User Tools

Site Tools


goethe:conto-da-serpente-verde:wirth:conto-barqueiro-barca

CONTO – BARQUEIRO, BARCA, REMO E CABANA

Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.

Existe um homem capaz de domar o Rio: é o Barqueiro, velho navegante que remete a Caronte, exceto pelo fato de não estar a serviço dos mortos e de sua barca sulcar uma onda essencialmente viva. Manejando o remo com habilidade consumada, ele se dirige conforme sua vontade em meio às vagas, sem se deixar arrastar pela corrente ou desviar de sua rota pelos turbilhões. Ele domina as águas, mas está ligado ao Rio por um contrato misterioso, que o obriga a abandonar a este um terço dos frutos da terra exigidos como pedágio de todos os passageiros.

Esse pacto com a vida prática parece referir-se às concessões que o sábio é obrigado a fazer ao seu século, caso deseje exercer utilmente sua ação sobre seus contemporâneos. O Barqueiro não compartilha as ilusões de seu tempo, mas utiliza-as para influenciar as massas que domina. É um moralizador, um pastor de almas, um educador que se baseia nas ideias recebidas, ainda que estas sejam supersticiosas aos seus próprios olhos. A madeira, da qual se compõem sua barca, seu remo e sua cabana, está morta, mas é o produto de uma construção efetuada pela vida vegetal. Sob esse título, é o símbolo das superstições, formas que sobrevivem à ideia esquecida da qual nasceram. A barca figura, assim, a religião em vigor, os costumes aceitos e os preconceitos sociais cercados de respeito. É uma frágil embarcação, que se despedaçaria se atingisse um rochedo, e cuja duração é efêmera, pois a madeira apodrece pouco a pouco ou se transforma em pó. Mas o náuta cuida de sua barca; ele a governa com destreza, evitando os escolhos e aparando os solavancos das vagas perigosas.

Seu remo, que ele conservará mais tarde, mesmo quando não possuir mais a barca, é o instrumento indispensável de todo governo. Governar, de fato, não significa impor uma vontade. Um exército exige ser comandado, mas uma nação necessita ser governada, e isso não é de modo algum a mesma coisa. Para comandar, a brutalidade pode bastar; para governar, é necessário que o tato intervenha. O governo dirige-se à alma; o comando, acima de tudo, ao corpo. A arte do governo é, portanto, uma arte sutil da qual o velho Barqueiro possui o segredo.

Construída em madeira, sua morada ergue-se próxima ao Rio, na margem do futuro. Deve-se ver nela não mais a religião feita para ser balançada à superfície das águas, mas todo o edifício da ciência humana, erigido em terra firme, fora do domínio que as águas podem alcançar. Que nossos conhecimentos sejam de madeira, ao mesmo título que a religião, é algo que não será contestado por nenhum filósofo que tenha meditado sobre a infinita vaidade das coisas. O Barqueiro sabe a que se ater; mas um abrigo, mesmo de tábuas, não deve ser desprezado, e o repouso que nele se desfruta à noite permite enfrentar as fadigas do dia.

Encarregado de tudo o que passa por verdadeiro, tanto no domínio do saber (cabana) quanto no da crença (barca), o Barqueiro faz atravessar o Rio quem nele queira confiar. Graças à sua experiência, pode-se embarcar com segurança em sua nacela, ou seja, colocar-se em sua escola e beneficiar-se de seu ensinamento. Mas esse mestre conduz apenas em direção ao passado (história, arqueologia, conhecimento dos sistemas filosóficos e das religiões antigas); é-lhe proibido fazer atravessar o Rio no sentido inverso, pois, atendo-se aos dogmas estabelecidos, ele não orienta os espíritos para o que está por ser descoberto. Sua missão não é a de um profeta, de um inovador ou de um sonhador preocupado com o que ainda não é. O Barqueiro é realista em todas as coisas e, por isso, aceita como pedágio apenas frutos da terra, isto é, o resultado de experiências práticas, imediatamente aplicáveis.

No entanto, ele não tem o direito de tocar nos frutos antes que nove horas tenham decorrido. Passado esse prazo, é necessário que ele abandone ao Rio um terço do que recebeu; o restante lhe pertence.

A qual gestação esse número nove faz alusão? Significaria que um ensinamento, uma regra, deve ser extraída dos fatos e dos resultados obtidos apenas após certo tempo e após a abstração do que provém de contingências fortuitas?

Por que os frutos exigidos são três couves, três alcachofras e três cebolas? Teriam esses vegetais sido escolhidos em razão das múltiplas camadas que os constituem? Seria temerário pretender precisar, sobre este ponto, um simbolismo que permanece enigmático.

Os Fogos-Fátuos não possuem relação com a vida prática; seu ouro está em oposição aos produtos da terra cultivados pela prosaica companheira do Velho da Lâmpada. Couves, alcachofras e cebolas correspondem a um alimento espiritual, adaptado, em parte, às necessidades imediatas da clientela do Sacerdócio (Barqueiro), mas reservado em dois terços ao corpo docente. Este último efetua a triagem apenas após uma novena consagrada ao exame do conjunto.

O que não é colocado em circulação acumula-se em benefício dos adeptos da Arte Sacerdotal e os enriquece com uma Gnose capaz de explicar a transmutação final da madeira em prata. Não deve a humilde cabana do Barqueiro ocupar o lugar de honra no grande Templo que surgirá da terra quando os tempos se cumprirem?

Para disciplinar as massas, o ouro filosófico que cai do céu da idealidade pura não é o que convém. Afirmações de ordem prática impõem-se aos pastores responsáveis pelos rebanhos humanos. Seu cajado é de madeira, alusão aos dogmas ditados pelas necessidades do momento e proporcionados à capacidade das inteligências. Tudo isso é frágil e corruptível; mas, à claridade da lâmpada do Sábio, a velha madeira morta assume o valor de metal de boa lei, pois o esoterismo, que aprofunda, discerne o fundo verídico secreto de toda crença difundida de boa-fé.

O homem é, aliás, tão estreitamente limitado que é incapaz de mentir integralmente, mesmo quando se dedica a isso; com maior razão vincula-se ao verdadeiro quando é sincero.

goethe/conto-da-serpente-verde/wirth/conto-barqueiro-barca.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki