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Fantasia

LE GUIN, Ursula K. The language of the night: essays on writing, science fiction, and fantasy. Scribner trade paperback edition ed. New York: Scribner, 2024.

Elfland é o nome que Lord Dunsany deu ao lugar. Também é conhecido como Terra Média, Prydain, a Floresta de Broceliande, Era uma Vez; e por muitos outros nomes.

  • Deve-se considerar Elfland como um grande parque nacional, um lugar vasto e belo onde uma pessoa vai sozinha a pé, para entrar em contato com a realidade de uma maneira especial, privada e profunda.
  • Quando Elfland é considerado meramente como um lugar para fugir, acontece o mesmo que aconteceu com o Parque Nacional de Yosemite, onde todo mundo chega totalmente encapsulado em uma realidade de segunda mão, com trailers, motocicletas, barcos a motor e rádios de transistores.
  • As pessoas vão de parque em parque, mas nunca vão realmente a lugar nenhum, a menos que um deles, que pensa que até a vida selvagem não é real, seja mastigado por um urso genuíno e de primeira mão.
  • O mesmo tipo de coisa parece estar acontecendo ultimamente em Elfland, onde muitos querem ir, impulsionados por uma vaga fome de algo real, sem saber o que realmente procuram.
  • Com a intenção ou sob o pretexto de obrigá-los, certos escritores de fantasia estão construindo rodovias de seis pistas e parques de trailers com drive-in movies, para que os turistas possam se sentir em casa como se estivessem de volta em Poughkeepsie, mas o ponto sobre Elfland é que não se está em casa lá.

O que é fantasia?

  • Em um nível, a fantasia é um jogo: uma pura simulação sem qualquer motivo ulterior, como uma criança dizendo para outra Vamos ser dragões, sendo então dragões por uma ou duas horas, um escapismo da mais admirável espécie — o jogo jogado pelo jogo em si.
  • Em outro nível, a fantasia ainda é um jogo, mas um jogo jogado com apostas muito altas, vista como arte, não como brincadeira espontânea, tendo sua afinidade não com o devaneio, mas com o sonho.
  • A fantasia é uma abordagem diferente da realidade, uma técnica alternativa para apreender e lidar com a existência, sendo não antirracional, mas pararracional; não realista, mas surrealista, super-realista, uma intensificação da realidade.
  • Na terminologia de Freud, a fantasia emprega o pensamento de processo primário, não o de processo secundário, e emprega arquétipos, que, como Jung advertiu, são coisas perigosas, sendo os dragões mais perigosos e muito mais comuns do que os ursos.
  • A fantasia está mais próxima da poesia, do misticismo e da insanidade do que a ficção naturalista, sendo um verdadeiro deserto, e aqueles que vão para lá não deveriam se sentir muito seguros, e seus guias, os escritores de fantasia, deveriam levar suas responsabilidades a sério.

Depois de todas essas metáforas e generalidades, examinem-se alguns exemplos; leia-se um pouco de fantasia.

  • Isso é muito mais fácil de fazer do costumava ser, graças em grande parte a Lin Carter, da Ballantine Books, cuja Série Adulta de Fantasia de novas publicações e reimpressões de antigas salvou a todos de uma vida vasculhando as prateleiras de sebos.
  • Em gratidão ao Sr. Carter pelos muitos livros esplêndidos, novos e antigos, em sua série, lê-se qualquer coisa que sua editora envie, e no ano passado, quando enviaram um novo, começou-se a ler com uma agradável sensação de confiança.
  • Em um trecho do que foi lido, um duque de sangue real de um reino céltico mítico e um guerreiro-mago, ambos grandes Senhores de Elfland, conversam sobre a capacidade pessoal de Kelson de manipular a votação e sobre a situação não parecer boa com Ralson morto e Bran Coris fazendo acusações abertas.
  • Ao ser interrompido e depois pegar um romance diferente, ambientado em Washington, D.C., naturalista, politicamente consciente e relevante, uma conversa entre um senador e um lobista por controle de poluição mostrou-se quase idêntica, com as mesmas falas sobre a capacidade de manipular a votação e a situação não parecer boa.
  • Algo deu errado, pois o livro do qual se citou primeiro não é fantasia, apesar de todo seu equipamento de heróis e magos, já que se poderia pregar aquela peça suja nele mudando apenas quatro palavras, não se podendo cortar as asas de Pégaso tão facilmente — não se ele tem asas.
  • Pede-se desculpas à autora do trecho por fazer um exemplo horrível dela, pois há exemplos infinitamente piores que poderiam ser usados, e escolheu-se este porque neste livro algo bom deu errado — algo real foi falsificado.
  • Não haveria nenhuma utilidade em falar sobre o que geralmente é passado como fantasia heroica, todos os bárbaros intermináveis com nomes como Barp e Klod, os Tarnsmen e os Klansmen e todos os outros — não haveria nada absolutamente a dizer, exceto em termos de ética, racismo, sexismo e política.

