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Descrição e Interpretação

SAMUEL FURLANI

  • A ars poetica Hommage à Jack B. Yeats, publicada por Samuel Beckett em 1954 e traduzida para o catálogo de James White, reafirma a proibição do Tractatus de Ludwig Wittgenstein ao proclamar que a grande arte torna a interpretação uma atividade supérflua e presunçosa.
    • A imediatez das imagens não concede ocasião para o lenitivo do comentário.
    • O real interior une fantasmas e vácuo em um testemunho único submetido ao que não pode ser dominado.
    • O reconhecimento do espanto exige apenas o ato de curvar-se em admiração.
  • O imperativo de curvar-se diante do que não se pode falar estabelece Samuel Beckett como um opositor da insistência interpretativa sobre o que está à vista ou indisponível, em convergência com o rigor de Ludwig Wittgenstein.
    • A arte oferece um caminho especial para o que está além da visão.
    • A interpretação pode ser vista como um remédio, mas não é considerada um processo inexorável ou sempre desejável.
  • A divergência em relação ao pós-estruturalismo de Jacques Derrida e ao neopragmatismo evidencia que, para Ludwig Wittgenstein, nenhum signo isolado ou suplementar determina o significado por si mesmo sem o suporte do contexto.
    • Toda interpretação permanece suspensa junto com o que é interpretado sem lhe servir de apoio.
    • Martin Stone observa que o comportamento que envolve signos não pode ser dissociado das circunstâncias circundantes.
    • A abstração de considerar signos independentemente das respostas naturais ou atividades práticas é rejeitada em favor da função social.
  • O significado nas Investigações de Ludwig Wittgenstein encontra-se vinculado a critérios externos e práticas sociais ordinárias, o que contrasta com a visão de Jacques Derrida sobre a obscuridade desses acordos.
    • A interpretação é reservada para casos excepcionais e não como fundamento constante da linguagem.
    • O pós-estruturalista identifica a dúvida como possibilidade necessária por isolar o signo de sua circulação em uma forma de vida.
    • As formas de vida representam o dado aceitável onde a interpretação chega ao fim, conforme notado por Stanley Cavell em ensaio pertencente a Samuel Beckett.
  • O contato de Samuel Beckett com a resposta ao ceticismo cartesiano ocorreu por meio das obras de David Pole e Norman Malcolm, do ensaio de Stanley Cavell e de Paul Feyerabend, além das próprias Investigações de Ludwig Wittgenstein.
    • David Pole enfatiza a refutação da demanda por justificação racional.
    • As atitudes humanas estão incorporadas na gramática da linguagem e definem os limites do discurso.
    • A aceitação de uma forma de vida é o limite além do qual não se pode passar.
    • Certas proposições pertencem a um quadro de referência essencial para a capacidade de julgamento.
  • A exaustão das justificativas conduz ao estrato rochoso onde a pá da investigação se dobra e a ação se impõe como o modo próprio de proceder, uma postura compartilhada por Ludwig Wittgenstein e Samuel Beckett.
    • Stanley Cavell destaca a inclinação a dizer que é assim que se age quando as justificativas terminam.
    • Samuel Beckett expressa a Mary Manning Howe o fim da tentação da luz e da transformação da consciência em opiniões.
  • A expectativa e a surpresa ocorrem dentro de uma cadeia de razões que inevitavelmente encontra seu termo nas Investigações de Ludwig Wittgenstein.
    • David Pole elucida que desafiar uma crença particular é distinto de desafiar a prática que define todo o sistema de atividades.
    • O oferecimento de razões deve cessar diante do padrão de atividades propriamente dito.
  • A interrupção da explicação nas anotações de Zettel de Ludwig Wittgenstein permite que a prática continue legitimamente mesmo sem uma base passível de verificação.
    • A impossibilidade de prosseguir é confrontada com a vontade de prosseguir.
    • Uma contradição ou erro não impede o acesso aos fatos, sendo o erro definido apenas dentro de um sistema ou jogo particular.
    • Samuel Beckett apresenta uma representação fleumática da justificação exausta como complemento a essa visão.
  • A execução de uma interpretação, termo ironizado em Watt de Samuel Beckett, depende de uma competência no seguimento de regras que se manifesta em um consenso de ação e não de opinião.
    • Apreender uma regra não constitui uma interpretação, mas um agir de modo idêntico.
    • Ludwig Wittgenstein afirma que o consenso é de fazer a mesma coisa e reagir da mesma maneira.
    • O fenômeno da linguagem repousa na concordância no agir, em contraste com o apelo ao consenso de Charles Sanders Peirce.
  • O fundamento da justificação da evidência termina no agir humano que serve de base para o jogo de linguagem, conforme exposto em Sobre a Certeza de Ludwig Wittgenstein.
    • O fim da justificação não é a percepção imediata de proposições como verdadeiras.
    • A ação é o elemento primordial que sustenta a estrutura linguística.
