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AGITAÇÃO DO ESPÍRITO NO MAL

VOUGA, Daniel. Baudelaire et Joseph de Maistre. Paris: J. Corti, 1957

  • O dandismo, tal como Baudelaire o concebe ao mencionar Joseph de Maistre entre os dandis literários, não é excentricidade de aparência, mas disciplina moral rigorosa fundada na distinção aristocrática do espírito.
    • O capítulo IX do estudo sobre Constantin Guys define o dandismo como controle severo sobre si mesmo, não como ostentação.
    • A perfeição da toilette reside na simplicidade absoluta, e o dandy quer se distinguir não por extravagância, mas por superioridade moral.
    • O dandismo é uma morale.
  • O desprezo pelos homens, presente em Baudelaire como em Maistre, não é o elemento central da moral do dandy, sendo antes um despeito decorrente da decepção com as laideurs da humanidade.
    • O desprezo se conjuga com o sentimento maisteriano de que a superioridade choca tanto o que se assemelha a ela quanto o que não se assemelha.
    • A análise da euforia de 1848 em Mon Coeur mis à nu revela que o herói recusa como ilegítimo o prazer natural da destruição, coerente com a moral do dandy.
    • Os clamores de ódio multiplicam-se sobretudo nos anos de Bruxelas, explicáveis pela amargura doentia desse período, e o cinismo agressivo é tratado pelo próprio Baudelaire como enfantillage.
    • A preface vingativa projetada para Les Fleurs du mal é chamada por ele mesmo de bouffonnerie, pois apenas a veemência é bufonesca, não o sentimento nem a cólera.
    • A moral do dandy é feita de despeito e de decepção, não de mépris, e implica mais piedade do que indiferença diante do povo que se quer fustigar.
  • René e Obermann haviam formulado antes de Baudelaire o tema da repugnância pelo mundo real e da aspiração a outro mundo, mas sem conseguir justificar ou precisar esses sentimentos.
    • René declara encontrar limites em toda parte e não atribuir valor ao que é finito.
    • Obermann descreve a sensação de vegetar num lugar de exílio e de fixar o coração carregado de tédio numa pátria imaginária.
    • Essas questões não encontravam outra resposta que o ennui irremediável, pois o recuso do mundo e o desejo de evasão não conduzem a lugar nenhum.
    • Senancour encontra sua delectatio amarga num caminho que não vai a parte alguma, sintoma de que os termos das questões estavam mal formulados e substituídos por belas fórmulas e atitudes patéticas.
  • Joseph de Maistre ensina Baudelaire a justificar e precisar os desgostos e as aspirações românticas, fornecendo-lhes seu verdadeiro sentido: a queda, o pecado original e a degradação voluntária da humanidade.
    • Baudelaire e Maistre sabem por que a multidão é um deserto de homens: porque, decaída, perdeu sua dignidade e, covarde e preguiçosa, quer esquecer que perdeu algo.
    • A puissance morte, brute, immonde de Senancour é identificada por Baudelaire, a partir de Maistre, com a matéria manchada pelo pecado original.
    • O trecho em que Baudelaire expõe essas ideias com mais extensão está colocado sob a invocação de Maistre, qualificado de soldat animé de l'esprit saint, em De l'essence du rire.
    • A insistência sobre a perversidade primordial do homem, a propósito de Poe, e a menção ao impeccable Joseph de Maistre nas Notas nouvelles sur Edgar Poe confirmam a filiação.
  • A convicção sobre o pecado original leva Baudelaire, como Maistre, a uma opinião severa sobre o século XVIII e à recusa do Progresso.
    • A negação do pecado original é apontada por Baudelaire como responsável pelo aveuglement geral do século XVIII.
    • Para ambos, o progresso material significa dominação progressiva da matéria, o contrário de um progresso verdadeiro.
    • A verdadeira civilização, para Baudelaire, consiste na diminuição dos traços do pecado original, não no gás, no vapor ou nas mesas girantes.
    • A oposição ao progresso não é reação contra as utopias de Saint-Simon ou Victor Hugo apenas, mas protesto contra o humanismo inteiro, que finge esquecer que todos nascemos marcados para o mal.
    • Essa reprovação engloba o otimismo científico do século XVIII, o otimismo humanitário do século XIX e a corrente burguesa encarnada em Molière e Voltaire.
  • Ao progresso fraternal ilusório, Baudelaire opõe um progresso possível, embora ideal, que é exclusivamente moral e individual.
    • O progresso fraternitaire é caracterizado como doutrina de preguiçosos, que contam com o vizinho para fazer seu trabalho.
    • O único progresso legítimo exigiria que cada indivíduo quisesse criá-lo em si mesmo.
    • Esse progresso individual remete de volta ao dandy e à sua moral.
  • O dandy, por mais que queira se distinguir, não pode escapar ao pecado nem ao desgosto de si mesmo, pois a carne contamina tudo, inclusive o amor.