O que se acredita que deu errado no livro e no trecho citado é o estilo.

  • O primeiro trecho era diálogo, e o estilo em um romance é frequentemente particularmente visível no diálogo; assim, apresentam-se algumas conversas de outras partes de Elfland, de livros escritos neste século, com todos os falantes sendo magos, guerreiros ou Senhores de Elfland.
  • Spitfire fala: Leia para nós, eu te peço, o livro de Gro; pois minha alma está em chamas para partir nesta viagem, ao que Brandoch Daha responde que está escrito um tanto asperamente e mais malditamente longo, e que não há outro caminho para essas montanhas senão pela Moruna.
  • Diz Goreu: Detestável para mim, verdadeiramente, é a fome abominável; uma insuficiência de comida em uma viagem. Lamentável, declaro a você, é tal destino para alguém de minha linhagem e criação, ao que Dienw'r Anffodion responde que o conhecimento da fome é comum com ele e que Goreu pode ficar com toda a comida.
  • Diz Aragorn: Quem pode dizer? Mas vamos colocá-lo à prova um dia, ao que Boromir responde: Que o dia não seja muito adiado, pois embora eu não peça ajuda, nós precisamos dela. Seria um conforto saber que outros também lutaram com todos os meios que têm, e Elrond conclui: Então seja confortado.
  • Todos esses falantes falam inglês de forma diferente, mas todos têm o genuíno sotaque de Elfland, e não se poderia pregar a peça neles que se pregou em Morgan e Nigel, a menos que se mudasse metade das palavras em cada frase, não sendo possível confundi-los com ninguém em Capitol Hill.
  • No primeiro trecho de exemplo, eles são um pouco loucos, e no segundo, não são apenas loucos mas galeses — e ainda assim falam com poder, com uma dignidade selvagem, sendo todos heroicos, eloqüentes, apaixonados, e pode ser que a paixão seja o mais importante.
  • Nada realmente está acontecendo nos dois primeiros trechos: em um caso eles estão lendo um livro, no outro estão dividindo uma perna de coelho fria, mas com que importância eles investem esses atos triviais, que emoção, que vitalidade.
  • No terceiro trecho, os falantes são mais quietos e usam um inglês menos extraordinário, ou melhor, um inglês extraordinário por sua simplicidade intemporal, sendo a linguagem de homens de caráter, com sobriedade, sagacidade e força.

A fala expressa o caráter.

