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COSMOS DE BAUDELAIRE

TEXTO ORIGINAL

Há meio século, as diversas confissões e filosofias disputam a obra de Charles Baudelaire não menos avidamente que as capelas literárias que se sucederam desde Arthur Rimbaud. Embora o espetáculo de suas inquietações morais e religiosas devesse levar os críticos a uma absoluta sinceridade, a uma impiedosa objetividade, o impulso das ideias e, mais ainda, o fervor religioso e a paixão filosófica os levaram a estender a toda a obra baudelairiana conclusões que por vezes só se aplicavam a uma de suas partes. M. Blin foi o primeiro a reagir contra essa atitude intolerante. E embora não se possa crer que o poeta das Flores do Mal tenha sido o receptáculo de todas as influências, não se pode negar que ele sofreu influências muito diversas e inconciliáveis. Não foi com a frivolidade do esteta que nele se quis reconhecer, mas com o escrúpulo e o ceticismo de um espírito sedento de saber e de exatidão — justamente em um domínio onde ambos nos são proibidos — que ele tentou, por sua vez, os caminhos mais diversos, retrocedendo ou mudando subitamente de direção. O católico que ele é por nascimento nunca morreu inteiramente nele; e não se crê que se possa interpretar saudavelmente um poema como Bênção sem situá-lo no quadro de um cristianismo puro de toda heresia.

Não se deve hesitar, creio, se não se quer recair na confusão, em fazer essa primeira distinção na obra e no pensamento de Charles Baudelaire, entre momentos — raros e breves, é verdade — de impulso para a fé católica de sua mãe, e as longas e inquietas meditações sobre uma gênese esotérica e fins gnósticos. Mesmo feita essa distinção, estamos longe de encontrar uma perfeita uniformidade nas ideias do poeta. Sabemos, por suas leituras, que ele estudou sobretudo a escola platônica e Swedenborg: da primeira para o segundo, a passagem é quase impossível fora de uma crença na redenção pela intermediação de um divino Mediador; mas essa ideia de redenção quase sempre falta na obra baudelairiana. Disse alhures [^O Deus de Baudelaire (Éd. Savel, 19/17). Só posso remeter a esse livro para o desenvolvimento da maioria dos pontos que mencionarei nestas páginas, especialmente para a questão da irreversibilidade, ponto de partida da metafísica baudelairiana] por que a ideia da irreversibilidade da falta que Baudelaire proclama, longe de manter um mal-estar e levar a um impasse, como sustenta M. Blin, implica uma atitude corajosa, recomendada por certas filosofias antigas e orientais. O “resgate” das faltas não significava nada, aliás, para o poeta, pois ele tinha do pecado original uma concepção heterodoxa que creio ter elucidado com base na famosa carta a Toussenel e nas meditações de Baudelaire sobre a queda, pedra angular, talvez, de todo seu sistema metafísico.

Pois quando Baudelaire pergunta, em Mon cœur mis à nu:

O que é a queda?
Se é a unidade tornada dualidade, é Deus que caiu.
Em outras palavras, a Criação não seria a queda de Deus?

ele situa a ideia de pecado original — e suas consequências: a origem e os fins últimos da humanidade — em um plano não-cristão e muito próximo das doutrinas pitagóricas. Ao contrário de um Vigny, por exemplo, ele tende assim, como veremos, a um monismo absoluto onde “Deus profere o mundo como uma complexa e indivisível totalidade”, fórmula cujas múltiplas e profundas ressonâncias encontraremos em breve.

Pois, o que é Satanás para o autor de O Alquimista? Ele é exterior ao homem, como poderia sugerir esta pergunta do poeta: “Entregar-se a Satanás, o que é isso?” Satanás, para ele, paralisa a vontade do homem, reduz sua “escolha”. “Em nossos cérebros farreia um povo de Demônios” que nos fazem cumprir, sem o sabermos, suas vontades mais absurdas. Nossa vontade é “vaporizada” por Satanás; é ele, “é o Diabo que segura os fios que nos movem”, e que “embala longamente nosso espírito encantado”. Somos de certa forma atravessados pelo influxo do mal, durante toda a vida terrestre.

Isso significa que o influxo demoníaco tem uma existência própria fora de nós? “Os Satanás têm formas de animais”, afirma ainda Baudelaire. Mas paralelamente ele fala da “ignominiosa coleção de nossos vícios” que certos animais simbolizam. Em sua Mystique de Baudelaire, M. Jean Pommier mostrou em Lavater, Fourier e Toussenel as fontes imediatas dessa emblemática dos vícios. Ele conclui que, no pensamento do poeta, essa especulação era “algo bastante diferente da metempsicose das Contemplações”.

