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LINGUAGEM

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Alguém disse — e não parece fácil contradizê-lo — que daqui a alguns anos as delicadas graduações de linguagem nos diferentes personagens de Proust não parecerão menos enigmáticas do que o Livro dos Mortos egípcio ou as estelas funerárias etruscas.

  • Pergunta-se ainda mais: como Proust é lido já hoje.
  • Ainda há quem ria do Doutor Cottard, que, recebido com fórmula requintada no camarote de Madame Verdurin, replicava solenemente no sentido literal, sem perceber a ironia cortês da anfitriã: “Com efeito, estamos muito próximos, e começamos a estar cansados de Sarah Bernhardt. Mas a senhora expressou o desejo de que eu viesse. Para mim seus desejos são ordens. Fico muito feliz em lhe prestar esse pequeno serviço.”
  • Madame Verdurin decide que o Doutor Cottard é um sábio que vive fora da existência prática; Monsieur Verdurin resolve mandar-lhe, em vez de uma belíssima rubi acompanhada de palavras veladas, “uma pedrona de trezentos francos, deixando entender que poucas existem tão belas.”
  • “É verdadeiramente mágica a arte de Proust se o diálogo ainda desperta um sorriso — a tal ponto se tornaram hoje normais, e quase obrigatórios, tais cândidos comércios e discursos.”

De um homem de modos patrícios, Frédéric Chopin, foi dito que “nada o aborrecia mais do que ser acreditado pela palavra de seus modos dulcíssimos e de sua cortesia eslava” — lamento todo moderno do homem bem-nascido num mundo já bárbaro.

  • Um mundo bárbaro — não barbaresco — do qual estão banidos os subentendidos graves da urbanidade e os inacessíveis pudores da graça.
  • “Pesadelo horrendamente literal, onde tudo vale o que parece.”

Regredimos, ao que parece, a uma época de paquidermes dos quais não seria honesto exigir familiaridade com as cristalarias — o understatement ou lítote cortês, e seu alto complemento, a hipérbole nobre tão cara a Shakespeare, tornaram-se incompreensíveis.

  • A hipérbole nobre shakespeariana é frequentemente uma hipérbole invertida, um inverted overstatement.
  • Se um mandarim chinês ainda existisse e ainda convidasse o hóspede ilustre a honrar sua “sórdida casa”, não poderia esperar em resposta mais do que um sério e vagamente perplexo: “Mas vamos, caro amigo, não está assim tão mal!”

De mandarins ainda vivos, na esfera das letras, não se conhece senão Borges — que define sua própria narrativa como “o irresponsável jogo de um tímido que não se decide a escrever contos e que se distraiu em falsificar histórias alheias.”

  • O crítico exclama imediatamente que Borges admite aí abertamente sua escassa criatividade — sem perceber a lítote.
  • “Não parece nada singular que Borges afirme às vezes ter sido entrevistado por um senhor antropomorfo — estranho seria que ninguém lhe perguntasse, como de fato aconteceu, se não se trataria por acaso de um macaco vestido.”

Divagando, chega-se a perguntar com que sentimentos de frustração indignada um contemporâneo se depararia com a sublime lítote dantesca — chamar a Commedia de comédia porque, após tantos horrores, tem um final feliz.

  • Ou que curioso indivíduo pode parecer-lhe Alessandro Manzoni, cujo trabalho “não é senão um tecido espessíssimo de lítotes, acesas aqui e ali de portentosas hipérboles.”
  • A cem anos de distância parece soberanamente desperdiçada a discrição com que Manzoni indicou a recôndita identidade de alguns de seus personagens — o Cardeal Borromeu e o Inominado são de modo tão patente o mesmo homem; assim como Dom Abôndio e Dom Rodrigo o são: “ambos movidos unicamente pela força, e pouco importa se um está na ponta, o outro no punho da espada.”

Na página venerável do encontro entre o Cardeal e o “selvagem senhor”, é sedutora em Manzoni a arte de desaparecer — como historiador — atrás de uma rede de lítotes eloquentes que imperceptivelmente aproximam as duas faces do Janus, recortando simultaneamente os dois altos perfis numa série breve e incandescente de exclamações hiperbólicas.

  • “Todos esses santos são obstinados — reflete o capelão de Sua Eminência —, ele faz sempre ao seu jeito…”; mas duas páginas depois é “essa vontade impetuosa, essa imperturbada constância” que Borromeu recorda ao Inominado.
  • Manzoni havia insistido, em ambas as biografias, sobre “a solidão radical na qual os dois personagens haviam aperfeiçoado os opostos-primas de suas existências.”
  • “É dito do Inominado que o 'mundo' não existia para ele, de modo que Dom Rodrigo não desejava mostrar-se ligado a um homem daquela sorte, porque isso significava renunciar a muitas coisas: a proteção do tio conde, os prazeres e as honras da vida civil.”
  • “Somente a uma tão pura ascese da delinquência é às vezes possível, como se sabe, mudar radicalmente, num instante, de direção e natureza — assim o golpe de leme que altera, sobre a cabeça do navegante, o significado de todas as constelações.”
  • Um celebrado velho diabo alertava: “Os grandes pecadores parecem mais fáceis de apanhar. Mas cuidado, são incalculáveis. Prontos, se as coisas se complicam, a desafiar a pressão social ao redor deles pelo amor de nosso Inimigo exatamente como estavam prontos a desafiá-la por amor nosso.”

O Cardeal inaugura o diálogo com o Inominado invertendo os papéis, como se usa somente entre primeiros e iguais — e o fecha “com a maravilhosa impudicícia dos anjos e dos soberanos”: “Um amor por vós que me devora!”

  • O outro, fulminado e prontíssimo, relança a idêntica moeda: “Se voltarei? Quando me recusásseis, permaneceria obstinado à vossa porta, como o pobre. Preciso de falar convosco! Preciso de vos ouvir, de vos ver! Preciso de vós!”
  • A porta da antecâmara, repleta e estupefata, se abre — “e o admirável casal apareceu.”
  • “O restante da história — de como aquele povo se comportou perante o Inominado só e desarmado, 'não menos inviolado do que quando mantinha armados tantos braços e o seu', de como 'o olhavam extasiados e se voltavam ainda para olhá-lo quando ele já havia seguido seu caminho' — não é senão uma longa glosa a essa frase, tão majestosamente simples.”

Atrás do admirável casal vem Dom Abôndio, a quem ninguém presta atenção — assim como ninguém prestará mais atenção a Dom Rodrigo assim que a peste lhe fizer saltar a espada das mãos.

  • A repreensão pastoral que o Cardeal Borromeu dirige ao seu pároco é marcada desde o início “por aquele selo de desespero que é a implacável, minuciosa, desértica explicitação.”
  • Com o Inominado um acento bastou, “como uma chama lançada sobre um monte de gravetos portentosamente secos”; com Dom Abôndio, “desoladamante, o Cardeal acumula sempre nova lenha na lareira, sabendo perfeitamente que não há fogo para queimá-la.”
  • Dom Abôndio não entende — há nele “aquela sorte de plúmbea inocência que é de certos animais das espécies menos sensíveis”: as galinhas, o Doutor Cottard, Dom Rodrigo, os glosadores de Borges.
  • “É um grande dizer que tanto os santos como os patifes hajam de ter prata-viva no corpo, e não se contentem de estar sempre em movimento eles, mas querem arrastar para a dança, se pudessem, todo o gênero humano” — e é exatamente nesse pequeno e duro pensamento de Dom Abôndio que Manzoni faz deslizar a última chave ao segredo de seu Janus.

Com tal elegância Manzoni conseguiu dissimular as secretas implicações simbólicas dos “Noivos” — “sua construção oblíqua e escorregadia, toda jogos de espelhos, de ecos, de silêncios, toda afirmações por contrário e negações por excesso” — a ponto de convencer o mundo, por cem anos, de ter inaugurado o romance realista, moralizante e apologético.

  • Quem hoje tente ler diferentemente este ou aquele livro — este ou aquele evento — parece dever ligar-se a um destino particular: “algo semelhante à vida do homem das cavernas, ou melhor, pois há muita jovialidade em tais escolhas, à vida daquele pintor tebano que estendia com cuidado tão maníaco, sobre o granito e a argila destinados à noite sepulcral, seus ocres mais resplandecentes, seus azuis mais frescos.”
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