  • Quando se ouve um homem dizer Eu poderia ter dito isso em Cardosa, ou em Poughkeepsie, pensa-se saber algo sobre aquele homem: ele é o tipo que diz Eu te avisei, e ninguém que diga Eu te avisei jamais foi, ou jamais será, um herói.
  • Os Senhores de Elfland são verdadeiros senhores, o único tipo que não existe nesta Terra: sua senhoria é o sinal externo ou símbolo de uma real grandeza interior, e a grandeza de alma se mostra quando o homem fala — pelo menos, nos livros.
  • Na fantasia, que ao invés de imitar a confusão e complexidade percebidas da existência, tenta sugerir uma ordem e clareza subjacentes à existência, não se precisa comprometer, e cada palavra falada é significativa, embora o significado possa ser sutil.
  • No segundo trecho, Goreu está gemendo e reclamando e enganando descaradamente o pobre Dienw'r para ficar com a única coisa que ele tem para comer, e ainda assim sente-se que alguém que pode falar assim não é um homem mesquinho e nunca diria Eu te avisei.
  • No terceiro trecho, o leve lamúria no tom de Boromir também é significativa, pois Boromir é uma pessoa de coração nobre, mas há uma falha trágica em seu caráter e a falha é a inveja.
  • Escolheram-se para comparação três estilistas mestres: E. R. Eddison, Kenneth Morris e J. R. R. Tolkien, pois na arte, o melhor é o padrão, e quando se ouve um novo violinista, compara-se ele a Stern e Heifetz.
  • Outra razão para escolher esses três é que eles exemplificam estilos que provavelmente serão imitados por escritores iniciantes de fantasia, havendo muita influência e imitação acontecendo abertamente entre os escritores de fantasia, o que parece ser uma situação muito saudável.
  • O escritor de fantasia mais imitado, e o mais inimitável, é provavelmente Lord Dunsany, cuja prosa é influenciada pela Bíblia do Rei Jaime e pela fala diária irlandesa, o que o remove do alcance de qualquer aspirante a imitador que não seja um par irlandês criado desde o berço nas grandiosas sonoridades do Gênesis e do Eclesiastes.
  • Dunsany é de fato o Primeiro Destino Terrível que Aguarda os Iniciantes Descuidados em Fantasia, e um desses destinos é o arcaísmo, o estilo arcaico, que Dunsany e outros mestres da fantasia usam tão sem esforço, mas que é uma armadilha na qual quase todos os jovens escritores de fantasia andam.

O estilo arcaico é de fato um distanciador perfeito, mas tem que ser feito perfeitamente.

  • O homem que o fez perfeitamente foi Eddison, que realmente escreveu prosa elisabetana na década de 1930, sendo seu estilo totalmente artificial, mas nunca falsificado, e irresistível para quem ama a linguagem por si mesma.
  • Em um trecho mais longo de O Verme Ouroboros, os senhores de Witchland carregam o rei morto em segredo à noite até a praia, em uma prosa que, apesar de ou por causa de seus arcaísmos, é boa prosa: exata, clara, poderosa, visualmente precisa e vívida, musicalmente sutil e muito forte.
  • O segundo dos três trechos de conversa é de Livro dos Três Dragões, de Kenneth Morris, um exemplo singularmente fino da recriação de uma obra magnífica por si mesma, um evento literário raro exceto na fantasia, onde sua frequência é talvez a prova da vitalidade sempre renovada do mito.
  • Morris também é útil ao propósito porque tem um forte senso de humor, e o humor na fantasia é tanto uma atração quanto uma armadilha para imitadores, sendo Morris e James Branch Cabell os mestres do cômico-heroico, alcançando sua comédia essencialmente por seu estilo — por uma eloqüência, uma fertilidade e felicidade de invenção simplesmente avassaladoras.
  • Fritz Leiber e Roger Zelazny escreveram no veio cômico-heroico, mas sua técnica é diferente: eles alternam os dois estilos, fazendo os personagens falarem inglês americano coloquial quando o humor é pretendido e revertendo a formas antigas formais em momentos sérios.
  • Leitores indiferentes à linguagem não se importam com isso, mas para outros o esforço é grande demais, sendo sacudido para frente e para trás entre Elfland e Poughkeepsie, e os personagens perdem coerência na mente, perdendo-se a confiança neles.
  • Cabell nunca faz isso: ele zomba de tudo, não apenas de sua própria fantasia, mas da realidade, e seu tom é perfeitamente consistente: elegante, arrogante, irônico, admirável, pois Cabell sabia o que queria fazer e o fez, que se danasse o mercado.
  • Evangeline Walton conseguiu sua própria e bela mistura idiossincrática de humor e heroísmo, e Jack Vance deve ser mencionado, embora seu humor seja tão quieto que se pode perder se piscar, e Vance nunca compromete sua criação para fazer uma piada e nunca mostra ouvido de lata para o tom.

No entanto, é necessária cautela. Grande cautela. Não se está discutindo história, mas fantasia heroica, um descendente moderno da epopeia.

