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JACQUES CAZOTTE — O DIABO ENAMORADO

UMA EVOCAÇÃO MÁGICA

Estávamos no maior silêncio. Meu companheiro, com um caniço que lhe servia de apoio na caminhada, traça um círculo em torno de si, na areia fina que cobria o terreno, e sai, após haver desenhado certos caracteres. “Entre, meu bom rapaz, neste pentáculo, disse-me, e só saia quanto ti­ver provas evidentes…

— Fale mais claro; devo sair quando tiver que provas?

— Quando tiver dominado todas as coisas; mas, antes disso, se o pavor o desorientasse, você poderia correr os maiores riscos.”

Aí, deu-me uma fórmula curta de evocação, imperativa, com algumas palavras que jamais esquecerei.

“Recite, ordenou-me, este exorcismo com firmeza, e depois chame três vezes, claramente, Belzebu, e principalmente não esqueça o que prometeu fazer.

Lembrei-me de que me gabara como capaz de puxar- lhe as orelhas. “Vou manter a palavra, disse-lhe,- sem que­rer que me contradissesse.

— Fazemos votos de que tenha muito êxito, declarou-me; quando acabar, avise-nos. Você está bem em frente da porta por onde sairá para nos encontrar.” E se retiraram.

Nunca um fanfarrão se encontrou numa crise mais delicada: estive a ponto de chamá-los de volta; mas era muita vergonha para mim; aliás, seria renunciar a todas as minhas esperanças. Finquei os pés onde estava, e pensei com meus botões. Quiseram apavorar-me, disse para mim mesmo; querem ver se sou medroso. As pessoas que me estão pondo à prova se encontram a dois passos daqui, e logo em seguida a minha evocação, tenho que ficar atento a alguma tentativa que farão para me apavorar. Vamos aguentar firme; vamos virar a gozação contra estes gozadores de mau gosto.

Esta deliberação foi bem rápida, embora um pouco perturbada pelo pio dos mochos e das corujas que moravam nas redondezas, e até no interior de minha caverna.

Um pouco mais calmo com minhas reflexões, reergo-me, resisto; com voz clara e firme, pronuncio a evocação; e, com voz mais forte ainda, por três vezes, e a intervalos muito curtos, invoco Belzebu.

Um calafrio correu nas minhas veias, e meu cabelo se arrepiou.

Mal eu acabara, abre-se, de par em par, diante de mim, uma janela, no alto da abóbada: uma torrente de luz mais deslumbrante que a do dia se precipita por aquela abertura; uma cabeça de camelo, horrível tanto pelo tamanho quanto pela forma, aparece na janela; principalmente as orelhas eram desmedidas. O odioso fantasma abre a goela, e, num tom em harmonia com o resto da aparição, pergunta-me: Che vuoi?

Todas as abóbadas, todas as cavernas dos arredores retumbam com igual força do terrível Che vuoi?

Eu seria incapaz de descrever minha situação; inca­paz de dizer quem me ajudou a ter ainda coragem, e me impediu de desfalecer diante de semelhante quadro, com aquele barulho ainda mais apavorante que ecoava em meus ouvidos.

Vi que precisava recuperar as forças; um suor frio ia dissipá-las: tratei de conter-me. Nossa alma tem que ser muito vasta e que possuir prodigiosa energia; uma verda­deira multidão de sentimentos, ideias e reflexões tocam meu coração, passam pelo meu espírito, e deixam sua marca todos ao mesmo tempo.

A revolução se opera, eu consigo dominar o meu ter­ror. E fixo ousadamente o espectro.

“O que é que estás querendo, audacioso, surgindo sob esta forma horrenda?”

O fantasma hesita um momento:

“Tu me chamaste, diz ele num tom de voz mais sur­do…

— Por acaso o escravo tenta apavorar o seu dono?, pergunto-lhe. Se vens receber minhas ordens, assume forma adequada e tom submisso.

— Senhor, retorna o fantasma, sob que forma devo apresentar-me para vos ser agradável?”

Como a primeira ideia que me veio à cabeça foi a de um cachorro, ordenei: “Vem com o aspecto de um cão cocker spaniel.” Mal eu acabara de dar a ordem, o pavoro­so camelo aumenta dezesseis palmos no pescoço, baixa a cabeça até o meio do salão, e vomita um cão branco de pelo sedoso e brilhante, com as orelhas caindo até o chão.

A janela voltou a fechar-se, tudo mais desapareceu, e, sob a abóbada, suficientemente iluminada, só ficamos nós, o cachorro e eu.

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