Baphomet
MeyrinkAJO
Em O Anjo à Janela do Ocidente, o barão Müller, último descendente dos Dee de Gladhill, é o próprio John Dee relembrando a si mesmo: e caberá ao barão Müller levar a bom termo a empreitada na qual tanto John Dee quanto outra manifestação sua na linhagem do mesmo sangue — John Roger — fracassaram. Ao redor do barão Müller, aliás, evoluem, como figuras dos tempos modernos e em situações análogas, os mesmos personagens e os mesmos poderes com os quais ele já teve de lidar alguns séculos antes. (Julius Evola, Prefácio)
Passei, pois, o dia a compulsar os documentos deixados por meu primo, e concluo que é inútil esperar ordenar em um conjunto coerente esses fragmentos de antigos estudos e essas velhas notas: nada mais há a edificar sobre esses escombros! «Lê ou queima», murmura-me sem cessar uma voz interior. «O pó ao pó!»
Que tenho eu, afinal, a ver com essa história de um certo John Dee, baronete de Gladhill? Que era um velho inglês inclinado ao spleen e, segundo toda verossimilhança, um antepassado de minha mãe?
Todavia não consigo decidir-me a mandar ao diabo essa confusão. Por vezes as coisas têm mais poder sobre nós do que nós sobre as coisas: elas estendem aos vivos espécies de armadilhas ao se fazerem passar por mortas. Não, não me decido a interromper uma leitura que, de hora em hora, não saberia dizer por quê, me cativa cada vez mais. Do seio desse caos fragmentário emerge uma forma crepuscular, bela e triste: a de um espírito superior. De um homem atrozmente extraviado que brilhou na manhã de sua vida para ver amontoarem-se as nuvens sobre sua maturidade: perseguido, escarnecido, crucificado, reconfortado com fel e vinagre; um homem que roçou o inferno, um eleito, contudo, que, afinal, foi arrebatado às altas esferas do céu, porque era uma alma nobre, um conhecedor audacioso, um espírito ardente.
Não, a história de John Dee, descendente de uma das mais antigas linhagens da ilha, dos velhos príncipes e condes de Gales, meu antepassado pelo sangue materno, a história de John Dee não deve afundar no esquecimento.
Mas não posso escrever como desejaria aquilo que nela vejo. Faltam-me quase todas as condições prévias: a possibilidade de um estudo pessoal e o eminente saber de meu primo em um domínio que uns qualificam de «oculto» e do qual certas pessoas julgam livrar-se cobrindo-o com o termo «parapsicologia». Falta-me, nessa matéria, experiência e critérios. Não posso fazer melhor do que tentar, com um cuidado escrupuloso, trazer a esse imbróglio de vestígios uma ordem e um plano racional: «Preservar e transmitir», segundo as palavras de meu primo John Roger.
Certamente não se dispõe assim senão de um mosaico frágil. Mas a fratura de uma ruína não é, muitas vezes, mais comovente do que uma casa graciosa? Enigmático, esse sorriso nos contornos de uma boca, que desmente a profunda melancolia na raiz do nariz; enigmático, esse olhar fixo sob uma fronte ausente; enigmático, esse brilho de frescor subitamente rosado, sobre um fundo que se esfarela. Enigmático, enigmático…
Custar-me-ão semanas, senão meses, de trabalho extenuante para desfazer, primeira etapa indispensável, esse novelo já meio apodrecido. Hesito: devo fazê-lo? Se tivesse uma onça de certeza, se um conselheiro interior invisível me soprasse essa decisão, deixaria, com toda irreverência, essa barafunda ir-se em fumaça para «agradar a Deus».
Impõe-se-me cada vez mais o pensamento do barão Michel Arangelovitch Stroganof, que está morrendo e já não pode fumar seus cigarros, talvez porque Deus tenha escrúpulo de que um homem lhe demonstre tanta deferência.
Ainda hoje, o sonho da escarbúncula. Ocorreu como na noite anterior, mas a sensação de frio devida à descida do cristal até a minha dupla cabeça já não me era dolorosa, de modo que não despertei. Viria isso do fato de que a escarbúncula havia tomado posse definitiva de minha abóbada craniana? Nada sei. Seja como for, no instante em que o raio luminoso iluminou simultaneamente as duas faces de minha cabeça, vi que eu era essa criatura de duas cabeças e, no entanto, um outro: vi-me, era bem o caso de dizer «Jano», mover os dois lábios de uma das faces, enquanto a outra permanecia imóvel. E esse mudo era incontestavelmente «eu». «O Outro» entregava-se a longos e vãos esforços para emitir um som, como se lutasse para sair de um sono profundo e pronunciar uma palavra.
Por fim os lábios moldaram um sopro e exalaram esta frase a meu endereço:
«Não ordenes! — não te presumas capaz! Onde a razão põe ordem, ela provoca uma inversão das causas primeiras e prepara a destruição. Lê, deixando-te guiar pela mão e não semeies devastações. Lê, deixando-te guiar — por mim…»
Senti como um martírio em minha «outra» cabeça o esforço dessas palavras, o que, segundo toda verossimilhança, me despertou.
Estranho, o meu estado de espírito. Que vai acontecer? Um espectro liberta-se em mim? Uma miragem nascida do sonho quer misturar-se à minha vida? Sou objeto de um desdobramento de consciência e tornar-me-ia «louco»? Longe disso, encontro-me em excelente saúde, lúcido, sem a menor propensão a sentir-me «duplo»; muito menos constrangido, de onde quer que seja, a pensar ou agir. Sou absolutamente senhor de minhas emoções, de minhas intenções: sou livre!…
Ainda um fragmento de lembrança, de minhas cavalgadas sobre os joelhos de meu avô, que vem à tona; ele dizia que nosso gênio tutelar era mudo, mas que um dia falaria. Então viria o fim dos dias do Sangue: a coroa já não pairaria acima de sua cabeça, mas resplandeceria em sua Dupla Fronte.
«Jano» começa a falar? É o fim dos dias do Sangue? Sou o último herdeiro de Hoël Dhats?… Seja como for, as palavras impressas em minha memória têm um sentido claro: «Lê, deixando-te guiar por mim!» E: «A razão provoca uma inversão das causas primeiras.»… Pois bem, obedecerei ao conselho dado; mas não, não, não é uma ordem, aliás eu recusaria deixar-me comandar; é um conselho, sim, sim, um conselho, um simples conselho! E por que não o seguir? Portanto não classificarei. Transcreverei ao acaso do que minha mão apanhar.
Tomo, sem olhar, uma folha na pilha; reconheço a escrita abrupta de meu primo John Roger e leio:
Tudo terminou há muito tempo. Mortos há muito tempo estão os homens que aparecem nesses documentos biográficos, com suas cobiças e suas paixões; em seu pó, eu, John Roger, ouso agora remexer; assim agiram eles mesmos a respeito de outros homens que haviam desaparecido muito antes deles, como desapareceram para mim, hoje violador de suas cinzas.
Que é que morreu? Que é que passou? Aquilo que pensou, agiu, outrora, é hoje ainda ato e pensamento: tudo o que tem poder está vivo. Certamente não encontramos, todos nós, aquilo que havíamos buscado: a verdadeira chave do tesouro da vida, a chave misteriosa cuja busca basta para significar o sentido e a obra de uma vida inteira. Quem viu acima de si a coroa com a escarbúncula? Nós, os descobridores, o que encontramos? Nada senão a desgraça inconcebível e a visão da morte, da qual, no entanto, se diz que deve ser vencida! Mas convém que a chave repouse no abismo das águas tumultuosas. Quem não mergulha por si mesmo não a obtém. O último dia do Sangue não havia sido objeto de um oráculo para nossa linhagem? Nenhum de nós viu esse último dia. Deve-se por isso felicitar-se? Acusar-se também, sem dúvida.
A personagem de duas cabeças não se mostrou a mim, apesar de todas as minhas evocações. Não vi a escarbúncula. Assim deve ser: aquele a quem o diabo não volta violentamente a cabeça para trás, esse se dirigirá irresistivelmente para a terra dos mortos e jamais verá erguer-se a luz. Mas a qual de nós, do sangue de John Dee, o Baphomet falou, então?
John Roger.
Esse nome, «Baphomet», atingiu-me como um golpe de maça. Pelo amor de Deus, o — Baphomet! — Sim, é o nome que não queria retornar-me! É o Coroado de duplo rosto, o deus do sonho hereditário de meu avô! São as sílabas que ele me murmurava ao ouvido, destacando-as ao ritmo de sua respiração como se quisesse cravá-las em minha alma enquanto, cavaleiro criança, eu subia e descia sobre sua coxa:
Baphomet? Baphomet!
Mas quem é Baphomet?
É o símbolo hermético da antiga Ordem secreta dos Cavaleiros do Templo; o singular por excelência, mais próximo para o Templário do que tudo o que lhe é próximo e permanecendo, por essa mesma razão, um deus desconhecido.
Teriam os baronetes de Gladhill sido Templários? Fiz a mim mesmo a pergunta. Era possível, ao menos para um ou outro, quem sabe? O que dizem os manuais e a opinião pública é obscuro: Baphomet seria o «subdemiurgo»; sutileza de hierarquia gnóstica degenerada! Mas por que duas faces? E por que, ademais, sou eu aquele que desenvolve em sonho essas duas faces? Um fato, entre todos os outros, é verdadeiro: eu, último rebento dessa família inglesa dos Dee de Gladhill, encontro-me «no fim dos dias do Sangue».
E sinto confusamente que estarei pronto a obedecer se o Baphomet se dignar falar…
Nesse instante Lipotine interrompeu minhas especulações. Trazia-me notícias de Stroganof. Enquanto enrolava tranquilamente um cigarro, contou-me que as hemoptises esgotavam o barão; talvez um médico não fosse inútil, ao menos para suavizar-lhe o fim. «Mas», fez Lipotine, com um despreocupado encolher de ombros, o gesto de contar dinheiro.
Compreendi; fui abrir uma gaveta de minha mesa na qual guardo o meu.
Lipotine pousou a mão em meu braço, ergueu as espessas sobrancelhas com uma expressão indefinível, como se quisesse dizer: «Sobretudo nada de caridade», e mordiscou o cigarro: «Espere, caro senhor.» Tirou de sua peliça e estendeu-me, resmungando, uma pequena caixa atada:
«O último bem de Michel Arangelovitch. Ele pede a bondade de aceitá-lo. Pertence-lhe.»
Tomei o objeto hesitando. Era um pequeno cofre de prata maciça bastante simples, provido de um sistema de fechaduras de segredo ao mesmo tempo decorativas e eficazes. A julgar pelos motivos e pelas fechaduras, tratava-se de um modelo executado por um ourives de Tula de alta época. Uma peça trabalhada interessante, sem dúvida. Entreguei a Lipotine uma soma que estimei corresponder ao seu valor. Ele amarrotou negligentemente as notas e enfiou-as, sem contar, no bolso do colete. «Michel Arangelovitch poderá morrer decentemente.» O assunto foi resolvido sem outro comentário. Ele me deixou pouco depois.
Tenho agora nas mãos um cofre de prata maciça trancado que não posso abrir. Tentei durante horas: esforço perdido. Seria preciso uma serra ou um pé de cabra, ao menos, para vencer essas montagens, e o belo cofre seria danificado. Deixemo-lo como está.