  • A maioria das epopeias está em linguagem direta, seja em prosa ou verso, retendo a franqueza de seus antepassados orais, sendo a clareza e a simplicidade virtudes permanentes em uma narrativa, e uma linguagem simples é a mais nobre de todas.
  • Tolkien escreve um inglês simples e claro, cuja virtude proeminente é sua flexibilidade, sua variedade, variando facilmente do comum ao solene, e seu vocabulário não é marcante, não tendo icor, sendo tudo direto, concreto e simples.
  • O tipo de escrita que se ataca, o estilo Poughkeepsie de fantasia, também é escrito em uma prosa simples e aparentemente direta, mas é uma falsa simplicidade: não realmente simples, mas plana; não realmente clara, mas inexata; sua direção é enganosa; seus sinais sensoriais são vagos e generalizados; o cenário é de papelão ou plástico; o tom como um todo é profundamente inadequado ao assunto.
  • Esse estilo é apropriado ao jornalismo, onde a supressão da personalidade e sensibilidade do autor é deliberada e o objetivo é uma impressão de objetividade, sendo a técnica certa para um jornal, mas errada para um romance e mortalmente errada para uma fantasia.
  • Por que se parece estar alcançando esse resultado tão frequentemente? A avareza é uma das razões, pois a fantasia está vendendo bem, então vamos todos produzir uma fantasia, a Velha Fábrica de Baloney, e a pura inépcia entra em cena.
  • Em muitos casos, nem a ganância nem a falta de habilidade parecem estar envolvidas, e nesses casos suspeita-se de uma falha em levar o trabalho a sério: uma recusa em admitir no que você está se metendo quando você parte com apenas um machado e uma caixa de fósforos para Elfland.
  • Uma fantasia é uma jornada para a mente subconsciente, assim como a psicanálise, e como a psicanálise, pode ser perigosa e vai mudar você.

A suposição geral é que, se há dragões ou hipogrifos em um livro, ou se se passa em um cenário medieval vagamente Céltico ou do Oriente Próximo, ou se magia é feita nele, então é uma fantasia. Isso é um erro.

  • Um escritor pode usar todos os aparatos da fantasia sem nunca realmente imaginar nada, e esse fracasso, essa falsificação, é visível instantaneamente no estilo.
  • Muitos leitores, muitos críticos e a maioria dos editores falam do estilo como se fosse um ingrediente de um livro, como o açúcar em um bolo, ou algo adicionado ao livro, como a cobertura no bolo, mas o estilo, é claro, é o livro.
  • Se você remover o estilo, tudo o que lhe resta é um resumo do enredo, sendo isso absolutamente verdade para a fantasia.
  • Dizendo que o estilo é o livro, fala-se do ponto de vista do leitor; do ponto de vista do escritor, o estilo é o escritor, sendo como você, como escritor, vê e fala: sua visão, sua compreensão do mundo, sua voz.
  • Aprende-se a ver e falar, quando criança, primariamente pela imitação, e o artista é meramente aquele que continua aprendendo depois de crescer, e um bom aprendiz finalmente aprenderá a coisa mais difícil: como ver seu próprio mundo, como falar suas próprias palavras.

Por que o estilo é de tal significância fundamental na fantasia?

  • Na fantasia, não há nada além da visão do escritor sobre o mundo, não há realidade emprestada da história, ou dos eventos atuais, ou de pessoas comuns em casa em Peyton Place, não há matriz confortável do lugar-comum para substituir a imaginação.
  • Há apenas uma construção erguida em um vazio, com cada junta e costura e prego expostos, e criar o que Tolkien chama de um universo secundário é fazer um novo mundo, um mundo onde nenhuma voz jamais falou antes, onde o ato da fala é o ato da criação.
  • A única voz que fala lá é a voz do criador, e cada palavra conta, sendo esta uma responsabilidade terrível de se assumir, quando tudo o que o pobre escritor quer fazer é brincar de dragões, para entreter a todos por um tempo.
  • Ninguém deve ser culpado por ficar aquém disso, mas, mesmo assim, se alguém assume uma responsabilidade, deve estar ciente dela: Elfland não é Poughkeepsie, a voz do transistor não é ouvida naquela terra.
  • Acredita-se que o leitor tem uma responsabilidade; se se ama o material que se lê, tem-se um dever para com ele, que é recusar ser enganado, recusar permitir a exploração comercial do solo sagrado do Mito, rejeitar o trabalho malfeito, e guardar o louvor para a coisa real, porque quando a fantasia é a coisa real, nada, afinal, é mais real.
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