baudelaire:paul-arnold-hermes-cosmos-2

ANALOGIA UNIVERSAL ENTRE O UNO E O MÚLTIPLO

VOUGA, Daniel. Baudelaire et Joseph de Maistre. Paris: J. Corti, 1957

  • A distinção entre mundo da matéria e mundo do espírito, com o elo entre os dois mundos subsistindo apesar da degradação, é o ponto de partida maistrano que enquadra o idealismo de Baudelaire.
    • Maistre proclama Platão como seu filósofo e assenta a verdadeira realidade no mundo do espírito.
    • O elo entre os dois mundos persiste graças à parcela do divino que o homem conserva por ter sido criado à imagem de Deus.
  • As declarações de Baudelaire sobre cosmogonia e antropologia são fragmentárias, contraditórias entre si e acessíveis apenas pela imaginação, o que proíbe atribuir-lhe qualquer teoria sistemática sobre o sistema do mundo.
    • A carta a Toussenel sugere que animais repugnantes seriam corporificações dos maus pensamentos do homem.
    • A carta a Poulet-Malassis propõe a harmonia eterna pela luta eterna, inconciliável com a visão anterior.
    • A imaginação é, para Baudelaire, a faculdade mais científica por compreender a analogia universal e as correspondências.
    • A defesa de Joseph de Maistre, chamado grande gênio e voyant, aparece precisamente na carta mais citada para imputar ao poeta teorias diversas.
  • As perspectivas imaginativas de Baudelaire permanecem paralelas à linha traçada por Maistre, e todas as alusões antropológicas do poeta remetem às Soirées de Saint-Pétersbourg, não ao catolicismo nem a textos esotéricos.
    • A nota de Mon Coeur mis à nu sobre uma religião universal feita para os alquimistas do pensamento e o homem como mémento divin só se esclarece pela referência às Soirées.
    • A interpretação de Crépet-Blin, que oscila entre o homem como inventor dos deuses e como abreviação do criador, é rejeitada por ser incompatível com o pensamento de Baudelaire.
    • Rolland de Renéville invoca Swedenborg e o homem-microcosmo, mas o texto baudelairiano cita expressamente Chateaubriand, Maistre e os alexandrinos.
    • A religião universal em Baudelaire, como em Maistre, é a crença na degradação do homem, artigo de fé do neoplatonismo alexandrino, o que explica a presença de Chateaubriand na lista.
  • O homem é mémento divin porque participa ainda, por mínimo que seja, da eternidade divina e porque sua situação atual o adverte a reconhecer em si a potência da Providência, em plena fidelidade a Maistre.
    • Baudelaire considera que cada homem é a representação da história e o diminutivo de todo o mundo.
    • A história vista por Maistre é história de uma decadência, mas também atesta uma origem única e um parentesco incontestável fundado no princípio absoluto.
    • A crença na unidade primeira percorre toda a obra, do Salon de 1846 à carta a Poulet-Malassis.
  • A nota sobre progresso, liberdade e fatalidade em Mon Coeur mis à nu só encontra elucidação adequada em Maistre, que fornece a chave ao substituir fatalidade por Providência e ao mostrar que a liberdade humana pode coincidir com o desígnio divino.
    • A hipótese do progresso real pressupõe que todos os indivíduos queiram criá-lo, o que permanece puramente teórico.
    • A identidade entre liberdade e fatalidade resume a tese das Soirées, que estabelece simultaneamente o livre exercício da vontade divina e o exercício, menos livre, da liberdade humana.
    • A comparação de Maistre com o homem lançado num rio que deve nadar mas é carregado pela corrente expressa exatamente o que Baudelaire chama de história, o tempo humano inaugurado pela Queda.
    • Vigny utiliza a mesma imagem em Les Destinées, embora com sentido diverso, pois a liberdade do nadador de Vigny é apenas ilusão.
    • O progresso verdadeiro, para Maistre e Baudelaire, consiste em querer regressar à Unidade perdida, e só nesse caso a liberdade humana se acorda com a Providência.
  • O fragmento teológico sobre a Queda como passagem da unidade à dualidade não exprime o pensamento de Baudelaire, mas a inanidade dos raciocínios teológicos diante do Mistério.
    • O tom rationaliste, quase voltairiano, é estranho à voz habitual de Baudelaire quando fala de Deus.
    • A crença na Unidade perdida está no centro do pensamento de Baudelaire como está no de Maistre.
    • A dualidade, nos termos do Salon de 1846, é consequência da unidade, não seu contrário, pois designa a multiplicidade das criaturas e não um princípio de oposição ao Um.
    • A acusação de maniqueísmo é refutada pela distinção maistriana: o erro maniqueísta consiste em crer que os dois princípios são iguais, o que nem Maistre nem Baudelaire jamais sustentaram.
    • O Satã das Litanies é consolador da humanidade e figura prometeica de devoção, não encarnação de um poder divino rival.
  • As duas postulações simultâneas em direção a Deus e em direção a Satã definem a ambiguidade humana tal como Maistre a herdara de Pascal, sem que isso implique dualismo ou desdobramento de naturezas.
    • A passagem sobre Tannhäuser apresenta a luta dos dois princípios no coração humano, mas a pátria verdadeira da humanidade é Deus, não o reino de Lúcifer.
    • O mal reduz-se às concupiscências da carne, e a vitória do Chant des Pèlerins sobre o canto da carne expressa o cristianismo de Maistre: a natureza verdadeira, anterior ao Pecado original, ignorava o dualismo.