Ora, Baudelaire coloca assim o problema do mal: “A moral se reergueu? Não, é que a energia do mal diminuiu.” A energia do mal, força abstrata e imanente, como uma inervação do ser. Dessa “energia do mal” Baudelaire nos dá, em frontispício às Flores, um sinônimo inesperado: Satanás Trismegisto. O qualificativo, como se pode imaginar, não foi escolhido ao acaso. Sabe-se que ele é indissoluvelmente ligado a Hermes alexandrino. Baudelaire não o ignorava; sua Alquimia da Dor provaria, se necessário, que ele conhecia perfeitamente os atributos de Hermes. Convém, portanto, prestar atenção especial a esta estrofe do aviso ao leitor:

Sobre o travesseiro do mal, é Satanás Trismegisto
Que embala longamente nosso espírito encantado;
E o rico metal de nossa vontade
É todo vaporizado por esse sábio químico.

Hermes, cujas funções de deus da fecundidade cantam os Hinos homéricos, personificação do desejo, recebe como parte, na Odisseia, a vara do mago pela qual encanta o homem vivo e morto. Na Teogonia hesiodiana mais sutil, ele dota Pandora da mensagem sedutora. Na época tardia, ele se tornará o inventor de todas as artes, a personificação da onisciência, e Três Vezes Grande (Trismegisto).

Esse Hermes Trismegisto que opera como “alquimista da dor” em Baudelaire é definido pelos alexandrinos como o logos personificado, portanto o aspecto ativo, atributo não independente do Criador. São Justino, explicando aos gregos a religião de Jesus, dirá: “Chamamos Jesus Cristo de logos; aplicamos a ele a denominação que vocês dão a Hermes.” Ele não tinha, portanto, qualidade demiúrgica, nem existência própria, independente de Deus.

Tudo isso é demasiado conhecido para ter escapado ao poeta das Flores e para não esclarecer o papel que em sua obra ele atribuiu a Satanás. Trismegisto, é a vontade criadora ativa do Ser, o conhecimento do formal, do finito, do real. Por isso tudo o que participa dele se torna insaciavelmente ávido do obscuro e do incerto, como diz Baudelaire em Horror Simpático, torna-se desejo de buscar o mundo formal.

Estamos longe da noção bíblica do Tentador originado de Deus, mas não mais aspecto de Deus, criando o mal, mas estranho à criação do homem; longe também do demônio demiúrgico dos maniqueus coeterno ao Deus bom, portanto independente dele. Nas duas concepções, o demônio é exterior ao homem. Em Baudelaire, ao contrário, Satanás não é heterogêneo, mas consubstancial ao homem. Ele não é propriamente criado, nem causado, nem causa de si; ele é uma qualidade do Ser, é a “postulação para Satanás”, uma qualidade inerente à alma que é afetada por ela desde toda a eternidade na ordem cósmica.

E isso coloca cumulativamente a questão da responsabilidade do homem e a da origem da criação. Queda e criação são duas consequências interdependentes de uma ordem pré-estabelecida. Por isso o valor imutável, inelutável do destino é tão esmagador na obra de Baudelaire. Disse: consequências interdependentes; pois se o homem não tem, na origem, nenhuma revolta a se reprovar (contrariamente à tese martinista), mas se sofre as consequências de uma escolha que lhe foi proposta desde toda a eternidade, sua queda, levando ao nascimento de pelo menos parte do mundo formal, assume um aspecto demiúrgico; ele se torna involuntariamente causa de si. O pretenso maniqueísmo de Baudelaire contribui assim para a elaboração de um monismo absoluto.

Diante dessa propensão inerente à alma condenada a se aliar ao mundo formal, o poeta das Flores só vê uma atitude possível, um remédio para o Irremediável: o estado de vigília ou de vigilância permanente. É a hiperconsciência que ele cultiva com fervor e da qual o remorso é apenas o aspecto moral.

A “consciência no mal” impede as obras, essencialmente más, como sabemos, de macular o corpo sutil, de afundar ainda mais o espírito na matéria e de afastá-lo assim um pouco mais de seu estado primordial.

Esse primeiro exame leva a negar ao pensamento baudelairiano a posição, ou mesmo a orientação cristã. Autoriza-nos, por outro lado, a afirmar que a expectativa do poeta não é um simples ceticismo e que não há, verdadeiramente, para ele, tragédia espiritual decorrente da impossibilidade que lhe foi atribuída de superar a ideia de irreversibilidade.

