova estima pelo meio verbal que ganha expressividade através do rigor e da concentração.
    • As palavras resistem à inanidade e soam como quase verdadeiras em Rumo ao Pior.
    • O progresso em direção ao fim é mediado pela vitalidade do meio linguístico.
  • A linguagem de Samuel Beckett captura os depósitos deixados pelo ser ao encriptar a pluralidade e permitir a brecha na existência.
    • O evento da fala constitui a afronta definitiva ao solipsismo.
    • Alain Badiou busca abstrações éticas que a linguagem beckettiana desdenha e Ludwig Wittgenstein nega.
  • O pathos do isolamento em Companhia assemelha-se à prostração de Malone ao conceber narrativas para matar o tempo sob o signo do consolo.
    • O uso do pronome impessoal one em inglês e on em francês unifica o singular e o coletivo em um consenso paradoxal.
    • A isolação tipográfica da palavra final contém a voz que surge na escuridão.
  • Samuel Beckett segue o caminho wittgensteiniano para superar o impasse de O Inominável onde a linguagem aliena o narrador ao constituí-lo.
    • A mutualidade inveterada da fala abole a base ontológica do solipsismo e gera encontros multiplicados.
    • Ludwig Wittgenstein afirma que não fala consigo mesmo aquele que fala sozinho na ausência de outrem.
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