Dostoiévski e sua época (Berdiaeff)
<em>Berdiaeff, <a href=“https://classiques.uqam.ca/classiques/Berdiaeff_Nicolas/Esprit_de_Dostoievski/Esprit_de_Dostoievski.html”>L'esprit de Dostoïevski. (1945) </a></em>
<p data-sourcepos=“3:1-3:1283”>Dostoiévski surge em outra época do mundo, em outro estágio da humanidade. Nele também o homem deixou de pertencer a essa ordem cósmica objetiva à qual pertencia o homem de Dante. Durante o período moderno, o homem tentou se fixar na superfície da terra, se encerrar em um universo puramente humano. Deus e o diabo, o céu e o inferno haviam sido definitivamente repelidos para a esfera do incognoscível, sem comunicação com o aqui-embaixo, até que perdessem toda a realidade. O homem havia se tornado uma criatura plana de duas dimensões: havia perdido a dimensão da profundidade. Sua alma permanecia sozinha, seu espírito havia voado. Mas, um dia, as forças criadoras, a alegria que marcaram a época do Renascimento se esgotam. O homem sente que o chão sob seus pés não é tão firme e inabalável quanto lhe parecia. Desses profundos selados, ruídos sobem de repente, a existência desse subsolo e sua natureza vulcânica começam a se manifestar. Um abismo se abriu no fundo do próprio homem, e é ali que novamente se revelarão Deus e o diabo, o céu e o inferno. Nessas profundezas, a princípio, só se movem às apalpadelas: a luz do dia, que ilumina o mundo da alma e o mundo material para o qual foi destinada, começa a se apagar, enquanto a nova luz ainda não se acendeu bruscamente.</p>
<p data-sourcepos=“5:1-5:1335”>A época moderna serviu de aprendizado para a liberdade humana, as forças do homem se manifestaram livremente. Mas ao término desse período da história, essa prova da liberdade humana se transporta para outro plano, em outra dimensão, e é ali que se desenrola o destino humano. Deixando o mundo psíquico iluminado pela luz diurna que brilhou sobre toda a época moderna, a liberdade humana se aventura nas profundezas do mundo espiritual. Dir-se-ia uma descida aos infernos. Ali se revelarão novamente ao homem, não apenas o diabo e a geena, mas Deus e o céu; eles se revelar<span class=“citation-0 citation-end-0 interactive-span-selected-v2”>ão não mais segundo uma ordem objetiva, imposta ao homem de fora, mas como um encontro com as profundezas supremas do espírito humano, como uma realidade interiormente </span> revelada. Toda a obra de Dostoiévski está ali. O homem ocupa ali um lugar totalmente diferente do que na obra de Dante ou Shakespeare. Nem participa de uma ordem imutável e objetiva, nem permanece na superfície da terra ou na superfície de sua alma. A vida espiritual lhe é restituída, mas é em si mesmo que a reencontra, em sua própria profundidade, através das trevas, do purgatório e do inferno. O caminho que Dostoiévski segue é, portanto, imanente à vida espiritual, e não transcendente. O que não quer dizer, evidentemente, que ele tenha negado toda realidade transcendente.</p>