Baudelaire não busca superar esse obstáculo moral. Mais ainda, ele rejeita a ideia como impura. É certo que a corrupção do homem aprisionado no mundo formal é sem remédio imediato: toda ideia de santificação do mundo material, de salvação, de graça, lhe é absolutamente estranha. Ele sabe que o arrependimento não é eficaz, portanto não é espiritualmente útil. Ele sabe que, por sua presença na matéria, a alma humana corre o risco de se corromper cada dia mais, de se aliar sempre mais intimamente à matéria, que é seu próprio desejo inicial indefinidamente ampliado. Ele sabe que essa evolução é o cumprimento de um destino, de uma ordenação primordial do universo que exclui todo milagre. Concepção próxima da da antiguidade. Baudelaire descobriu que, diante desse destino e do perigo de corrupção, só uma posição espiritual é eficaz: a hiperconsciência no mal que desprende em algum grau a alma das obras terrestres.

É no quadro desse aspecto muito original do gnôti séauton socrático, com suas ressonâncias propriamente metafísicas, que se situa o estranho sentimento de Charles Baudelaire de ser pessoalmente amaldiçoado “desde o princípio” e “para sempre”. Que isso seja realmente uma experiência pessoal do poeta — não sem relação, creio, com seu desgaste físico — ou seja uma simples reminiscência, é tentador ver nisso a ideia swedenborgiana de uma expiação terrestre das faltas acumuladas em uma vida anterior. No entanto, no Místico sueco essa tese tinha um corolário: a redenção pelo Cristo, ou a danação eterna ao final de um período de provações. Como a ideia de redenção não aparece em nenhum lugar na obra baudelairiana (exceto em Bênção), e o poeta a nega expressamente no Irremediável, por exemplo, sou levado a crer que, mais uma vez, Baudelaire emprestou mais ao pitagorismo. Sabe-se que, para os discípulos do Mestre de Crotona, as almas se reencarnando após a morte para expiar as faltas cometidas em sua última passagem pela terra, uma vez purificadas, retornam a seu estado divino e são “para sempre libertadas da morte” (isto é, na linguagem pitagórica, da reencarnação no corpo-túmulo).

Que Baudelaire tenha meditado longamente essas ideias, não quero outra prova senão estes versos de O Mau Monge:

<poesie>Minha alma é um túmulo que, mau cenobita,

Desde a eternidade percorro e habito.</poesie>

onde se encontra textualmente a fórmula órfica soma-sema (corpo-túmulo).

Esse texto não está isolado. Não se prestou, em minha opinião, atenção suficiente ao soneto de A Vida Anterior. Há muito se assinalou seu pitagorismo. Mas M. Crépet ali suspeita simplesmente uma influência de Gérard de Nerval, de quem se sabe a predileção pelo Mestre grego. Não havia talvez, na época, homem mais ligado às ideias de metensomatose, palingênese ou reencarnação sucessiva das almas que o autor do soneto dos Versos Dourados. Não o chamavam de “Pitagórico moderno”? Por outro lado, relacionou-se A Vida Anterior com a lembrança do paraíso perdido e também da vida infantil e, enfim, com a lembrança dos Trópicos. Que esses elementos tenham desempenhado um papel na escrita do poema e no esboço de seu aspecto descritivo, é verossímil. Permanece que a afirmação palingenésica é clara e irrefutável e que Baudelaire deve ter atribuído a essa concepção mais interesse do que comporta o simples pretexto de um poema.

Ora, nesse quadro bastante extravagante da vida anterior — que não deixa de ter analogias com O Convite à Viagem — o poeta coloca uma nota muito reveladora: mesmo nessa vida passada da qual afirma se lembrar, seu “único cuidado era aprofundar o segredo doloroso que o fazia languir”. Esse mesmo segredo doloroso que dilacera sua vida presente o torturava na anterior, porque lá também havia reminiscência — platônica? — de uma existência diferente. Vislumbra-se assim uma cadeia de reencarnações, uma “roda infernal de nascimentos e mortes”, como dizem os budistas.

Sem dúvida, pode parecer estranho que uma ideia tão importante tenha sido expressa claramente apenas uma vez na obra de Baudelaire. Mas a obra inteira está, a meu ver, impregnada dela. Baudelaire não crê em uma vida melhor. Mas as Flores do Mal tendem a considerar o mundo como uma passagem para algo “novo” (não melhor), suprema esperança que o poeta coloca como ponto final em seu livro. Não é senão o título de A Viagem e o grande número de poemas aludindo a essas vagabundagens terrestres (a que ecoa esta nota de Mon cœur mis à nu: “Glorificar o vagabundagem e o que se pode chamar de boemia”) que não estão imbuídos da ideia da vagabundagem da alma humana através do universo.