  • O acordo entre os seres humanos não reside nas opiniões, mas nas formas de vida que englobam toda uma cultura dentro de um jogo de linguagem, segundo Ludwig Wittgenstein e as leituras de David Pole.
    • Stanley Cavell observa que as regras operam sem fundamentos, baseando-se no acordo com as formas de vida.
    • A capacidade de projetar palavras em novos contextos decorre do compartilhamento de interesses, sentimentos e modos de resposta.
    • A fala e a atividade humana repousam sobre o turbilhão do organismo que compõe a comunidade e a sanidade.
  • A interpretação deve ser compreendida como uma atividade especial interna à linguagem e não como seu fundamento, conforme a análise de Robert Fogelin sobre o pensamento de Ludwig Wittgenstein.
    • A necessidade de um intermediário mental interpretativo defendida por Jacques Derrida não é compulsória.
    • O regresso infinito da interpretação permanece vinculado a noções de garantias metafísicas.
  • A dificuldade filosófica consiste em reconhecer o solo que está diante dos olhos como o próprio fundamento em vez de buscar profundidades ilusórias nas palavras de Ludwig Wittgenstein.
    • O solo projeta a ilusão de uma profundidade maior que reconduz ao nível antigo.
    • A aflição humana reside no desejo persistente de explicar.
  • O defactoismo identificado por Robert Fogelin em Ludwig Wittgenstein é compartilhado por Samuel Beckett como um desafio à legitimidade da empresa filosófica tradicional.
    • Samuel Beckett descreve seu trabalho a Lawrence Harvey como uma submissão completa e não como uma revolta ativa.
    • A ação de não lutar é proposta a Georges Duthuit como uma forma de realizar algo.
  • A valorização da aceitação manifesta-se no elogio de Samuel Beckett à pintura dos irmãos van Velde e à obra de Jack Yeats, buscando um quietismo fundamentado em diversas tradições filosóficas.
    • O desapego e a aceitação estão além da tragédia segundo a correspondência a Cissie Sinclair.
    • Referências a Epicteto, Geulincx, Tomás à Kempis, Arthur Schopenhauer e Franz Grillparzer compõem a base para esse quietismo.
    • A poesia de Thomas MacGreevy é recomendada por seu caráter quietista.
  • A experiência de Samuel Beckett na Alemanha durante o regime nazista reforçou seu desdém pela elucidação generalizada, privilegiando a exposição de dados factuais em seus diários.
    • O interesse reside no caos individual e nos nomes, datas e mortes, conforme registrado por Mark Nixon.
    • O defactoismo une melancolia e resistência nas observações de Andrew Gibson.
  • A abordagem anti-hermenêutica de Ludwig Wittgenstein diverge da teoria de Jacques Derrida, na qual a interpretação é constitutiva e o entendimento é extraído de uma possibilidade ilimitada.
    • A desconstrução sustenta que o real só é acessível por meio de uma experiência interpretativa.
    • A dramaturgia de Samuel Beckett recupera a superfície não problemática que a filosofia de Wittgenstein busca resgatar.
  • As obras de Ludwig Wittgenstein permitem mensurar como o sentido em Samuel Beckett está vinculado a comportamentos convergentes de uma forma de vida, em oposição à ideia de uma literatura de exaustão proposta por John Barth.
    • A arte de Beckett é de justificação exausta e esforço concentrado para deixar uma mancha contra o silêncio.
    • O conselho a Robert Pinget após uma audição de Franz Schubert e Wilhelm Müller, interpretada por Dietrich Fischer-Dieskau, é o de cantar o próprio desespero.
    • O indizível permanece como um limite inexorável, mas há a esperança de narrar histórias em um mundo habitável.
  • A transição na obra de Samuel Beckett no final dos anos cinquenta é identificada por Alain Badiou, embora este último imponha conceitos morais e neoplatônicos que não condizem com a natureza dos personagens beckettianos.
    • Alain Badiou desconsidera a contribuição de Ludwig Wittgenstein devido ao seu antagonismo ao pensador.
    • O interesse documentado de Samuel Beckett por Wittgenstein a partir de 1958 impulsionou partidas estilísticas audaciosas em sua fase final.
  • O desenvolvimento recente nos estudos beckettianos, segundo Dirk Van Hulle, ocorre pela visão complementar entre abordagens filosóficas e históricas.
    • A abordagem wittgensteiniana implica uma perspectiva histórica necessária.
    • Samuel Beckett pertence à primeira geração de leitores tanto da filosofia tardia de Ludwig Wittgenstein quanto de seus primeiros comentaristas.
  • A escrita de Samuel Beckett no pós-guerra assume o caráter de um fato injustificável e sem precedentes, conforme observa Alan Jenkins.
    • A busca por uma pintura que não procure justificar sua necessidade é expressa em carta a Georges Duthuit.
    • Emilie Morin ressalta que a percepção das peças de Beckett não pode ser dissociada do insight filosófico.
    • O estudo examina a afinidade conceitual e sucessiva entre o pensamento de Ludwig Wittgenstein e a imaginação dramática de Samuel Beckett.
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