Pierre Gordon – Contos de Fadas
O que dá a melhor impressão do mundo verdadeiro, do mundo da liberdade, são os contos de fadas. E, entre as obras literárias francesas, aquelas que se devem aconselhar a leitura a quem quer ter uma visão da realidade, são os Contos de Perrault. O resto, é frequentemente, literatura; é algo de relativo ao mundo que passa, ao mundo aparente, ao mundo que não é, ao mundo da necessidade.
Nada é tão revelador da alma humana como os relatos do tempo onde os animais falavam. Existem absolutamente por toda parte, e o fundo é o mesmo. Só os detalhes variam [v. homens-animais].
Van Gennep, depois de ter assinalado a universalidade do tema dito «dos objetos maravilhosos», escreve [<a href=“https://archive.org/details/laformationdesl00genngoog”>La Formation des Légendes</a> — 1912, p.46]. «A mesa, o vaso, a bolsa inesgotável fazem parte de um grupo onde entra a multiplicação dos peixes e dos pães do Evangelho». Frase interessante, não, certamente, no sentido que ela orienta para uma comparação. Os procedimentos são efetivamente os mesmos; são aqueles do mundo energético, aqueles de um universo onde o espaço e o tempo humanos não contam, onde o pensamento realiza instantaneamente seu objeto, e fabrica sem resistência o cosmo segundo suas visões; onde, por outro lado, a palavra é imediatamente criadora. É por aí que os contos de fadas são mais verdadeiros que a maior parte das obras literárias, e diferentemente delas, suportarão sempre a leitura. O que há de falso, neles, é que eles não respondem a nada de autêntico nem de histórico no mundo sensível. Mas, a este respeito, a maior parte das obras literárias mais pretensiosas são, o que quer que possam parecer, classificadas igualmente. Um romance recorte de vida é, sob o ponto de vista do conteúdo, uma composição de abstrações mentais, tão estranha à ambiência cotidiana quanto Pele de Asno e Cinderela.
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*PS: Pierre Gordon, A Revelação Primitiva*