A ideia é, aliás, familiar ao leitor de Platão.

Cada vez que Baudelaire tem a oportunidade, ele afirma a unicidade do ser através da eternidade, a impossibilidade de escapar a uma forma-pensamento sempre original. Esse é o sentido da intransigente singularidade que ele reivindica para si mesmo, tentando por um ostracismo de princípio impedir que o mundo externo atrapalhe o jogo da hiperconsciência e cedendo à espontaneidade apenas sob a forma anestésica da imitação involuntária.

Essa constatação dá ao pensamento metafísico do poeta uma nova orientação. Desde que a vida terrestre é apenas um trecho do destino da alma, que nascemos com um passado, com uma espécie de cadastro pré-natal, é fácil entender que se possa sentir pessoalmente “amaldiçoado desde o princípio” e “para sempre”. O indivíduo vive, de fato, carregado com o peso das faltas acumuladas ao longo de suas encarnações anteriores e que, por falta de graça eficaz e de arrependimento ativo, ambos estranhos à concepção baudelairiana, ele não é livre para reverter. Essa estabilidade distingue definitivamente o pensamento de Baudelaire do de Swedenborg, para quem a vida humana era — na maioria das vezes — uma expiação, uma purgação das faltas cometidas em uma vida anterior, terminando em um dado momento pela redenção ou pela queda no inferno.

Diante dessa atroz fatalidade, o homem não tem nenhum meio de salvação imediata. Ele é prisioneiro de uma encarnação: “um navio preso no Pólo”, diz o autor de O Irremediável. Ele deve suportar pacientemente e não se iludir nem com a vida, que é apenas o engodo descrito em A Viagem, nem com a vida anterior onde já buscava “o segredo doloroso”, nem com as vidas futuras talvez idênticas à presente, a menos que o homem consiga retornar à sua fonte recusando o hedonismo e permanecendo espectador indiferente às tribulações da vida, ainda que perceba que se afundou ainda mais na matéria.

É dessa última tragédia, a mais penosa, que nos fala, me parece, O Autoflagelador, o vingador de si mesmo, cujas estrofes autobiográficas estão indissoluvelmente ligadas a O Irremediável (desde a edição pré-original de L’Artiste, Baudelaire publicou os dois poemas um após o outro). Ser “a ferida e a faca…, a vítima e o carrasco”, é, além de uma aceitação passiva, a atitude heróica do espírito que assiste à sua decadência sem nunca abdicar, contando apenas com sua própria força e tirando de sua descida novas razões para vigiar, portanto para sofrer.

Mas toda essa sucessão de vidas é apenas transição. O poeta vislumbra, sem realmente ousar esperar, no final dos ciclos palingenésicos o léthe eterno que “a farmacêutica celeste” nem mesmo conhece, “um licor que não conteria nem a vitalidade nem a morte, nem a excitação nem o nada. Não saber nada, não ensinar nada, não querer nada, não sentir nada, dormir. É a esse sono hamletiano que ele aspira em seu projeto de prefácio às Flores. Esse estado nirvânico seria a negação perfeita de todas as causas do mundo formal, da vida obscura da alma humana, em uma palavra, de Satanás Trismegisto.

Vê-se aí, sob uma forma enganadora e desesperada, a crença, em todo caso o pressentimento, de um estado espiritual estável que só se pode definir por proposições negativas.

Assim, a visão baudelairiana do Homem-Anjo antes da queda, as reminiscências de vidas anteriores, os diversos graus de apego às obras, testemunham a favor de uma hierarquia cósmica e de uma continuidade permanente da escala universal. Pois, no fundo da escala, percebendo a correlação entre a alma e o corpo, o poeta observa: “Tudo o que é material ou eflúvio do espiritual representa… o espiritual de onde deriva.” Pelo sistema das correspondências entre o microcosmo e o macrocosmo, Baudelaire estabelece uma relação análoga entre o mundo manifestado e o mundo supraterrestre. É então tentador atribuir-lhe, com os Srs. Rolland de Renéville e Blin, a concepção cabalística da criação por eflúvios sucessivos à qual ele parece aludir expressamente em nosso texto. E no entanto, mais uma vez, exceto por esse texto, todas as especulações de Baudelaire sobre a fragmentação do Uno primordial lembram estranhamente Plotino e Platão explicando a criação pela partenogênese do Uno. Como os pitagóricos antigos, Baudelaire é constantemente assombrado pelo Número: “Tudo é número, escreve ele em seu diário. O número está em tudo. O número está no indivíduo.”

Quem diz número diz necessariamente forma, no sentido filosófico do termo; é assim que Baudelaire observa muito justamente que o espaço é um número. Daí a identidade de essência da forma e da ideia: “Toda ideia é, por si mesma, dotada de uma vida imortal, como uma pessoa. — Toda forma criada, mesmo pelo homem, é imortal. Pois a forma é independente da matéria, e não são as moléculas que constituem a forma.” Ideia e forma são, portanto, assim como a matéria, necessariamente distintas — não pela essência, mas pelo modo — do caos primordial. Criando uma individualidade, elas são afetadas por um número, constituem um múltiplo.

Resta Satanás, em outras palavras a vontade criadora ativa do Ser, tal como nos apareceu acima; como essa impulsão se comporta em relação a Deus? Ela lhe é estranha ou, como parece lógico no sistema entrevisto, consubstancial? Há entre as duas forças uma diferença de natureza incompatível com as relações de filiação que destaquei, entre o Uno primordial e o Múltiplo ou mundo formal? Baudelaire foi monista ou dualista?

Limita-se habitualmente a comentar, a esse respeito, os textos que já citei: “O que é a queda? Se é a unidade tornada dualidade, é Deus que caiu. Em outras palavras, a criação não seria a queda de Deus?” Sob essa forma interrogativa, a fórmula obviamente não resolve o debate, embora se possa dizer que a afirmação que ela supõe não devia estar longe da solução para a qual Baudelaire inclinava. Em todo caso, ela não nos informa sobre a concepção do poeta quanto à natureza de Satanás e suas relações genéticas com Deus.

Há, no entanto, um texto pouco notado das Máximas Consoladoras sobre o Amor que esclarece isso claramente: ele supõe que “a heroína de seu coração, tendo abusado do fas e do nefas” atingiu os últimos limites da perdição. Você a renunciará? Não. Diga corajosamente: “Menos criminoso, meu ideal não teria sido completo. Eu o contemplo e me submeto; de uma tão poderosa criminosa só a grande Natureza sabe o que quer fazer. Felicidade e razão suprema! absoluta! resultante dos contrários! Ormuz e Arimã, vocês são o mesmo!” Essas duas últimas frases são luminosas.

Lembra-se que na concepção parsi, mãe do maniqueísmo, Ormuz é o Deus bom, Arimã é Satanás, coeterno e criador do homem atual. Aqui, Baudelaire resolve formalmente o dualismo em um monismo de um princípio primordial único afetado desde toda a eternidade por duas qualidades, duas tendências contrárias cujo “princípio” é a resultante (é Baudelaire quem sublinha). É, portanto, bastante lógico que ele tenha podido afirmar em A Arte Romântica: “Deus profere o mundo como uma complexa e indivisível totalidade”, a complexidade refletindo a criação por emanações sucessivas; a indivisibilidade marcando o encadeamento ininterrupto dos diferentes modos da criação.

Basta, em definitivo, uma simples tendência de uma parcela do cosmos para criar uma forma, isto é, para substituir a unidade por uma fragmentação: anjo, homem ou besta. O problema permanece inteiro de saber se essa tendência foi voluntária da parte de Deus enquanto Todo cósmico ou da parte da única parcela. O paradoxo sobre a corrupção de Deus e a nota de A Arte Romântica me fazem inclinar para a primeira alternativa; a consubstancialidade, mesmo a identidade de Deus (Ormuz) e Satanás (Arimã), assim como toda a teoria baudelairiana da vaporização da vontade pelo Trismegisto testemunham a favor da segunda. No máximo, pode-se pensar em uma irradiação difusa e inextricável das duas tendências contrárias com desequilíbrios momentâneos criando, emanações sucessivas cabalísticas:

Uma Ideia, uma Forma,
um Ser Partido do azul e caído…
Um Anjo, viajante imprudente,
Que o amor do disforme tentou…

Tal é sem dúvida, além da ideia swedenborgiana do bom e do mau anjo associados a cada ser humano, o verdadeiro significado das “duas postulações” que incessantemente dividem a alma humana. A postulação para Satanás: “Entregar-se a Satanás, o que é isso?” é a tendência para o múltiplo. A postulação para Deus, é a tendência para a unidade originária.

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