    • O verso de Un Voyage à Cythère, pedindo força para contemplar o próprio coração e corpo sem desgosto, resume um acento constante em Baudelaire.
    • A frase sobre a vida feita de cóleras é completada pela confissão do mécontentement de soi-même como seu elemento mais profundo.
    • A tentativa de amar puramente é condenada ao fracasso, como mostram a carta a Marie Daubrun e a tentativa desesperada junto a Mme Sabatier.
  • Diante da impossibilidade do amor puro, Baudelaire oscila entre duas atitudes em relação à mulher: tratá-la como bel animal, reduzindo-a a ser incompreensível por não ter nada a comunicar, ou elevá-la à condição de ídolo e deusa.
    • A postura do bel animal, emprestada de Maistre, priva a mulher de consciência e alma, comparando-a ao gato ou privando-a de qualquer vida animal.
    • O poema Fleurs du mal XXVII encarna essa atitude ao transformar a mulher em entidade mineral, onde tudo é ouro, aço, luz e diamantes, e a fria majestade da mulher estéril resplandece como astro inútil.
    • A postura do ídolo, porém, torna-se inevitável: a esclave-reine, rainha dos pecados que ignora o pecado por ser natural, presta-se à adoração e à idolatria, enquanto o homem sabe, dolorosamente, que representa para si mesmo uma comédia de que não consegue ser iludido.
  • Os poemas de amor de Baudelaire não pedem o amor, mas a embriaguez fictícia de um mensonge consolador, o esquecimento e a ilusão de acesso a um néant que a mulher não conhece.
    • De Profundis clamavi, Sonnet d'automne e Le Léthé imploram longos sonos e o sono tão doce quanto a morte.
    • Parfum exotique e La Chevelure introduzem a evasão para países abençoados e paraísos perfumados, dos quais a mulher é apenas a ocasião.
    • A mulher ideal, bel animal ou être aux ailes de gaze, não existe nem como realidade embelezada pelo sonho: é criação da vontade do poeta para escapar à carne, e a indiferença ou resistência das mulheres reais dá-lhe apenas maior liberdade de abstração.
  • A segunda saída possível diante da carne é castigá-la, fazê-la sofrer para que pague o aviltamento que impõe ao espírito, o que implica tanto o sofrimento próprio quanto o da mulher como instrumento de vingança.
    • O amor é descrito como malentendu que exige dois complices, ambos submetidos alternadamente à dor.
    • A diferença entre infligir e sofrer o sofrimento é superada pela identidade de intenção: vingar a dignidade que se esqueceu de si mesma.
    • O excesso de poemas como Un Voyage à Cythère e Les Métamorphoses du Vampire prova tanto a intensidade da vontade de humilhar a carne quanto a intensidade do desejo carnal que Le Vampire exemplifica.
    • Baudelaire não exprime jamais exaltação física nem alegria no desejo carnal, apenas a volupté amarga de saber que pune e em nome de quê pune.
  • Baudelaire está mais próximo de Maistre do que de Sade, pois enquanto Sade permanece na revolta por nada, Baudelaire pretende castigar e emendar, recusando qualquer prazer em associar-se à obra do mal.
    • Georges Blin, em estudo sobre sadismo e masoquismo em Baudelaire, conclui corretamente remetendo o poeta ao pecado original maisteriano.
    • Klossowski reconhece que o sentimento de queda em Sade é demasiado obscuramente vivido para se reconhecer no dogma do pecado original, que cabe a Maistre reafirmar.
    • A nota de Baudelaire sobre Sade revela que o que encontra nele confirma Maistre: o homem natural é o homem degradado que se crê bom e nunca fará nada para se salvar.
    • O herói de Sade, ao contrário, se sabe e se quer degradado, sem qualquer desejo de cura; Baudelaire, ao afirmar que o mal que se conhece está mais próximo da cura, distancia-se definitivamente de Sade.
    • A cólera de Baudelaire não se dirige a uma natureza dotada de intenções malignas, como em Sade, mas à matéria e ao mal que os homens não podem evitar; ele é decepcionado por suas paixões que o contrariam, não furioso por vê-las servir a desígnios da natureza.
    • O que se castiga é a carne, que não é intencionalmente má mas pesa como uma tara que se pode esperar aliviar; até Lesbos, que sofre de nunca conhecer satisfação, será salva por seu eterno martírio.
  • O poema La Destruction, anteriormente intitulado La Volupté, ilustra a ausência de qualquer delectatio na obra de Baudelaire: o Demônio conduz o poeta, ofegante e quebrado de fadiga, às planícies do Tédio.
    • A mudança de título demonstra a vontade do poeta de evitar a equivocidade.
    • O poema é impregnado de tristeza infinita e desespero sombrio, sem nenhuma aparência de deleite.
    • L'Irrémédiable confirma a imagem do infeliz enfeitiçado que busca a luz e a chave para fugir de um lugar cheio de répteis.
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