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Blake e Dante
YEATS, W. B. The collected works of W.B. Yeats IV. New York: Macmillan, 1989.
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William Blake foi o primeiro escritor moderno a pregar o casamento indissolúvel de toda grande arte com o símbolo.
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A imaginação simbólica, ou “visão”, não é alegoria, sendo “uma representação do que realmente existe de modo real e imutável”.
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O símbolo é a única expressão possível de alguma essência invisível, uma lâmpada transparente sobre uma chama espiritual, enquanto a alegoria pertence à fantasia e não à imaginação.
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As relações entre símbolo e mente são necessárias para compreender a fonte da prática e do preceito da vida artística de Blake, embora contenham doutrinas obscuras para o homem da cultura moderna.
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As formas de beleza que habitam os momentos de inspiração são “cidadãos da eternidade”, que criam tudo o que se toca e vê ao lançar imagens distorcidas de si mesmos sobre “o vidro vegetal da natureza”.
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O purificação da mente através do estudo dos grandes mestres era essencial para distinguir os seres e substâncias da imaginação dos criados pela fantasia.
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Os grandes mestres eram grandes porque receberam por favor divino uma visão do mundo não caído, do qual outros são mantidos afastados pela espada flamejante que se volta para todos os lados.
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Era preciso fugir dos pintores que estudavam “o vidro vegetal” por si mesmo, para não cobrir o espírito nu com “os trapos podres da memória” de sensações mais antigas.
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Blake escapou finalmente das “tentações e perturbações” dos “Demônios Venezianos e Flamengos” em 1804, após ter sua imaginação enfraquecida pela “memória da natureza” e pelas imagens de várias escolas.
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Uma intuição de poder técnico que todo criador sente provavelmente o levou a formular os princípios de sua arte em prosa enfática e rima explícita após 1804.
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Blake era um realista literal demais da imaginação, acreditando que as figuras vistas pelo olho da mente quando exaltadas pela inspiração eram “existências eternas”.
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Ele odiava toda graça de estilo que pudesse obscurecer os lineamentos dessas figuras, considerando a linha divisória nítida, precisa e firme como a grande e dourada regra da arte e da vida.
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A inspiração consistia em ver o permanente e o característico em todas as formas, e sem ela se cairia no sono da natureza, onde tudo é suave e fluido.
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A cor depende de onde o claro e o escuro são colocados, e tudo depende da forma ou contorno, sendo a beleza própria para a arte sublime os lineamentos ou formas capazes de serem receptáculos do intelecto.
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Envolver as linhas imperecíveis da beleza com sombras e luzes refletidas era cair no poder de Vala, a fascinação indolente da natureza, mas a tendência mais lamentável era “generalizar” formas e sombras, caindo em regiões onde a imaginação e a carne estão igualmente mortas.
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Contra o desejo de “moderação tépida” e “sanidade” na arte e na vida, Blake protestou com violência paradoxal, ensinando que o excesso é o espírito vivificante da melhor arte.
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“A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”, e deve-se trazer “peso e medida apenas em tempo de escassez”.
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A ênfase na dissipação de Rafael, em oposição à penúria emocional, foi ensinada aos seus discípulos, como registrado no diário de Samuel Palmer em 1824.
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As três ordens primárias eram buscar um contorno determinado, evitar o tratamento generalizado e desejar sempre abundância e exuberância, chamando os oponentes de “demônios” e “vilões”.
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Durante e após a escrita dessas opiniões, Blake fez as várias séries de imagens que lhe trouxeram a maior parte de sua fama.
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As ilustrações para “Noites de Juventude” de Young e para “os livros proféticos” tinham energia elementar, mas eram esboços rápidos em vez de composições elaboradas.
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Ele completou os muitos desenhos para Milton, as ilustrações para o “Túmulo” de Blair e as ilustrações para o “Virgílio” de Thornton, cuja influência é manifesta no trabalho do pequeno grupo de pintores paisagistas que o chamavam de mestre.
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A grande série, obra-prima de sua vida, foram as ilustrações para “O Livro de Jó” e para “A Divina Comédia”.