    • A simultaneidade das postulações, e não sua alternância, é o ponto decisivo: o homem não escolhe entre dois polos, pois o estado humano é uno mas decaído, como fruto atingido pelo mofo.
    • O riso é satânico porque é essencialmente humano, signo de grandeza infinita e de miséria infinita ao mesmo tempo, e o satanismo é a condição mesma do homem, não um ato de revolta deliberado.
    • Camus observa que Baudelaire era demasiado teólogo para ser verdadeiramente revoltado, o que se confirma pela dívida com as ideias teológicas de Maistre.
  • O idealismo de Baudelaire, incluindo a crença no elo dos dois mundos, deve-se a Maistre tanto quanto a Swedenborg, Fourier ou Hoffmann, fontes que apenas confirmam o que Baudelaire já sabia.
    • A moral dos Paradis artificiels proíbe ao homem romper o equilíbrio de suas faculdades com os meios onde estão destinadas a mover-se, em exata conformidade com Maistre.
    • A revelação total só pode vir além da morte, como atestam Le Voyage e La Mort des artistes.
    • Poe e Baudelaire convergem ao afirmar que os esforços para elevar-se acima da natureza humana fazem o homem recair mais abaixo.
  • A arte nasce da ausência do paraíso mas também da lembrança do paraíso, e a sede insaciável pelo além é a prova mais viva da imortalidade da alma.
    • As lágrimas provocadas pelo poema esquisito não testemunham excesso de gozo, mas melancolia irritada de uma natureza exilada no imperfeito.
    • Os phares, de Delacroix a Goya, provam a dignidade humana não pela excelência formal de suas obras, mas pela presença mesma de suas exigências espirituais.
    • O poema e a música traduzem, decifram e exprimem o mistério da vida com obscuridade indispensável, pois os objetos da criação nunca perdem sua atitude misteriosa.
    • A imaginação é faculdade quase divina que percebe os relacionamentos íntimos e secretos das coisas, as correspondências e as analogias, mas permanece ligada à sensação e à matéria.
  • Existem momentos privilegiados de felicidade e clarividência que não dependem da vontade humana, e a faculdade de vivê-los define em profundidade o romantismo como graça celeste ou infernal.
    • A Providência elege arbitrariamente os artistas como elege as nações ou certos indivíduos, atribuindo-lhes uma fatalidade que os distingue dos simples dotados de altas qualidades.
    • O pensamento profundo de Baudelaire não reside nas provocações escandalizantes, mas na afirmação de que o ser humano pode tirar gozos novos e sutis mesmo da dor, da catástrofe e da fatalidade.
    • A embriaguez religiosa das grandes cidades resolve a contradição entre solidão e multidão no plano superior do número maistrano, onde as oposições são suplantadas por uma solidariedade que tende à unidade.
  • Baudelaire se considerou um eleito da Providência, isto é, uma vítima expiatória, e esse sentimento íntimo e quase inconfessável justifica tanto seus insucessos quanto seu orgulho, bem como o poema Bénédiction que abre intencionalmente as Fleurs du Mal.
    • A imagem convencional de Baudelaire como vítima incompreendida pela sociedade é falsa: trata-se de vítima expiatória que sofre pelos outros, à maneira que Maistre lhe ensinou.
    • As explosões de ódio e desprezo pelo gênero humano nas cartas tardias testemunham cólera e despeito contra si mesmo, além de uma surda angústia de morrer antes de cumprir o que tinha a fazer.
    • Poe e Alphonse Rabbe forneceram a Baudelaire a justificativa de suas irritações: a sensibilidade exigente transforma-se em disposições opostas quando privada da gratidão esperada.
    • A solidão metafísica de Baudelaire é a do exilado sobre a terra, não apenas a do incompreendido entre os homens.
  • A teoria da pena de morte como aplicação de um meio material a um fim espiritual, herdada das Soirées, vincula-se à ideia de sacrifício voluntário e de santidade passiva da vítima consciente.
    • A pena de morte perfeita requer o assentimento e a alegria da vítima, pois só assim o sacrifício salva espiritualmente a sociedade e o culpado.
    • O dandy, pela vida que se impõe, oferece-se também em sacrifício propiciatório e expiatório, sendo simultaneamente sacerdote e vítima do espiritualismo que confina à religião.
    • A nota elíptica dos Póstumos identifica dandies, teoria do sacrifício e legitimação da pena de morte, exigindo o sponte sua da vítima para a perfeição do sacrifício.
  • A prostituição, no vocabulário baudelairiano iluminado por Maistre, designa o dom consciente de si aos outros, o amor fundado na caridade, e é o fundamento tanto do amor divino quanto da criação artística.
    • Deus é o ser mais prostituído por ser o amigo supremo de cada indivíduo e o reservatório comum e inesgotável do amor, sem qualquer intenção blasfematória.
    • A simples necessidade de amar responde ao desejo de esquecer o próprio eu na carne exterior, enquanto o artista permanece uno e se prostitui de maneira particular, dando-se conscientemente a todos.
    • A santa prostituição da alma nos Les Foules é poesia e caridade, comparável à devoção dos fundadores de colônias, pastores de povos e missionários.
    • O grande homem vence sua nação não por humilhá-la, mas por assumir a miséria de todos, e sua glória consiste em permanecer uno enquanto se prostitui, o que define a apoteose do poeta sagrado em L'Imprévu.
baudelaire/paul-arnold-hermes-cosmos-2.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki