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Corpo
SIGNORILE, Patricia. Paul Valéry, philosophe de l’art: l’architectonique de sa pensée à la lumière des “Cahiers”. Paris: J. Vrin, 1993.
DO CORPO CONCRETO AO CORPO ABSTRATO
A reflexão sobre o significado da palavra corpo revela que seu nome responde a diferentes necessidades de expressão.
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A referência à arquitetura por meio de Narciso se prolonga e se complementa na obra pelas referências ao instrumento e ao número.
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A precisão dos modos de ser do corpo concreto inclui o sentimento da presença carnal pelo jogo da consciência.
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A precisão dos modos de ser do corpo abstrato inclui a consciência raciocinante que se desdobra no espaço e no tempo pelo ardil do cálculo.
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A primeira definição de corpo revela a massa carnal como potencialidade fisiológica pura, designada “Meu-corpo”, que não é objeto nem fenômeno, mas presença complexa misturada de potência.
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A segunda definição desvenda um “corpo-mundano e objeto” ou “segundo corpo”, designado “C2”, que se experimenta pelo jogo especular e social e cujas formas são utilizadas pelas belas-artes.
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A terceira definição solicita o espírito e sua capacidade abdutiva, sendo o poder do espírito que se faz corpo e se constrói por autodoação, escondendo a matéria e a energia do pensamento.
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Essa terceira força, designada “C3”, exerce o papel matemático de uma incógnita, mas pode ser analisada, representando o que assume as funções de conservação contínua no conhecimento.
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A terceira definição é o “corpo do espírito” ou o “corpo-verdadeiro”, ou seja, o trabalho íntimo de funcionamento que é verdadeiramente o corpo e o fator humano.
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Uma quarta definição flutua com as opções intelectuais de Valéry, assumindo às vezes um valor científico e outras vezes metafísico.
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No “Retrato de Monsieur Teste”, o corpo é apresentado como o inconhecível objeto cujo conhecimento resolveria todos os problemas.
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Numa conferência de 1944, a quarta definição é dotada de elementos como os elétrons e os prótons, propondo uma representação total do corpo no estado atual dos conhecimentos.
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O corpo concreto (coisa e saber de si), o corpo-abstrato (síntese de informações) e o corpo-metafísico (conhecimento tangível) representam graus de aproximação de uma palavra tornada nocional.
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Constata-se que o homem parece construir seu corpo livre à imagem de seu corpo vegetativo, tratando-se talvez de um problema de metafísica biológica.
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Postula-se a existência de um corpo universal que conteria o ser biológico, e se o corpo realizasse o possível que carrega em si, o espírito desapareceria.
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A arquitetônica do pensamento é construída a partir de princípios reformados da percepção, resolvendo-se todas as determinações na do corpo-construtor, único produtor de sentido.
A EXPERIÊNCIA FENOMÊNICA DO CORPO
A experiência fenomênica do corpo é abordada pela relação entre corpo e espírito que não é mais antagônica.
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A citação “Se o homem fosse espírito puro — não haveria surpresa, nem as diversas importâncias das coisas, nem esses tateios e transtornos que tornam sensíveis os trabalhos que fazem o pensamento” é incluída para mostrar que o corpo dá um tempo e uma materialidade ao pensamento.
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A crítica a Descartes segue o modelo biraniano, afirmando ser estranho que o corpo não desempenhe um papel fundamental nas filosofias conhecidas.
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A citação “A vida é para cada um o ato de seu corpo” é utilizada para afirmar que a experiência carnal não é ilusória e que todo sistema filosófico que não atribui um papel fundamental ao corpo é inepto.
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O cogito cartesiano é reinterpretado porque “penso, logo não sou”, distinguindo-se de tudo o que é, sendo necessário bater o pé no chão para se confirmar no real.
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O corpo carnal é reabilitado como origem do corpo abstrato, em contraste com o dualismo cartesiano, descrevendo um ser-no-mundo pré-fenomenal centrado no corpo vivido.
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A sensação de esforço descrita por Maine de Biran não tem existência real porque a mão revela a resistência dos objetos, não a si mesma; o tato conduz à experiência imediata das coisas.
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Merleau-Ponty é citado para afirmar que, retomando o contato com o corpo, “é também a nós mesmos que vamos reencontrar”, pois o corpo é um eu natural e sujeito da percepção.
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O “eu penso” descobre-se em relação imediata com um corpo sempre já presente, mostrando a camada primordial onde nascem as ideias e as coisas.
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Tanto Merleau-Ponty quanto Valéry constataram a aderência de todo saber à sua origem carnal, sendo própria do corpo humano apropriar-se de núcleos significativos que transfiguram seus poderes naturais.
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O corpo em primeira pessoa é investido de poderes tradicionalmente reconhecidos à consciência pura, pois o corpo ao qual se confia a síntese do mundo não é um puro dado.
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O corpo determina as redes modulares que se impõem à consciência, renovando a intuição renascentista do corpo como padrão e centro de irradiação; o espírito é concebido como resultado, um momento da resposta do corpo ao mundo.
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Questiona-se a lei das uniões, separações e substituições entre corpo e conhecimento, quando ora um, ora outro domina.
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O corpo assume a temporalização da experiência, pois a cada movimento de fixação, o corpo amarra passado, presente e futuro, secretando tempo em vez de sofrê-lo.
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Cria-se uma ontosofia carnal operando uma inversão entre consciência de si e consciência do corpo, traduzindo em termos corporais o que tradicionalmente pertence às funções intelectuais.
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O corpo é o instrumento de referência, o padrão, mas também certeza e coordenação, dando os valores fundamentais ao pensamento, ou seja, seu peso, suas consequências, sua força e seus efeitos definitivos.
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A oscilação entre o concreto e o abstrato gera dificuldades, pois não existe começo; as coisas se apresentam sempre como já engajadas.
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A consciência individual e a intersubjetividade são engendradas pela imbricação do corpo subjetivo com o corpo objetivo, ou melhor, pelo equilíbrio criado na troca espaço-temporal.
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Sartre é mencionado para afirmar que é porque o mundo é humano que a profundidade vem ao mundo pelo homem.
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É preciso que com “meu corpo” despertem os “corpos associados” dos quais fala Merleau-Ponty, ou seja, os outros, que não são congêneres, mas que habitam e são habitados em um único Ser atual.
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A noção de “corpos associados” não é sinal de uma consciência deslocada, mas o legado da filosofia dos ideólogos, contribuindo para reabilitar a experiência corporal, embora se questione se é possível reduzir o pensamento à sensação.
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