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A técnica de Blake era imperfeita e incompleta, como a de quase todos os artistas que se esforçaram para trazer fogo de cumes remotos, mas onde sua imaginação é perfeita, sua técnica tem igual perfeição.
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Vivendo em uma época em que a técnica e a imaginação são continuamente perfeitas e completas porque não se esforçam mais para trazer fogo do céu, esquece-se quão imperfeitas e incompletas elas eram em mestres como Botticelli, Orcagna e Giotto.
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Os erros no artesanato dos espíritos exaltados são como os erros mais fantásticos em suas vidas, pois quem meio que vive na eternidade suporta um despedaçamento das estruturas da mente, uma crucificação do corpo intelectual.
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Blake acreditava que Dante representava um estado espiritual de inimizade eterna, misturando inspiração com uma filosofia mundana de soldados, homens do mundo e sacerdotes ocupados com o governo.
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A filosofia de Dante era a filosofia de Cristo ao descer ao mundo e expulsar os cambistas do Templo, enquanto a outra filosofia era a de Cristo envolto na essência divina e de artistas e poetas que simpatizam com todos os seres vivos.
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A filosofia mundana estabelecia “leis de prudência” para o corpo e a vontade caída, enquanto a filosofia divina era para a paz da imaginação e da vontade não caída.
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Blake chamava os seguidores da primeira filosofia de pagãos, e os da segunda de cristãos, pois estes podiam obedecer ao mandamento cristão do perdão ilimitado.
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Blake opunha o reino que passava, da Árvore do Conhecimento, ao reino que vinha, da Árvore da Vida, explicando seus ditos petulantes sobre Dante.
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Ele escreveu que Deus não poderia ter construído o Inferno de Dante, pois dá chuva ao mau e ao bom, e que toda tarefa de vingança não é do Pai, mas de Satanás, o acusador.
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Ele disse a Crabb Robinson que “Dante viu demônios onde eu não vi nenhum. Eu só vejo o bem”, e que nunca conheceu um homem muito mau que não tivesse algo muito bom.
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O perdão não era o do teólogo, mas do poeta e artista que descobre na prática de sua arte que sem uma simpatia perfeita não há imaginação perfeita, portanto nenhuma vida perfeita.
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A vida cultivada de Blake, em contraste com a lei complexa de Dante, é a redescoberta laboriosa da idade de ouro, onde o Cristo histórico é o símbolo supremo da imaginação artística.
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“Não me importa se um homem é bom ou mau; tudo o que me importa é se ele é sábio ou tolo. Vá, deixe a santidade e vista o intelecto.”
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Os homens são admitidos no céu não por conterem suas paixões, mas por cultivarem seus entendimentos, pois a santidade não é o preço para entrar no céu.
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A simpatia pelos seres vivos não é suficiente; é preciso desejar sempre a beleza, o único véu através do qual podem ser vistos os olhos desvelados da eternidade.
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A verdadeira arte é expressiva e simbólica, tornando cada forma, som, cor e gesto uma assinatura de alguma essência imaginativa inanalisável, sendo a chama do último dia que começa para cada homem quando ele é movido pela beleza.
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As ilustrações de Dante que contêm “uma inteligência ordinária” devem ser deixadas de lado, considerando-se apenas aquelas em que o ritual mágico evocou formas extraordinárias.
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A conquista mais nobre da arte é quando o artista se envolve na escuridão e lança sobre seus leitores uma luz como a de uma alvorada terrível e selvagem.
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Botticelli não podia simpatizar com as pessoas do Inferno e Purgatório como Blake, que as encheu de um significado místico nascido do panteísmo, sendo ele o ilustrador perfeitamente adequado para o Inferno e o Purgatório, ao contrário do Paraíso, onde não encontraria senão emblemas abstratos.
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Em uma nota posterior, o autor recorda como Ezra Pound o ensinou sobre o movimento contra a abstração, levando-o a sentir vergonha de termos como “razão corpórea” e “lei corpórea”.
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