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CONTO DO MÉDICO
BLOCH, R. Howard. Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental. Claudia Moraes. Rio de Janeiro: Ed 34, 1995.
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O “Physician's Tale” de Chaucer explora as consequências da virgem encontrada e vista, do ponto de vista oposto ao do fabliau “Du Mantel mautaillié”, que tematiza a dificuldade de se achar uma mulher casta.
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O conto narra como a virgem Virgínia é avistada pelo juiz Ápio, que por meio do camponês Cláudio instaura falsa acusação contra Virgínio, pai dela.
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Virgínio prefere matar a filha a sofrer a vergonha do sequestro dela na casa de Ápio.
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O prólogo moralizante do conto, que discute a criação de Virgínia pela Natureza e a vigilância dos pais sobre os filhos, ocupa 118 linhas, mais de um terço do total, e o começo narrativo participa da qualidade do acidental.
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O conto tem relativa má reputação crítica, explicada pela motivação pouco desenvolvida do relato.
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Chaucer condensa a ação final em dez linhas, nas quais uma multidão aparece do nada, Ápio é jogado na prisão, Cláudio é exilado e os demais são enforcados.
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Os personagens agem de forma inexplicável e ilógica: a acusação de Cláudio é confusa, Ápio recusa ouvir a defesa de Virgínio, e Virgínio sentencia a filha à morte por amor e não por ódio, sabendo que a acusação é falsa.
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A própria Virgínia suplica a morte com explicação insuficiente e contraditória.
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O povo já sabia desde o início que Ápio era lascivo e que a acusação era falsa, mas só intervém depois do fato.
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Virgínio, inflexível com a filha amada, perdoa rapidamente Cláudio, instrumento da trama contra ela.
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A paixão instantânea de Ápio por Virgínia, o amor à primeira vista, anima o resto do conto, mas permanece completamente sem explicação.
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A incongruência entre motivação e ação foi observada por vários críticos: Anne Middleton afirma que a moral do conto pode ser independente dos motivos dos personagens, e que Virgínia é vista como objeto, não pessoa, sofrendo a ação mesmo quando sujeito gramatical.
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Charles Muscatine fala de poucos detalhes essenciais tratados de forma tão vaga que roubam ao conto qualquer poder de suspender a incredulidade.
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Emerson Brown vê o narrador como projeção literária de uma mente incapaz de lidar com causas, num mundo doentio onde causas e efeitos se relacionam imperfeitamente.
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Brian Lee conclui que um personagem tão bom quanto Virgínia é quase inevitavelmente passivo.
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Quase todos os críticos do conto insistem que ele é determinado por uma narrativa estruturante subjacente, seja o imperativo moral apontado por Derek Pearsall, o contexto filosófico mais amplo identificado por Middleton, ou o exemplum cristão estático de uma narrativa política pagã segundo Sheila Delany.
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A estruturação não decorre apenas da fonte reconhecida em Tito Lívio nem da pretensa apresentação factual do narrador.
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Patricia Kean sustenta que a moralitas sugere que a coisa histórica é apresentada como um exemplum da guerra dos vícios contra as virtudes.
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Middleton nota que os personagens agem como figuras alegóricas diabolicamente possuídas, sem autoconsciência, unidimensionais e sem livre-arbítrio.
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Brian Lee afirma que Ápio é figura tão alegórica quanto Virgínia, absolutamente mau enquanto ela é absolutamente boa.
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A fatalidade que paira sobre o conto tem menos a ver com o modelo do mártir cristão ou com a alegoria moral do que com as definições medievais de virgindade e com a relação entre virgindade, poética medieval e os efeitos de uma poética do louvor.
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Chaucer participa de longa tradição articulada pelos Padres da Igreja e transmitida por Jean de Meun, segundo a qual a relação entre desejo sexual e linguagem poética era tida como estabelecida.
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O conceito de virgindade ocupava posição elevada nessa tradição.
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Enquanto “Du Mantel mautaillié” ressalta a dificuldade de encontrar a castidade, o “Physician's Tale” analisa a violência inerente a tal encontro, especificamente a violência do olhar.
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A restrição estipulativa à virgindade torna-se tão universal nos Padres da Igreja que ela própria se alegoriza de forma oposta à do fabliau: a virgem de Tertuliano não é vista, e uma virgem deixa de sê-lo no momento em que se torna possível que ela não o seja.
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O que motiva a ação do conto é o olhar: a fatalidade da atração de Ápio nada tem a ver com Virgínia em si e tudo a ver com a visão implicitamente transgressiva de uma virgem.
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O nome Ápio evoca o verbo latino apiscor, esforçar-se por obter, tomar posse, capturar, e o nome Cláudio evoca claudo, fechar, encerrar, deter, correspondendo às funções de cada personagem.
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A vergonha que Virgínio oferece como alternativa à morte já havia ocorrido no momento em que Virgínia é notada, pois, segundo Tertuliano, toda exposição pública de uma virgem equivale a um estupro.
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O autor de The Ancren Riwle estabelece que todo olhar recapitula o drama bíblico e é protótipo da Queda.
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O “Physician's Tale” é estruturado pela aporia da percepção, questão altamente sexuada na Idade Média, pois o feminino é sinônimo da esfera dos sentidos, e Fílon afirma que o nome mais exato para a percepção sensorial é mulher.
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A mulher está associada à teologia cosmética dos primeiros Padres da Igreja ao longo de todo o período medieval.
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O feminino está ligado à parte sensitiva da alma em oposição ao homem, do lado da intelecção.
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Tudo isso coloca em relação a ideia de castidade com o feminino, os sentidos e a natureza material das representações, permitindo ler a impossibilidade da castidade como contradição tanto no fabliau arturiano quanto, de forma mais geral, no discurso medieval sobre as mulheres.
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